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Trump zomba de óculos de Macron em Davos e acirra clima diplomático

Donald Trump volta a ocupar o centro das atenções em Davos ao zombar dos óculos escuros usados por Emmanuel Macron durante discurso nesta quarta-feira (21). A piada pública, feita no palco do Fórum Econômico Mundial, provoca reação imediata entre diplomatas e reforça a imagem de um ex-presidente disposto a tensionar normas de etiqueta internacional.

Provocação em plena vitrine global

Trump fala para uma plateia de cerca de 2 mil convidados em Davos, na Suíça, quando desvia do roteiro econômico e mira o presidente francês. Ao comentar a presença de Macron no evento, ele ironiza o acessório usado pelo líder europeu durante aparições recentes. “Ele acha que está em um filme, com aqueles óculos escuros”, diz, arrancando risos de parte da plateia e expressões fechadas de diplomatas nas primeiras filas.

O comentário acontece em um dos painéis mais aguardados do dia, transmitido ao vivo para dezenas de países e reproduzido em tempo real nas redes sociais do fórum. Em menos de 30 minutos, trechos do vídeo circulam em plataformas como X e Instagram, gerando milhares de comentários e reações contrastantes entre apoiadores e críticos do republicano. O gesto, aparentemente leve, ganha peso por ocorrer em um encontro que se apresenta como espaço de diálogo e cooperação entre governos e grandes empresas.

Estilo provocador e cálculo político

A cena se encaixa no padrão que marca a trajetória pública de Trump desde antes da chegada à Casa Branca, em 2017. O ex-presidente transforma piadas, apelidos e ataques pessoais em instrumento político, mesmo em ambientes formais. Em Davos, ele já havia usado a tribuna em anos anteriores para desafiar consensos sobre comércio internacional, meio ambiente e multilateralismo, sempre com frases calculadas para gerar manchetes e viralizar.

Nesta quarta-feira, o alvo é o chefe de Estado de um dos principais aliados históricos dos Estados Unidos na Europa. Macron, que tenta se projetar como voz de equilíbrio entre Washington, Bruxelas e Moscou, vira personagem involuntário de um momento de entretenimento político. Assessores ouvidos nos bastidores classificam a fala como “desnecessária” e “imprudente” para um ambiente que reúne, em quatro dias de evento, cerca de 100 autoridades de alto escalão e mais de 3 mil participantes.

Humor, constrangimento e impacto real

A piada sobre os óculos tem efeito imediato nas conversas paralelas que movem o fórum, onde reuniões fechadas valem tanto quanto os discursos oficiais. Diplomatas europeus comentam que a atitude reforça dúvidas sobre a disposição de Trump de respeitar rituais diplomáticos caso volte ao centro do poder em Washington. Para analistas, o gesto soma mais um capítulo à relação oscilante entre o republicano e os líderes da União Europeia desde 2016.

Especialistas em imagem pública destacam que detalhes aparentemente banais, como um acessório de moda, viram símbolo em disputas de narrativa. A escolha de Macron por óculos escuros, vista por apoiadores como sinal de modernidade e informalidade controlada, é reembalada por Trump como vaidade e afetação. O enquadramento funciona como teste de lealdade para sua base: quem ri da piada se alinha ao estilo confrontador; quem se incomoda é rapidamente rotulado como parte da elite “sensível demais”.

Normas em xeque nos fóruns internacionais

O episódio desperta debate mais amplo sobre o limite entre humor e desrespeito em encontros multilaterais. Eventos como Davos, a Assembleia-Geral da ONU ou cúpulas do G7 são construídos sobre rituais que buscam reduzir atritos pessoais e preservar a previsibilidade entre governos. Quando uma liderança rompe deliberadamente esse código, o gesto extrapola o anedótico e sinaliza um reposicionamento em relação às regras do jogo.

Em 2026, o contexto é particularmente sensível. A França enfrenta disputas internas sobre política externa e segurança, enquanto os Estados Unidos atravessam um ano de forte polarização eleitoral. Uma frase de efeito em um palco na Suíça tem potencial de ecoar em Paris, Washington e Bruxelas, alimentando narrativas opostas: para defensores de uma diplomacia mais rígida, o episódio expõe fragilidade das normas; para admiradores de Trump, confirma a disposição de “dizer o que pensa” diante de aliados tradicionais.

Repercussão, cálculo e próximos movimentos

Nas horas seguintes ao discurso, emissoras de TV na Europa e nos Estados Unidos destacam o trecho da fala sobre Macron em seus telejornais noturnos. Comentários se dividem entre críticas ao que é visto como falta de respeito institucional e tentativas de minimizar a cena como mais um momento de improviso do ex-presidente. A própria organização do fórum evita entrar na polêmica, mantendo o foco na agenda oficial, que inclui discussões sobre crescimento global, transição energética e segurança digital.

A médio prazo, o episódio tende a entrar no arquivo de gestos simbólicos que redesenham a fronteira entre diplomacia e espetáculo político. A maneira como Paris reage, publicamente ou nos bastidores, pode indicar o grau de tolerância de aliados europeus a novas rodadas de improviso caso Trump retome protagonismo formal. Em Davos, a imagem de um ex-presidente que transforma um acessório de moda em munição política deixa uma pergunta em aberto: até onde fóruns multilaterais suportam esse tipo de choque antes que as regras não escritas da diplomacia percam de vez a força?

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