Trump pressiona Lula com convite para conselho de paz em Gaza
Donald Trump lança, nesta quinta-feira (22), uma proposta pública para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva integre um conselho de paz sobre Gaza. O gesto, apresentado como cooperação diplomática, aumenta a pressão sobre o governo brasileiro em um dos temas mais sensíveis da política externa recente.
Convite público expõe dilema da diplomacia brasileira
A iniciativa surge em meio a um cenário internacional já carregado, em que o conflito na Faixa de Gaza soma meses de ofensivas militares, tentativas fracassadas de cessar-fogo e impasse nas instâncias multilaterais. Ao propor que Lula ocupe cadeira em um conselho de paz articulado sob sua influência, Trump tenta atrair o Brasil para uma mesa de negociações em que os Estados Unidos ditam o ritmo e o enquadramento político.
O convite é divulgado em 22 de janeiro de 2026, enquanto o Planalto busca reafirmar a tradição brasileira de atuar como mediador multilateral, sob guarda-chuva da ONU e de fóruns como G20 e Brics. A proposta de um conselho com protagonismo direto de Washington contrasta com esse roteiro e força o governo a escolher entre a manutenção da linha histórica ou a aposta em um acordo que pode ser visto, internamente, como alinhamento a uma agenda de poder norte-americana.
No entorno de Lula, auxiliares admitem em privado que o gesto é visto como “teste de limite” da autonomia brasileira. A avaliação é que Trump, de volta ao centro da cena política americana, tenta compor um núcleo de países que ofereça respaldo a uma solução para Gaza sob parâmetros mais favoráveis a Israel e a interesses estratégicos dos Estados Unidos. A entrada do Brasil nesse grupo poderia ser explorada como sinal de prestígio externo, mas também como evidência de adesão a um desenho de paz já pré-moldado.
Diplomatas ouvidos sob reserva afirmam que o Brasil se vê encurralado entre dois riscos. De um lado, recusar o convite pode ser interpretado como desinteresse em contribuir para a pacificação de uma guerra com saldo de milhares de mortos civis. De outro, aceitar sem impor condições claras pode gerar desgaste com parceiros árabes e com atores que cobram do país uma coerência com a defesa histórica do direito internacional e da solução de dois Estados.
Impacto político interno e custo nas alianças externas
No plano doméstico, o movimento de Trump abre uma frente de disputa imediata. Setores da oposição tendem a cobrar que o Brasil assuma papel mais “realista” ao lado dos Estados Unidos, usando o conselho de paz como chance de aproximação econômica e militar. Parte da base governista, porém, vê na proposta uma armadilha diplomática que pode enfraquecer a imagem de independência que Lula cultiva desde o primeiro mandato, em 2003.
O Itamaraty trabalha com pelo menos três cenários de reação, segundo interlocutores. Em um primeiro, o Brasil aceita discutir a ideia, mas condiciona qualquer participação a um mandato claro da ONU e à inclusão de países do Oriente Médio e de potências emergentes. Em outro, o governo responde com uma proposta alternativa, reforçando o Conselho de Segurança e fóruns como a Liga Árabe, para diluir o protagonismo americano. Em um terceiro, evita aderir formalmente, mas se dispõe a colaborar pontualmente, em comitês técnicos ou missões humanitárias.
Organizações da sociedade civil que acompanham o conflito alertam para o peso simbólico da decisão. Caso aceite o convite, o Brasil estará, na prática, validando um arranjo em que as grandes potências estruturam a mesa de negociação e chamam países intermediários apenas para conferir legitimidade. “É uma oportunidade de ter voz, mas também um risco de virar figurante em um roteiro já escrito”, resume um pesquisador de relações internacionais da Universidade de Brasília.
No cenário externo, a escolha de Lula será observada com lupa por países árabes, por Israel e por aliados tradicionais como França e Alemanha. Desde 2010, quando o Brasil tentou mediar o dossiê nuclear iraniano ao lado da Turquia, a diplomacia brasileira busca espaço como articuladora de soluções em crises globais. A adesão a um conselho de paz sob tutela política de Trump pode ser lida por alguns parceiros como mudança de rota, com possível impacto em votações na ONU, em negociações comerciais e até em candidaturas brasileiras a cargos em organismos internacionais.
Próximos passos e teste de autonomia para o Brasil
Lula evita, por ora, um posicionamento definitivo e orienta a equipe a ganhar tempo, segundo relato de auxiliares. A expectativa é que, nas próximas semanas, o governo apresente uma resposta calibrada, possivelmente em discurso oficial ou entrevista coletiva em Brasília. Interlocutores falam em prazo de cerca de 30 dias para que o Brasil defina se participa, em que formato e sob quais condições mínimas.
A estratégia do Planalto passa por medir o pulso da opinião pública, de partidos aliados e de governos estrangeiros antes de fechar posição. A leitura é que a decisão sobre Gaza não se limita ao presente conflito: funciona como termômetro da capacidade do Brasil de manter política externa autônoma em meio à disputa entre grandes potências. Se aceitar o convite, o país ganhará visibilidade e espaço de influência, mas assumirá também o risco de ser cobrado por resultados concretos em um conflito de alta complexidade. Se recusar, reforçará o discurso multilateral, porém poderá enfrentar resistência maior em agendas futuras com Washington. No centro desse tabuleiro, permanece uma pergunta sem resposta: até onde o Brasil está disposto a ir para preservar sua autonomia quando a paz, a pressão e o prestígio caminham na mesma mesa de negociações?
