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França pede exercício da Otan na Groenlândia e desafia Trump

A França solicita formalmente, nesta quarta-feira (21), que a Otan realize um exercício militar na Groenlândia e se diz pronta a participar. O pedido expõe a disputa aberta entre europeus e Donald Trump pelo controle político e militar do Ártico.

Europa reage à pressão dos EUA no Ártico

O anúncio parte diretamente do Palácio do Eliseu, em Paris, e marca uma mudança de tom na política europeia para o extremo norte. A presidência francesa afirma que “a França está solicitando um exercício da Otan na Groenlândia e está preparada para contribuir com ele”, em referência a uma operação em território que pertence à Dinamarca, mas goza de ampla autonomia. A data do pedido, 21 de janeiro de 2026, coroa uma semana de movimentações discretas de tropas europeias na região.

As capitais europeias tratam o gesto como resposta clara às tentativas de Donald Trump de anexar a ilha rica em minerais estratégicos e terras raras. Desde que volta à Casa Branca, há cerca de um ano, o presidente republicano repete em discursos que “precisa” da Groenlândia por razões de segurança nacional, para conter a influência de Rússia e China. Em Bruxelas e em Copenhague, a leitura é outra: Washington tenta transformar um território de aliado da Otan, a Dinamarca, em peça subordinada à estratégia americana.

Nas últimas semanas, diplomatas europeus descrevem um clima de crescente irritação com a retórica da Casa Branca. As afirmações de Trump sobre eventual “posse” da ilha reacendem o temor de que o Ártico deixe de ser zona de cooperação limitada para se tornar palco de confronto direto entre grandes potências. Nesse cenário, o pedido francês busca projetar unidade europeia e reforçar a presença militar aliada sem ceder o protagonismo exclusivamente a Washington.

Reconhecimento militar e ameaça tarifária de Trump

Antes de levar a questão formalmente à Otan, França, Alemanha e Reino Unido despacham uma pequena equipe de soldados à Groenlândia, na semana anterior ao anúncio. A missão de reconhecimento prepara um exercício dinamarquês com aliados da aliança atlântica, mas fora de sua estrutura formal, justamente para manter os Estados Unidos afastados. A operação envolve efetivos reduzidos e meios leves, porém tem alto valor simbólico: mostra que europeus se movem por conta própria em uma área sensível.

A reação de Trump vem em tom de ameaça. Irritado com a iniciativa europeia, o presidente americano acena com tarifas de até 25% sobre produtos de pelo menos oito países do continente que resistem aos planos para a Groenlândia. A medida atinge principalmente setores industriais e agrícolas, como automóveis, aço, vinho e laticínios, base da pauta de exportação de França, Alemanha, Itália e Espanha para o mercado americano.

Em Paris, assessores do presidente veem na escalada comercial um cálculo político. A Casa Branca tenta usar o peso da economia de US$ 27 trilhões dos Estados Unidos para forçar concessões estratégicas no Ártico. A resposta francesa aposta na lógica oposta: quanto mais a Otan se envolver de forma institucional, mais difícil se torna transformar a Groenlândia em objeto de negociação bilateral entre Washington e Copenhague.

Ao propor o exercício dentro da estrutura oficial da aliança, o governo francês busca duas metas simultâneas. De um lado, pretende mostrar a Moscou e a Pequim que a defesa do Ártico é prioridade coletiva, e não assunto doméstico de um membro isolado. De outro, envia recado a Trump de que disputas territoriais sobre um aliado não serão tratadas como questão de compra e venda, mas como tema de segurança compartilhada, regida pelo artigo 5º da Otan sobre defesa mútua.

Disputa por minerais, rotas e influência no Ártico

O interesse pela Groenlândia não é abstrato. A ilha concentra reservas de terras raras, minerais essenciais para baterias, turbinas e equipamentos de alta tecnologia. Estudos dinamarqueses e canadenses estimam que o Ártico concentre cerca de 13% do petróleo e 30% do gás natural ainda não descobertos do planeta. O derretimento acelerado do gelo abre, ainda, novas rotas marítimas entre a Europa e a Ásia, encurtando viagens em até 40% em comparação com o trajeto pelo canal de Suez.

Rússia e China ampliam presença militar e econômica na região ao longo da última década. Moscou moderniza bases, reabre pistas de pouso da época soviética e testa novos quebra-gelos militares. Pequim investe em pesquisa, mineração e infraestrutura portuária, e se apresenta como “quase Estado ártico”, expressão que incomoda as chancelarias europeias. Nesse xadrez, a Groenlândia ocupa posição central: é peça atlântica em um tabuleiro que se estende do Alasca à Sibéria.

O pedido francês mexe com esse equilíbrio. Se a Otan aceita realizar o exercício, mesmo que limitado em escala, a aliança dá um passo concreto para transformar preocupação política em presença militar coordenada. A Dinamarca ganha respaldo explícito para resistir às pressões de Washington. A França se projeta como voz de liderança europeia em temas de defesa, dividindo o protagonismo com Alemanha e Reino Unido em um momento de reconfiguração interna do bloco.

Os custos, porém, não são triviais. A ameaça de tarifas americanas coloca em risco bilhões de euros em exportações anuais e alimenta o temor de nova guerra comercial transatlântica, semelhante à disputa do aço e do alumínio em 2018. Empresários europeus pressionam por uma saída negociada, que preserve o acesso ao mercado dos Estados Unidos, mas não entregue a Trump um cheque em branco na Groenlândia.

O que a Otan decide e o que está em jogo

Os próximos dias se concentram nas reuniões em Bruxelas, onde representantes dos 32 países da Otan discutem a proposta francesa. A Dinamarca, dona formal do território, precisa dar aval político e operacional para qualquer grande movimentação militar na ilha. Paris defende um exercício ainda em 2026, com calendário compacto, talvez de duas a três semanas, envolvendo forças terrestres, navais e aéreas de diversos membros.

Diplomatas ouvidos em reservado avaliam que a Otan terá dificuldade para rejeitar abertamente o pedido, sob risco de sinalizar fragilidade no Ártico. A alternativa em estudo é um exercício de médio porte, com discurso público voltado à busca de “estabilidade e segurança marítima”, expressão que tenta reduzir o atrito com Washington. Mesmo assim, qualquer passo na Groenlândia será interpretado por Rússia e China como recado direto, e pode levar à ampliação de suas próprias manobras na região polar.

O episódio expõe um impasse que se arrasta desde o primeiro mandato de Trump: até onde os europeus conseguem afirmar autonomia estratégica sem romper com o guarda-chuva militar americano. A França aposta que o caminho passa justamente pelo fortalecimento da Otan, e não por sua marginalização. A resposta de Washington, a intensidade das tarifas e o desenho do exercício na Groenlândia indicarão se essa estratégia resiste ao teste do gelo ártico ou se a região entra em um ciclo de militarização aberta.

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