Sob pressão da direita, Tarcísio cancela visita a Bolsonaro
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, cancela nesta quinta-feira (21) visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, em meio a pressões e cobranças da direita. A decisão expõe o desgaste na relação com o bolsonarismo e revela a escolha do governador por blindar sua estratégia de reeleição em 2026.
Recuo calculado em meio a críticas da própria base
O encontro estava marcado para a manhã desta quinta-feira, em São Paulo, e havia sido solicitado pelo próprio Bolsonaro. A visita seria o primeiro gesto público de reaproximação após semanas de ataques de uma ala radical da direita ao governador, muitos deles disparados por apoiadores históricos do ex-presidente.
O Palácio dos Bandeirantes divulga nota atribuindo o cancelamento a um compromisso oficial de Tarcísio no interior do Estado. Aliados próximos descrevem outro cenário. Segundo relatos ouvidos pela reportagem, o governador se irrita com o tom das críticas e enxerga na visita um potencial de constrangimento político difícil de administrar em ano pré-eleitoral.
Assessores relatam que o desgaste não vem apenas de anônimos nas redes sociais. Em diferentes momentos, os próprios Eduardo e Carlos Bolsonaro alimentam questionamentos públicos sobre a lealdade de Tarcísio ao ex-presidente. Esse ambiente, relatam interlocutores, pesa na decisão de recuar da visita justamente no dia em que o gesto seria explorado como uma demonstração de alinhamento irrestrito.
A temperatura sobe ainda mais quando o senador Flávio Bolsonaro indica, em declarações recentes, que Bolsonaro pretende usar a conversa com Tarcísio para cobrar um apoio mais explícito à sua candidatura ao Planalto. O movimento é lido no entorno do governador como uma “armadilha” política. “Ele não quer ser colocado contra a parede, nem parecer refém de uma pressão pública”, resume um aliado que acompanha as negociações desde o início de janeiro.
Tarcísio afirma lealdade, mas fixa foco em São Paulo
Apesar do recuo, pessoas próximas garantem que o governador tenta, nos bastidores, manter a ponte com Bolsonaro. Em conversas privadas, Tarcísio reafirma que continua leal ao ex-presidente e que pretende apoiar Flávio na disputa presidencial. “Ele sempre diz que não vira as costas para quem o ajudou a chegar ao governo de São Paulo”, afirma um interlocutor frequente.
O gesto, no entanto, tem limites claros. O governador insiste em afastar qualquer especulação sobre uma candidatura própria ao Planalto em 2026 e repete, em reuniões com aliados, que seu projeto é a reeleição em São Paulo. A ideia, segundo integrantes do governo, é usar o restante do mandato para mostrar resultados concretos em obras, segurança e infraestrutura, áreas que considera vitrine para o eleitor paulista.
O cálculo político leva em conta pesquisas internas e a necessidade de preservar uma base diversificada no Estado. Tarcísio governa uma unidade com mais de 44 milhões de habitantes e um orçamento anual superior a R$ 320 bilhões, com eleitores que não se identificam automaticamente com o bolsonarismo. Qualquer gesto visto como submissão a uma pauta nacional pode afastar segmentos moderados da classe média urbana e do empresariado, hoje essenciais para sua sustentação.
A pressão do núcleo bolsonarista, por outro lado, não é desprezível. Bolsonaro segue como principal referência da direita radical e mantém influência sobre uma fatia mobilizada do eleitorado paulista. Ao se afastar de uma cena pública com o ex-presidente, Tarcísio corre o risco de alimentar a narrativa de traição que já circula em grupos de apoio bolsonarista desde o fim de 2024.
Impacto na disputa pela direita e no tabuleiro de 2026
O cancelamento da visita ocorre em um momento em que a direita tenta organizar seu campo para 2026, sem consenso sobre nomes e estratégias. A candidatura de Flávio Bolsonaro depende de apoios territoriais robustos, e São Paulo é peça central nesse xadrez. O gesto de Tarcísio, ainda que revestido de agenda oficial, é lido em Brasília como um sinal de que o governador não pretende se deixar arrastar para uma campanha presidencial antecipada.
Analistas políticos ouvidos em reservado apontam que o episódio reforça a fragmentação do campo bolsonarista. Parte dos aliados defende uma candidatura pura de Bolsonaro ou de um herdeiro direto, como Flávio. Outra ala prefere apostar em nomes menos desgastados nacionalmente, que possam dialogar com o centro. Nesse contexto, Tarcísio aparece desde 2022 em pesquisas como possível alternativa competitiva, ainda que ele negue repetidamente essa intenção.
A reação de adversários também entra na conta. Governistas no plano federal veem na divisão da direita uma oportunidade para consolidar bases regionais e atrair partidos hoje alinhados ao bolsonarismo, especialmente o centrão. O impasse em torno da visita tende a ser explorado por rivais como prova de que o grupo de Bolsonaro perdeu capacidade de coordenação nacional.
No curto prazo, o episódio fortalece, no discurso do governador, a narrativa de que ele governa prioritariamente para São Paulo. Integrantes da equipe econômica destacam um pacote de investimentos previsto até dezembro de 2026, estimado em dezenas de bilhões de reais em obras de infraestrutura e concessões. A mensagem é clara: o foco está em entregar resultados locais, não em entrar numa guerra de sucessão nacional.
Tensão prolongada e cenário em aberto
Nos bastidores, aliados tentam construir uma saída que evite ruptura definitiva com Bolsonaro. Uma nova visita é cogitada para os próximos meses, em data ainda indefinida, desde que não esteja cercada de cobranças públicas por declarações de apoio nacional. Até lá, a relação tende a seguir marcada por gestos discretos e recados indiretos.
O episódio desta quinta-feira, porém, deixa cicatrizes. A cobrança explícita por parte de integrantes da família Bolsonaro, o avanço da pré-campanha de Flávio e o cuidado de Tarcísio com seu eleitorado estadual desenham um quadro de tensão prolongada. A pergunta que permanece em Brasília e em São Paulo é se o governador conseguirá sustentar, até 2026, o equilíbrio entre a lealdade ao padrinho político e a necessidade de afirmar um projeto próprio sem romper de vez com o bolsonarismo.
