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Protesto na Dinamarca reinventa slogan de Trump em crítica à Groenlândia

Manifestantes em Copenhague trocam o clássico “Make America Great Again” por bonés vermelhos com a frase “Make America Go Away” em janeiro de 2026. O alvo é Donald Trump e suas novas ameaças de avançar sobre a Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca.

Da piada visual ao símbolo político

A cena se repete em diferentes pontos do centro de Copenhague: bonés vermelhos, letras brancas em caixa alta, a mesma tipografia que consagrou a campanha de Donald Trump em 2016. O que muda é o conteúdo. No lugar de “Make America Great Again”, a sigla MAGA ganha novo sentido, “Make America Go Away”, em um trocadilho que condensa a irritação europeia com a retórica do ex-presidente sobre a Groenlândia.

Os protestos se intensificam após declarações recentes de Trump, que volta a falar em “posse” e “controle estratégico” da ilha de 2,1 milhões de quilômetros quadrados, rica em minérios críticos e com posição chave no Ártico. A lembrança da tentativa de 2019, quando a Casa Branca cogita formalmente comprar a Groenlândia, ressuscita o desconforto na Dinamarca, aliada histórica dos Estados Unidos na Otan. Agora, fora do governo, o republicano volta ao tema em discursos públicos e entrevistas, insinuando que Washington “mais cedo ou mais tarde” precisa ter acesso privilegiado ao território.

Organizadores estimam alguns milhares de pessoas nas ruas da capital dinamarquesa ao longo de três fins de semana consecutivos, entre 10 e 26 de janeiro de 2026. Não há registro oficial consolidado, mas as imagens de centenas de bonés alinhados em frente ao Parlamento, o Folketing, viralizam em poucas horas. “Não é só sobre Trump. É sobre qualquer americano que pense que a Groenlândia está à venda”, afirma uma manifestante dinamarquesa de 27 anos, que exibe um cartaz com a frase “My land is not your deal”.

Groenlândia no centro da disputa pelo Ártico

A reação nas ruas ajuda a explicitar um incômodo que vinha se acumulando desde pelo menos 2019. Naquele ano, o então presidente Trump causa constrangimento diplomático ao sugerir, primeiro em reuniões internas e depois em público, a compra da Groenlândia. O governo dinamarquês responde com uma negativa imediata. A primeira-ministra Mette Frederiksen classifica a ideia como “absurda”. Trump cancela uma visita oficial a Copenhague e chama a reação de “nasty”, em um episódio que deixa cicatrizes na relação entre os dois países.

Seis anos depois, os ingredientes estratégicos continuam os mesmos, mas em escala maior. O aquecimento acelerado do Ártico abre novas rotas marítimas e amplia o interesse em reservas de minerais como terras raras, cobre e níquel. Estudos citados por autoridades locais estimam que até 25% das reservas inexploradas de petróleo e gás do planeta possam estar na região polar. Em paralelo, os Estados Unidos reforçam sua presença militar no norte, com destaque para a base aérea de Thule, instalada na Groenlândia desde a década de 1950.

É nesse contexto que Trump volta à carga em entrevistas recentes, dizendo que “só os Estados Unidos podem proteger e desenvolver aquele enorme pedaço de gelo”. A frase ecoa a retórica utilizada em fóruns internacionais no início dos anos 2020. Em Copenhague, o discurso é recebido como ameaça velada. “Quando ele fala em desenvolvimento, nós ouvimos exploração; quando fala em proteção, ouvimos controle”, resume um analista de política externa ouvido pela imprensa local.

Os bonés com a inscrição “Make America Go Away” nascem como resposta direta a essa narrativa. A ideia parte de um pequeno coletivo de artistas e ativistas, que encomenda o primeiro lote de cerca de 300 unidades no fim de 2025. Em menos de um mês, a produção chega a 2 mil peças, segundo os organizadores, financiadas por vaquinhas digitais e doações individuais. Os acessórios são distribuídos a manifestantes nas concentrações em frente à Prefeitura e ao Parlamento, além de circularem em universidades e em bairros de forte presença estudantil.

Impacto internacional e recado a Washington

As imagens dos protestos em Copenhague ganham espaço em veículos de imprensa da Europa e da América do Norte. Fotos de agências internacionais mostram fileiras de bonés vermelhos com o novo lema, lado a lado com bandeiras dinamarquesas e groenlandesas. Em redes sociais, a hashtag #MakeAmericaGoAway aparece em milhares de publicações em 24 horas, puxadas por perfis dinamarqueses, groenlandeses e de outros países europeus.

A reação não se limita à simbologia. Parlamentares dinamarqueses voltam a cobrar do governo uma linha clara sobre qualquer proposta futura dos Estados Unidos em relação à ilha. Deputados pedem garantias públicas de que nenhuma negociação envolvendo soberania será discutida, mesmo em cenários de cooperação econômica. Representantes da Groenlândia reforçam o discurso de autonomia. Desde 2009, o território administra internamente a maior parte de suas políticas, embora siga sob a coroa dinamarquesa e dependa financeiramente de Copenhague.

Especialistas em geopolítica do Ártico apontam que o episódio ajuda a tornar visível um debate restrito a círculos diplomáticos e militares. O temor é que a disputa por rotas, energia e minérios transforme a região em foco de tensão entre grandes potências, especialmente Estados Unidos, Rússia e China. A Europa, com a Dinamarca em posição sensível, tenta se equilibrar entre a proteção dos seus interesses e a manutenção da aliança atlântica. “Esses bonés são só o começo de uma conversa que precisamos ter de forma séria”, avalia um pesquisador dinamarquês citado pela imprensa local.

Em Washington, a resposta formal é contida. Fontes diplomáticas ouvidas por jornais europeus dizem que o governo americano trata as manifestações como “expressão legítima de opinião” e evita comentar o slogan. Aliados de Trump, por outro lado, exploram o episódio nas redes, acusando a Europa de “ingratidão” e minimizando o protesto como “teatro político”. A polarização reforça o uso do trocadilho como ferramenta de pressão sobre a política externa americana.

Próximos passos na disputa pela ilha

O governo dinamarquês usa o momento para reiterar, em comunicados oficiais, que “a Groenlândia não está à venda” e que qualquer discussão sobre o futuro do território passa, em primeiro lugar, pela população local. Líderes groenlandeses aproveitam a visibilidade para recuperar pautas internas, como maior participação nos lucros de eventuais projetos de mineração e mais investimentos em infraestrutura e serviços básicos.

Os organizadores dos atos em Copenhague planejam manter a mobilização ao longo de 2026, com novas jornadas de protesto a cada rodada relevante de negociações internacionais sobre o Ártico. A ideia é levar os bonés “Make America Go Away” a encontros de cúpula, fóruns ambientais e debates acadêmicos. O risco de desgaste com Washington está no radar de diplomatas europeus, mas o silêncio diante das novas ameaças de Trump parece, para muitos manifestantes, uma opção ainda mais cara. A pergunta que fica é até que ponto o recado dos bonés vermelhos será ouvido antes que a disputa pela Groenlândia saia definitivamente do terreno simbólico.

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