Saída de Camilo do MEC reacende disputa pelo comando do Ceará em 2026
O ministro da Educação, Camilo Santana (PT), anuncia que deve deixar o cargo entre o fim de março e o início de abril de 2026 para se dedicar à política no Ceará. A movimentação, vista no Planalto como peça-chave para reforçar o palanque de Lula no Nordeste, provoca reação imediata no Estado. O senador Cid Gomes (PSB-CE) afirma que a saída é “terrível” para o governador Elmano de Freitas (PT) e expõe a disputa em torno da sucessão no Palácio da Abolição.
Estratégia nacional, ruído local
Camilo apresenta a possível saída do Ministério da Educação como gesto de lealdade. Diz que quer “focar mais no Ceará” e trabalhar pela reeleição de Elmano em outubro de 2026 e pela manutenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no comando do país. O movimento, porém, é lido de forma diferente por parte da elite política cearense, em especial pelo senador Cid Gomes, que enxerga mais risco do que proteção para o atual governador.
“Se ele (Camilo) sair, isso é terrível para o Elmano. O Camilo, como foi um excelente governador, saiu muito bem avaliado; ele não deixa de ser uma sombra para o governador Elmano. Agora, se ele sai do ministério, isso deixa de ser uma sombra e passa a ser um fantasma”, afirma Cid, em entrevista à Folha de S.Paulo. A frase resume o temor de que a presença de Camilo no território cearense, sem cargo executivo e em pleno calendário eleitoral, amplie a comparação direta entre o ex-governador e seu sucessor.
O cálculo político passa pela legislação eleitoral. Para disputar qualquer cargo em outubro, ministros precisam se desincompatibilizar até o início de abril. Ao anunciar que pretende deixar o MEC “entre o fim de março e o começo de abril”, Camilo mantém aberta a possibilidade de entrar na corrida estadual, mesmo repetindo em público que seu objetivo é impulsionar a campanha de Elmano.
Pesquisas apertam o cerco sobre Elmano
As dúvidas sobre o papel de Camilo na disputa de 2026 se alimentam de números recentes. Levantamento Real Time Big Data, divulgado em dezembro de 2025, mostra empate técnico entre o governador Elmano de Freitas e o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), ambos com 39% das intenções de voto. A pesquisa não testa cenário com Camilo na disputa, mas sinaliza um ambiente competitivo para a reeleição do atual governador.
No mesmo mês, pesquisa Ipsos-Ipec amplia o sinal de alerta no Palácio da Abolição. Ciro aparece com 44%, dez pontos à frente de Elmano, que marca 34%. Já o Instituto Paraná Pesquisas, também em dezembro, aponta Ciro com 46% e Elmano com 33,2%, uma diferença de quase 13 pontos percentuais. Quando o cenário inclui Camilo Santana, o quadro muda: Ciro cai para 45%, e o ex-governador aparece com 36,8%, reduzindo a distância para pouco mais de oito pontos.
Os dados alimentam conversas de bastidor e reforçam a leitura de que Camilo se mantém como ativo eleitoral mais forte do grupo aliado a Lula no Ceará. Embora o ministro e o presidente neguem publicamente qualquer plano de substituição de Elmano, interlocutores admitem, em reservado, que o desempenho do governador nas pesquisas ao longo de 2026 pode reabrir a discussão sobre a cabeça de chapa. O prazo legal para troca, contudo, é limitado pelo calendário da Justiça Eleitoral.
O histórico recente explica a centralidade de Camilo. Em 2014, ele vence a disputa para o governo do Ceará por margem apertada contra Eunício Oliveira (MDB). Em 2018, é reeleito no primeiro turno com 79,96% dos votos válidos, maior percentual já registrado em eleições para governador no Estado. Em 2022, deixa o cargo com alta aprovação e se elege senador com quase 70% dos votos, consolidando-se como principal liderança petista na região.
Lula mira o Nordeste, Ceará testa alianças
O movimento em torno de Camilo não se limita ao tabuleiro estadual. No Planalto, auxiliares de Lula veem o ministro como peça para coordenar palanques no Nordeste, com ênfase em Ceará e Bahia. A avaliação do presidente é que a vitória de 2022 passa, em grande medida, pelo desempenho acima da média nesses dois Estados. Manter e ampliar essa vantagem se torna condição estratégica para 2026, diante da fragmentação do eleitorado no Sudeste.
Ao colocar Camilo de volta ao jogo local, Lula busca um cabo eleitoral capaz de unificar prefeitos, deputados e lideranças regionais. O risco, apontado por Cid Gomes, é que essa mesma força produza tensão dentro do próprio grupo governista. Elmano se elege em 2022 ancorado na popularidade de Camilo e no apoio do então presidenciável Lula. Em 2026, porém, terá de defender sua própria gestão diante de indicadores locais e de uma oposição reorganizada em torno de Ciro Gomes.
O ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff e ex-governador do Ceará escolhe o PSDB como nova sigla e tenta reconstruir uma plataforma liberal na economia, com discurso crítico ao PT. Enquanto isso, Cid, seu irmão, se abriga no PSB e adota tom mais pragmático em relação ao governo Lula, mas não poupa críticas ao desenho da estratégia no Ceará. A família Gomes volta a aparecer em lados diferentes do mesmo tabuleiro, reproduzindo fissuras que marcaram a eleição de 2022 no Estado.
2026 em aberto: fantasma, escudo ou candidato?
Os próximos meses testam a capacidade de Elmano de Freitas de se afirmar como protagonista. Se as pesquisas de intenção de voto reagirem, com redução da distância em relação a Ciro Gomes, o governador ganha fôlego para manter a candidatura e usar Camilo como escudo e avalista. Se os números seguirem negativos, cresce a pressão para que o ministro deixe de ser apenas articulador e volte à linha de frente como candidato ao Palácio da Abolição.
A saída de Camilo do MEC também abre disputa interna por um dos principais ministérios do governo Lula, responsável por um orçamento bilionário e por programas de alta visibilidade, como o Novo Ensino Médio e a expansão de universidades e institutos federais. A escolha do sucessor sinaliza o peso que o presidente atribui ao Ceará e ao próprio Camilo no desenho de 2026. Até lá, a sombra elogiada por Cid já se transforma em fantasma que ronda não apenas o Palácio da Abolição, mas também o Planalto. A pergunta que permanece é se Lula aceitará exorcizar esse fantasma ou se decidirá colocá-lo de volta na urna como candidato.
