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Muros do Palmeiras são pichados após goleada histórica para o Novorizontino

Torcedores do Palmeiras picham os muros da sede social e das bilheterias do Allianz Parque na madrugada desta quarta-feira (21), em São Paulo. O protesto ocorre horas depois da goleada por 4 a 0 sofrida diante do Novorizontino, pela quarta rodada do Campeonato Paulista, e mira a diretoria, o técnico Abel Ferreira e o elenco.

Derrota histórica acende alerta logo no início da temporada

A parede verde que cerca a sede alviverde amanhece coberta por letras pretas e brancas, com frases em tom de cobrança e revolta. As mensagens questionam o planejamento do clube e responsabilizam diretamente a presidente Leila Pereira, o técnico Abel Ferreira e os jogadores pelo desempenho em campo.

Entre as inscrições, se repetem perguntas e acusações: “Cadê o planejamento?”, “2025 de novo”, “SPAlmeiras”, “time sem vergonha” e “Leila, seu negócio é roubar”. O teor deixa claro que a goleada em Novo Horizonte, na noite de terça-feira (20), extrapola a classificação no Estadual e se transforma em símbolo de desgaste acumulado com a gestão esportiva.

A derrota por 4 a 0 é a maior sofrida pelo Palmeiras desde a chegada de Abel Ferreira, no fim de 2020, e ocorre justamente em seu jogo de número 400 à frente do time. Em mais de cinco temporadas, o time não havia perdido por diferença superior a três gols sob o comando do treinador português, multicampeão pelo clube.

O revés quebra também o início perfeito no Paulista de 2026. O Palmeiras vinha de três vitórias seguidas, incluindo triunfo em clássico contra o Santos, na Arena Barueri, e parecia repetir o roteiro recente de domínio estadual. A goleada para o Novorizontino, porém, expõe fragilidades de desempenho e mobilização logo no começo do ano.

Torcida pressiona diretoria e coloca Abel Ferreira no centro do alvo

O protesto da madrugada se organiza de forma silenciosa, sem presença ostensiva de torcidas organizadas anunciadas publicamente, mas rapidamente ganha repercussão nas redes sociais. Imagens das paredes pichadas circulam em perfis de torcedores e em páginas dedicadas à cobertura do clube, ampliando a pressão sobre a diretoria e o departamento de futebol.

As críticas não se limitam ao placar em Novo Horizonte. A repetição da frase “2025 de novo” remete à sensação de que o início de 2026 reproduz problemas vistos na temporada anterior, com questionamentos sobre reforços, renovação do elenco e força competitiva em mata-matas. A palavra “SPAlmeiras” ironiza a dificuldade recente em conquistas estaduais, tema sensível para uma torcida acostumada a brigar por títulos nacionais e continentais.

Na entrevista coletiva logo após o jogo, Abel Ferreira não poupa o elenco. O treinador admite queda de intensidade e aponta a postura em campo como causa principal da goleada. “Quando não somos competitivos nem nos mobilizamos mentalmente para esse tipo de jogo esse resultado pode acontecer. É só ver como sofremos os quatro gols, não é normal na nossa equipe”, afirma.

O português classifica o resultado como “derrota pesada”, mas tenta enquadrar o episódio como aprendizado. “Uma derrota pesada, mas será uma derrota maior se não aprendermos com o que aconteceu aqui hoje”, diz. As declarações, no entanto, não impedem que seu nome apareça nas paredes do clube como um dos responsáveis pelo momento.

A presidente Leila Pereira também é alvo direto. As frases que citam seu nome miram escolhas de gestão, da condução do mercado de transferências à manutenção de peças consideradas desgastadas do elenco. A cobrança por “planejamento” sintetiza a percepção de parte da torcida de que o clube, apesar das conquistas recentes, não se prepara com a mesma agressividade para seguir competitivo em todas as frentes.

O elenco, chamado de “time sem vergonha” nas pichações, sente o impacto simbólico do protesto. Em um elenco acostumado a finais de Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil, a maior derrota da era Abel em um Estadual provoca fissuras na relação com o torcedor, que já vinha mais exigente após uma sequência de temporadas vitoriosas, mas também intensas fisicamente e emocionalmente.

Pressão por resposta rápida em campo e fora dele

As pichações na sede e nas bilheterias do Allianz Parque funcionam como recado direto para quem decide o rumo do futebol palmeirense. A mensagem é clara: a margem de tolerância para atuações apáticas diminui em 2026, mesmo em início de temporada e em campeonato estadual.

Internamente, a goleada força a comissão técnica a rever escolhas. Escalação, rodízio de jogadores e intensidade nos treinos entram naturalmente em debate depois de um 4 a 0 em jogo que marca um número simbólico para o treinador. A leitura de Abel sobre a falta de mobilização mental pode influenciar mudanças imediatas na postura da equipe, sobretudo no setor defensivo, que costuma ser um pilar de suas campanhas.

Na diretoria, a pressão recai sobre o planejamento para a temporada de 2026. A cobrança por reforços mais impactantes, por renovação de jogadores em fim de ciclo e por um calendário mais bem administrado volta à tona com força. O contexto financeiro, a relação com investidores e as prioridades entre Campeonato Paulista, Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil entram na conta de decisões que precisarão ser explicadas ao torcedor.

O impacto público das imagens amplia o custo político de qualquer imobilismo. A repercussão nas redes, com fotos e vídeos das pichações compartilhados milhares de vezes, transforma o protesto em pauta nacional e alimenta o debate em programas esportivos. A cada nova rodada do Paulista, o desempenho do time passa a ser lido também como resposta ou não à cobrança estampada nos muros.

A curto prazo, a reação em campo será o termômetro inicial. Uma nova atuação irregular pode acender ainda mais o ambiente e abrir espaço para protestos presenciais em treinos e jogos, algo comum em outros momentos de turbulência na história recente do clube. Uma resposta forte, com vitórias convincentes e melhora visível de desempenho, tende a aliviar parte da pressão, mas não apagará a marca da maior derrota sob Abel.

O episódio recoloca em discussão o limite entre cobrança legítima e ataques pessoais, tema recorrente no futebol brasileiro. As frases que associam a presidente a práticas criminosas e que desqualificam o elenco indicam um tom que vai além da crítica esportiva. A forma como o clube reage institucionalmente, seja com notas oficiais, seja com eventuais investigações sobre os autores das pichações, também fará parte da narrativa dos próximos dias.

Clube entra em fase de prova diante da própria torcida

O Palmeiras inicia a sequência de jogos após a goleada sob avaliação direta de sua própria arquibancada. Cada escalação de Abel, cada entrevista e cada gesto da diretoria será observado à luz das frases rabiscadas na madrugada, que sintetizam um sentimento de desconfiança.

As próximas partidas do Campeonato Paulista funcionam como teste de estresse para um projeto vitorioso que chega ao sexto ano de trabalho. A capacidade da comissão técnica de ajustar rota rapidamente, da diretoria de comunicar um plano claro e do elenco de recuperar intensidade em campo definirá se a goleada para o Novorizontino será apenas um tropeço marcante ou o início de uma crise mais profunda. A resposta, por enquanto, está escrita nos muros, mas o desfecho virá nos gramados.

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