Ultimas

Ricupero vê em Trump maior ameaça à democracia dos EUA desde a Guerra Civil

O ex-ministro Rubens Ricupero afirma que Donald Trump representa “a maior ameaça à democracia americana desde a Guerra Civil”. A avaliação é dada em 20 de janeiro de 2026, em análise ao Valor Econômico, e amplia o alerta sobre o impacto global da crise política nos Estados Unidos.

Alerta de um diplomata sobre a democracia americana

Ricupero, de 89 anos, fala com a autoridade de quem acompanhou mais de seis décadas de diplomacia e política internacional. Em sua leitura, a combinação de retórica inflamável, contestação sistemática de resultados eleitorais e ataques pessoais a juízes e instituições coloca o sistema político americano em um patamar inédito de tensão desde o século 19.

Ao associar Trump à Guerra Civil, travada entre 1861 e 1865 e responsável por mais de 600 mil mortes, o ex-ministro sinaliza que a crise atual ultrapassa disputas partidárias. Para ele, está em jogo a capacidade das instituições de resistirem à pressão de um líder disposto a testar todos os limites constitucionais em nome de um projeto personalista de poder.

Ricupero lembra que a recusa de Trump em aceitar a derrota nas eleições de 2020, formalizada em 6 de janeiro de 2021 com a invasão do Capitólio, não fica restrita ao passado. “Quando um candidato ameaça não reconhecer resultados futuros e incentiva a desconfiança em cada etapa do processo, ele mina a base da democracia, que é a confiança mínima nas regras do jogo”, afirma.

A análise vem em um momento em que pesquisas nacionais nos Estados Unidos apontam um eleitorado dividido quase ao meio. Em levantamentos recentes, margens de 1 a 3 pontos percentuais separam Trump de seus adversários, o que amplia a percepção de que qualquer contestação ao resultado final pode incendiar o ambiente político. Nesse cenário, a fala de um diplomata experiente encontra eco em governos estrangeiros e mercados financeiros, atentos a cada sinal de instabilidade.

Polarização interna com efeito global

O ex-ministro enxerga na trajetória recente de Trump um fator de desorganização institucional dentro e fora dos Estados Unidos. Ele cita a pressão do ex-presidente sobre autoridades estaduais para “encontrar votos” em 2020, os ataques reiterados ao Supremo americano e o questionamento de investigações conduzidas por órgãos independentes como sintomas de uma agenda que tenta subordinar o Estado a interesses pessoais e de grupo.

Na avaliação de Ricupero, esse comportamento corrói não apenas a democracia americana, mas também a reputação internacional do país. “Quando o principal modelo de democracia liberal do século 20 passa a viver sob ameaça interna, outras lideranças autoritárias se sentem encorajadas. Elas podem dizer a seus povos: ‘Nem os Estados Unidos acreditam mais na própria democracia’”, observa.

A tensão se reflete diretamente em temas centrais da geopolítica atual. A postura americana frente à guerra na Ucrânia, ao avanço da China e às mudanças climáticas depende de decisões que exigem previsibilidade institucional e apoio do Congresso. Com um país rachado, acordos de longo prazo ficam mais difíceis. Basta lembrar que, em 2017, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, firmado em 2015 por quase 200 países, para ilustrar como mudanças bruscas de curso têm impacto concreto em metas globais de redução de emissões até 2030.

Ricupero chama atenção para o contraste entre o peso dos EUA e a perda de relevância da América Latina. Em sua visão, o continente aparece hoje mais como cenário de disputas pontuais do que como ator decisivo na definição de regras globais. “Enquanto Washington redefine seu lugar no mundo, a América Latina discute problemas domésticos e perde a chance de influir. A crise americana é central; a nossa, periférica”, resume.

Democracia em teste e o que está em jogo

O alerta do ex-ministro ecoa em chancelerias, universidades e organismos internacionais que observam o calendário político americano com preocupação. Embaixadas calculam riscos de protestos violentos, como os de 2021, em caso de nova judicialização do processo eleitoral. Analistas estimam que bastam alguns milhares de manifestantes determinados, em estados-chave como Pensilvânia, Geórgia e Arizona, para paralisar votações, atrasar recontagens e alimentar teorias de fraude em larga escala.

Para Ricupero, a ameaça se mede não apenas por atos extremos, mas pela normalização de discursos que tratam adversários políticos como inimigos a serem eliminados. Ele observa que, em pouco mais de oito anos, a linguagem de Trump deixou de soar excêntrica para se tornar referência em setores relevantes do Partido Republicano. “Quando um partido que representa cerca de 50% do eleitorado passa a adotar a lógica do tudo ou nada, o espaço de compromisso encolhe perigosamente”, alerta.

Os efeitos se espalham pela economia. A incerteza sobre a capacidade dos EUA de aprovar orçamentos plurianuais, manter alianças de defesa e honrar compromissos ambientais influencia decisões de investimento em outros continentes. Fundos que administram centenas de bilhões de dólares reavaliam cenários de risco político, ajustam carteiras e protegem ativos em moedas alternativas. Cada sinal de conflito institucional em Washington pesa sobre bolsas em Nova York, Londres e Tóquio.

No plano regional, a análise de Ricupero reforça uma sensação incômoda: a de que a América Latina assiste de fora à redefinição da ordem mundial. Mesmo países com PIB acima de US$ 1 trilhão, como Brasil e México, participam apenas de forma lateral dos grandes debates sobre tecnologia, segurança e clima. Esse distanciamento limita a capacidade do continente de influenciar saídas para a crise democrática americana ou de se proteger dos seus efeitos.

Qual será o próximo capítulo da democracia dos EUA

O diagnóstico de Ricupero não se esgota na denúncia. Para ele, a resposta à ameaça representada por Trump passa por instituições mais firmes, partidos menos reféns de lideranças individuais e uma sociedade disposta a defender regras comuns. O ex-ministro vê sinais positivos em decisões judiciais que impõem limites a abusos de poder, mas avalia que a disputa real acontecerá na opinião pública, nas urnas e na capacidade de aceitar derrotas sem apelar à violência.

Governos, empresas e cidadãos ao redor do mundo acompanham os próximos movimentos com atenção redobrada. A forma como os Estados Unidos atravessarem esta década, marcada por eleições disputadas, julgamentos sensíveis e conflitos externos, vai indicar se a democracia americana mantém a resiliência exibida em mais de 200 anos ou se abre espaço para uma era de instabilidade prolongada. A pergunta que fica, na leitura de Ricupero, é se o país que inspirou tantas transições democráticas ainda consegue servir de referência quando a ameaça parte de dentro de suas próprias fronteiras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *