Trump afirma ter estrutura de acordo para controle dos EUA na Groenlândia
Donald Trump afirma ter criado, em reunião recente com o chefe da Otan, Mark Rutte, uma estrutura para um acordo sobre o controle da Groenlândia. O território, hoje sob soberania da Dinamarca, ganha novo peso na disputa pelo Ártico. A movimentação acende alerta em capitais europeias e em rivais estratégicos dos Estados Unidos.
Território gelado, disputa quente
Trump relata o avanço durante encontro diplomático com Rutte, que comanda a aliança militar ocidental. Segundo o presidente norte-americano, a conversa define as bases formais de um entendimento para ampliar a presença dos EUA na Groenlândia e, em última instância, assegurar comando político e militar sobre o território. O gesto recoloca na mesa uma ambição que Washington alimenta há décadas, agora sob a sombra da corrida global pelo Ártico.
A Groenlândia ocupa área de cerca de 2,1 milhões de quilômetros quadrados, com pouco mais de 56 mil habitantes, mas concentra relevância que não aparece no mapa populacional. O degelo acelerado abre novas rotas marítimas e acesso a reservas de petróleo, gás e minerais estratégicos. Para o Pentágono, o território funciona como ponte natural entre a América do Norte e a Europa e como posto avançado diante da Rússia. A presença da base aérea de Thule, usada pelos EUA desde a década de 1950, simboliza esse papel.
Pressão sobre Dinamarca e disputa no Ártico
Trump descreve a iniciativa como parte de um esforço mais amplo para reforçar a posição americana em regiões consideradas críticas para a segurança internacional. “Precisamos garantir que os Estados Unidos liderem no Ártico”, afirma, segundo relato de assessores presentes à reunião. Ao mencionar uma “estrutura de acordo”, ele sinaliza que há, ao menos no plano político, um desenho inicial de como repartilhar responsabilidades e influência sobre a ilha, hoje integrante do Reino da Dinamarca.
O movimento tende a pressionar Copenhague, que desde 1953 integra formalmente a Groenlândia ao reino, embora a ilha tenha amplo autogoverno desde 2009. A Dinamarca, com economia anual em torno de US$ 400 bilhões e cerca de 6 milhões de habitantes, vê a ilha como peça central de sua projeção no Norte. A ideia de que a Otan possa avalizar um arranjo em que os EUA assumam comando mais direto alimenta temor de esvaziamento da soberania dinamarquesa e reacende debate interno sobre o grau de autonomia da Groenlândia.
Interesses militares, econômicos e políticos
A região concentra reservas estimadas de bilhões de barris de petróleo e grandes volumes de minerais raros, insumos vitais para baterias, equipamentos militares e tecnologias verdes. Em meio à transição energética e à disputa entre potências por cadeias de suprimento, cada jazida e cada rota de navegação ganham peso. Para Washington, garantir posição dominante na Groenlândia significa, ao mesmo tempo, afastar a influência russa e conter a aproximação econômica da China, que tenta investir em portos e mineração no entorno do Ártico.
Analistas veem risco concreto de escalada. Rússia já mantém forte presença militar na região e investe em novas bases e quebra-gelos. O Canadá acompanha com cautela, preocupado com a militarização de águas próximas. Um eventual acordo que amplie o comando americano, com chancela da Otan, pode redesenhar a balança de poder no Hemisfério Norte e complicar negociações futuras dentro da própria aliança, dividida entre conter a Rússia e evitar fraturas internas com países europeus.
Reações, incertezas e próximos passos
Diplomatas europeus ouvidos reservadamente avaliam que qualquer avanço concreto exigirá negociação longa, possivelmente ao longo de anos, envolvendo não só EUA e Dinamarca, mas também o governo local da Groenlândia. A ilha realiza eleições próprias e reivindica mais autonomia sobre recursos naturais. Um desenho em que Washington amplie sua influência sem compensações claras à população local tende a encontrar resistência política e social.
O anúncio de Trump não detalha prazos, valores ou instrumentos jurídicos do suposto acordo. Não está claro se se trata de um plano de cooperação militar reforçada, de um entendimento político mais amplo ou de proposta para participação americana direta na administração do território. A partir de agora, observadores acompanham se a Otan formaliza qualquer grupo de trabalho sobre o tema e se a Dinamarca aceita colocar sua peça mais sensível do tabuleiro em discussão aberta. A resposta de Copenhague e da própria Groenlândia dirá se a estrutura anunciada por Trump é ponto de partida de uma nova era no Ártico ou apenas mais um gesto que ficará congelado no discurso.
