Netanyahu aceita integrar conselho de paz idealizado por Trump
Benjamin Netanyahu aceita integrar, a partir de janeiro de 2026, o Conselho de Paz proposto por Donald Trump, que mira o conflito Israel-Hamas e provoca reação global.
Trump avança em projeto paralelo à ONU
O convite chega em um momento de desgaste da mediação tradicional da ONU e de frustração com a falta de avanços concretos em Gaza, quase dois anos após a escalada da guerra. Trump apresenta o Conselho de Paz como um novo polo de negociação internacional, com ambição declarada de, no futuro, substituir o sistema das Nações Unidas em parte desse papel.
Netanyahu confirma presença no grupo que Trump descreve como um “conselho executivo fundador”, com início formal previsto para janeiro de 2026. A cerimônia de assinatura ocorre antes, em Davos, no Fórum Econômico Mundial, onde o ex-presidente americano planeja reunir líderes de dezenas de países ainda nesta semana. Convites enviados nos últimos dias incluem Rússia e China, dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
O desenho do Conselho de Paz reforça o protagonismo direto de Washington e de aliados próximos de Trump na mediação entre Israel e Hamas. A minuta da carta constitutiva, obtida pela CNN, prevê Trump como presidente do órgão por tempo indeterminado, o que acende alertas sobre concentração de poder. “O presidente do Conselho exercerá seu mandato sem limite de tempo, enquanto mantiver a confiança dos membros fundadores”, afirma o esboço de texto, segundo pessoas que leram o documento.
Bastidores, nomes e o cálculo político
O Conselho de Paz nasce com um núcleo fortemente alinhado a Trump. O genro do ex-presidente, Jared Kushner, figura no conselho executivo fundador, ao lado do secretário de Estado Marco Rubio, do enviado especial Steve Witkoff e do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. O grupo tenta combinar peso político, acesso a capitais privados e experiência prévia em processos de paz no Oriente Médio.
O papel de Netanyahu é simbólico e prático. Como primeiro-ministro de Israel desde 2009, com apenas breves interrupções, ele se torna a principal voz de um dos lados diretamente envolvidos na guerra de Gaza dentro do novo arranjo. A adesão ocorre enquanto Israel mantém operações militares intensas no enclave e ordena deslocamentos sucessivos de famílias palestinas no sul do território, sob críticas de organizações humanitárias e de parte da comunidade internacional.
Trump, que já usou Davos para discursos confrontadores, aposta em repetir o gesto em 2026, agora como arquiteto de uma estrutura paralela de mediação. Pessoas próximas descrevem o plano como um “atalho” para negociações, sem o que ele chama de “burocracia paralisante” da ONU. Em conversas reservadas, diplomatas ouvidos sob condição de anonimato veem outra coisa: uma tentativa de criar um foro sob medida, com regras flexíveis e liderança estável nas mãos do ex-presidente.
Governos alinhados a Trump defendem que a ONU se mostra lenta, politizada e ineficaz em crises como Síria, Ucrânia e Gaza. Críticos lembram que essa mesma lentidão é, em parte, efeito do poder de veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança. Um embaixador europeu resume o desconforto: “Trump tenta se apresentar como solução para um impasse que o próprio sistema americano ajuda a manter”.
Impacto na diplomacia e na guerra em Gaza
A entrada de Netanyahu fortalece a imagem de alinhamento entre Israel e Trump em um momento de forte pressão sobre o governo israelense. O Conselho de Paz passa a ser visto, em muitas capitais, como uma instância onde Israel ganha mais margem para pautar a agenda de cessar-fogo, trocas de reféns e reconstrução de Gaza. A presença do premiê israelense tende a atrair apoio de países próximos, mas também endurece a resistência de governos árabes e de parte da Europa.
O projeto abre uma disputa direta pela narrativa de legitimidade. De um lado, a ONU, com 193 Estados-membros, décadas de experiência e um histórico irregular de sucessos e fracassos. De outro, um conselho informal, apoiado por Washington e por figuras com acesso fácil a chefes de Estado e grandes investidores. A sugestão de que esse grupo “poderia” substituir as Nações Unidas em certos temas de segurança internacional causa inquietação sobretudo em países médios, que temem perder voz num fórum fora das regras multilaterais.
Especialistas em relações internacionais apontam riscos concretos. Processos de paz podem se fragmentar entre múltiplas mesas de negociação, com mandatos sobrepostos e acordos concorrentes. A criação de um novo centro de decisão, sem controles claros, também pode incentivar potências rivais a montar estruturas próprias. Um pesquisador ouvido pela reportagem observa que “conselhos paralelos tendem a reforçar blocos, não pontes”.
Sobre o conflito Israel-Hamas, a aposta de Trump é oferecer resultados rápidos, com metas em meses, não anos. Aliados falam em fases sucessivas: trégua ampliada, trocas de prisioneiros, mecanismos de monitoramento e, depois, um pacote econômico para Gaza. Nada disso está detalhado publicamente, e a minuta de carta constitutiva circula sem cronogramas precisos, o que aumenta a desconfiança sobre a capacidade de execução.
Próximos passos e disputa de legitimidade
A cerimônia de Davos funciona como vitrine e teste. Trump pretende exibir uma foto de família com dezenas de líderes, sinalizando apoio político ao novo conselho. O número de adesões efetivas, porém, só deve ficar claro ao longo de 2025, quando governos precisarem indicar representantes, aceitar regras internas e definir se o Conselho de Paz terá sede, orçamento próprio e equipe técnica permanente.
Netanyahu chega a esse tabuleiro com interesses imediatos. Ele busca reforçar a narrativa de que Israel atua em coordenação estreita com Washington, ainda que sob a liderança de um ex-presidente em campanha permanente por influência global. A aposta é que um canal alternativo de negociação reduza pressões dentro da ONU, onde resoluções críticas à ofensiva em Gaza ganham apoio crescente.
O futuro do Conselho de Paz depende de três incógnitas principais: o grau de adesão de potências como Rússia e China, o resultado de disputas políticas internas nos Estados Unidos e a própria evolução da guerra em Gaza. Se o novo fórum entregar algum avanço concreto em até dois anos, tende a se consolidar como ator relevante. Se fracassar, reforça a percepção de que nenhuma arquitetura paralela substitui, na prática, a legitimidade difícil e imperfeita da ONU.
A presença de Netanyahu no grupo coloca Israel no centro dessa experiência institucional. A questão, ainda sem resposta, é se o Conselho de Paz criará novas pontes de diálogo ou apenas mais um palco para uma disputa de poder que o mundo já conhece.
