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Polícia mira venda clandestina de camarotes e aumenta crise no São Paulo

A Polícia Civil de São Paulo cumpre mandados de busca e apreensão nesta quarta-feira (21) contra dirigentes e ex-dirigentes ligados ao São Paulo Futebol Clube, em investigação sobre um esquema de venda ilegal de camarotes no Morumbi. A ofensiva atinge a diretora Mara Casares, ex-mulher do presidente afastado Julio Casares, o dirigente de base Douglas Schwartzmann e a intermediária Rita de Cássia Adriana Prado.

Operação expõe bastidores da crise no Morumbi

Os agentes saem às ruas logo cedo para cumprir quatro mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados e no próprio estádio. Na casa de Mara Casares, diretora feminina, cultural e de eventos do clube, a polícia apreende R$ 20 mil em espécie, um computador e o que descreve como “farta documentação” e anotações relacionadas ao caso.

Os investigadores miram um esquema clandestino de comercialização de ingressos e camarotes, inclusive em setores reservados à presidência do clube em dias de shows no Morumbi. O foco é entender como espaços destinados a autoridades e convidados se transformam em fonte paralela de receita, fora dos controles formais do São Paulo e, em tese, sem registro nas contas oficiais.

A operação ocorre poucos dias depois de o Conselho Deliberativo do São Paulo aprovar o afastamento de Julio Casares da presidência. Em 16 de janeiro, 188 conselheiros votam pelo impeachment do dirigente, contra 45 votos pela rejeição do pedido e dois em branco. O vice-presidente Harry Massis Junior, 80, assume interinamente e tenta estancar o desgaste político.

O pedido de destituição tem origem nas suspeitas de uso irregular de camarotes em eventos musicais e ganha corpo após a divulgação, em dezembro, de áudios pelo ge.com. Nas gravações, interlocutores tratam de um suposto esquema de venda clandestina de ingressos em camarotes ligados à presidência. A partir daí, o caso deixa o terreno apenas político e entra de vez no radar da polícia.

Pressionados pela repercussão, Mara Casares e Douglas Schwartzmann se afastam de suas funções no fim do ano passado. Internamente, a cúpula tricolor tenta emplacar o discurso de que o clube é vítima, mas precisa lidar com o desgaste diante de torcedores, conselheiros e patrocinadores que veem mais um capítulo de instabilidade em uma gestão marcada por controvérsias.

Dinheiro vivo, movimentações milionárias e acusações de exposição midiática

Nos demais endereços ligados aos investigados, policiais recolhem dinheiro, documentos e anotações que podem detalhar o caminho do dinheiro dos camarotes até contas pessoais. Em um dos alvos, a casa de Rita de Cássia Adriana Prado, conhecida como Adriana Prado, os agentes não a encontram. Filhos da investigada informam que ela mora em outro endereço, mas os policiais apreendem material que consideram de interesse para o inquérito.

No imóvel de Douglas Schwartzmann, diretor-adjunto de futebol de base, os policiais são recebidos pelos filhos do dirigente. Ele está fora do país, em uma viagem que, segundo a defesa, é comunicada com antecedência à Delegacia responsável pelo caso. Mesmo assim, os agentes vasculham o endereço em busca de provas.

Os advogados de Douglas criticam duramente a operação. Em nota, afirmam que “à toda evidência que a busca realizada na presente data – justamente quando as Autoridades tinham prévia ciência que Douglas estaria fora do país – tem a finalidade única de constrangê-lo, uma vez que tal medida foi totalmente inócua”. A reação tenta afastar a imagem de fuga e reforçar a narrativa de colaboração.

A defesa de Mara Casares também fala em medida desnecessária e midiática. “A Sra. Mara Suely Soares de Melo Casares sempre se colocou à inteira disposição da Autoridade Policial para prestar os devidos esclarecimentos”, dizem os advogados, que apontam contato frequente com a polícia e ausência de intimações formais. Segundo a nota, a busca tem “como objetivo apenas e tão somente a exposição midiática e abusiva da Sra. Mara e de seus familiares”.

Apesar das queixas, os defensores afirmam que Mara mantém “postura irrestrita de colaborar amplamente” e que a lisura de seus atos será comprovada ao longo da investigação. A equipe jurídica diz ainda não ter acesso à íntegra da decisão judicial que autoriza as diligências, proferida pela Vara das Garantias do Foro Central Criminal da capital paulista.

O inquérito da Polícia Civil, porém, vai além da venda de camarotes. Os investigadores avançam sobre supostas irregularidades nas contas do São Paulo e nas finanças pessoais de Julio Casares. Um relatório do Coaf aponta, segundo a polícia, o recebimento de R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro nas contas do dirigente e 35 saques em espécie nas contas do clube, entre 2021 e 2025, que somam R$ 11 milhões.

A defesa de Casares, representada pelos advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine, afirma que todas as movimentações têm “origem lícita e legítima, compatível com a evolução da capacidade financeira” do ex-presidente. Eles lembram que, antes de chegar ao comando tricolor, ele ocupa cargos de alta direção na iniciativa privada, com remuneração elevada, e prometem apresentar documentos e declarações fiscais ao longo da apuração.

O São Paulo, por meio de sua assessoria, tenta se afastar do centro do escândalo. “O São Paulo Futebol Clube é vítima neste caso e vai contribuir com as autoridades na investigação”, informa o clube. A nota não entra em detalhes sobre eventuais medidas internas para apurar responsabilidades administrativas.

Clube sob pressão e incerteza sobre futuro da gestão

A ofensiva policial amplia uma crise que já corrói a confiança em torno da gestão tricolor. Torcedores veem o clube envolvido em investigações sobre camarotes, contas bancárias e negócios com dinheiro vivo, enquanto o time tenta manter foco em campo. Patrocinadores e parceiros comerciais cobram garantias de governança e transparência, em um clube que lida com dívidas altas e forte exposição pública.

O afastamento de Julio Casares, aprovado por larga margem de votos, mostra que a pressão interna já ultrapassa o campo policial e entra de vez na disputa política. Conselheiros divergem sobre o ritmo e a profundidade de uma eventual reforma de gestão, mas concordam em um ponto: a crise atinge a credibilidade institucional do São Paulo e pode afetar receitas futuras com bilheteria, camarotes e patrocínios.

A investigação sobre os R$ 11 milhões em saques e os depósitos de R$ 1,5 milhão nas contas de Casares pode redefinir o enquadramento criminal do caso, com possibilidade de novas diligências, quebras de sigilo e denúncias formais. Os desdobramentos podem atingir outros dirigentes, funcionários e intermediários que, até aqui, não aparecem como alvos públicos.

Enquanto a polícia tenta reconstruir o caminho do dinheiro, o clube corre para mostrar que tem mecanismos de controle. Internamente, cresce a expectativa por auditorias independentes, revisão de contratos de hospitalidade no estádio e mudanças nas regras de uso de camarotes em jogos e shows. A forma como a nova gestão interina reage pode determinar o ritmo de recuperação da confiança.

A investigação ainda não tem prazo para ser concluída. Delegados trabalham em frentes distintas, cruzando dados bancários, documentos apreendidos e relatos de pessoas ligadas à rotina dos camarotes. No Morumbi, a pergunta que resta no ar é se a atual operação será suficiente para expor todo o esquema ou se ela é apenas o primeiro capítulo de uma longa disputa entre polícia, dirigentes e um clube que tenta provar que é, de fato, vítima do próprio entorno.

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