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Técnico admite injeções letais e expõe falhas em hospital do DF

Um técnico de enfermagem de 24 anos admite ter aplicado injeções letais em pacientes do Hospital Anchieta, no Distrito Federal, em plantões anteriores a 21 de janeiro de 2026. Ele diz que agiu nervoso, em meio ao caos da UTI, e afirma que queria abreviar o sofrimento das vítimas.

Confissão, câmeras e a rotina quebrada da UTI

Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, técnico de enfermagem, chega à delegacia primeiro negando qualquer participação nas mortes suspeitas. A versão muda quando investigadores exibem imagens do circuito interno do Hospital Anchieta. Diante das câmeras de segurança, ele admite ter acessado o sistema de prescrição com contas de médicos, inserido receitas falsas e retirado substâncias letais na farmácia da unidade.

Os crimes, segundo o inquérito, ocorrem em meio à rotina já sobrecarregada da UTI. Marcos prepara as seringas, esconde o material debaixo do jaleco e entra nos quartos como se fosse cumprir um procedimento comum. Depois da aplicação, espera a reação dos pacientes, que entram em parada cardíaca. Só então inicia manobras de massagem cardíaca, simulando uma tentativa de reanimação diante de colegas e familiares.

A investigação aponta que, em pelo menos um caso, ele aplica desinfetante dez vezes em um mesmo paciente. A polícia relata não identificar padrão entre as vítimas, que não têm idade, condição clínica ou perfil social semelhantes. A aparente aleatoriedade acentua a sensação de vulnerabilidade entre familiares, que agora revisitam prontuários, ligações e detalhes de internações passadas.

As técnicas de enfermagem Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva, que atuam na mesma unidade, integram o foco da polícia. O inquérito descreve que, durante as aplicações, elas ficam na porta dos quartos, controlando a entrada de outros profissionais e criando uma espécie de barreira informal. O objetivo, segundo os investigadores, é dar tempo para Marcos agir sem interrupções.

Marcela admite, em depoimento, que vê o colega aplicar medicamentos, mas diz não saber exatamente o que ele está injetando. Afirma estar arrependida de não ter avisado a equipe, segundo relato de um dos delegados. Amanda nega qualquer participação e sustenta que acreditava serem “medicamentos normais”, usados na rotina de UTI. A diferença nas versões revela o ponto central que a polícia tenta esclarecer: quem tinha consciência do risco e quem se calou diante de sinais de alerta.

Crise de confiança e falhas de controle

O caso explode como uma crise de confiança no Hospital Anchieta, um dos principais da rede privada do Distrito Federal. A suspeita de injeções letais em série expõe fragilidades em controles que, no papel, deveriam ser rígidos. Para acessar a farmácia, Marcos precisa se valer de logins de médicos e lançar prescrições falsas no sistema. O caminho, que deveria ser rastreável, passa sem bloqueios até que as mortes levantam suspeitas.

A rotina hospitalar se sustenta em camadas de segurança: triagem médica, prescrição, validação, dispensação na farmácia e aplicação à beira-leito. Quando um técnico consegue atravessar todas elas com drogas ou doses indevidas, o problema deixa de ser apenas individual e passa a ser estrutural. A investigação aponta justamente para essas brechas, que permitem que um profissional de 24 anos acesse substâncias potentes e as administre sem questionamento imediato.

As justificativas de Marcos, registradas em depoimento, adicionam um componente ético ao escândalo. Ele fala em “nervosismo” provocado pelo ambiente tumultuado e em vontade de “abreviar o sofrimento dos pacientes”. A escolha das palavras remete à discussão sobre eutanásia e cuidados paliativos, mas ocorre em um contexto totalmente fora da lei, sem consentimento e sem critérios médicos. Para especialistas, a diferença entre aliviar dor e provocar a morte é clara: um ato se ancora em protocolos e transparência, o outro se esconde em brechas e senhas indevidas.

Entre familiares, o impacto é imediato. Pacientes que sofreram paradas cardíacas nos últimos meses têm suas histórias revisitadas. Cada data de internação, cada plantão, cada alteração brusca no quadro passa a ser motivo de dúvida. O medo não se restringe ao Anchieta. Profissionais de outras unidades relatam apreensão com a imagem da categoria, já pressionada por jornadas longas e baixos salários em vários estados.

Delegados responsáveis pelo caso afirmam que não há até agora um perfil único de vítimas. Essa ausência de padrão reforça a ideia de que qualquer pessoa internada poderia ser alvo, o que atinge em cheio a principal moeda do sistema de saúde: a confiança. Quando o paciente entra em um hospital, entrega sua vida a uma estrutura que deveria ser mais segura do que o ambiente externo. O caso do Anchieta desmonta, ao menos momentaneamente, essa premissa.

Investigações, responsabilização e o que muda daqui para frente

As próximas semanas são decisivas para definir o alcance das responsabilidades. A polícia aprofunda a análise das imagens, dos acessos ao sistema de prescrição e dos registros da farmácia. O objetivo é traçar, com datas e horários, quando cada droga sai do controle oficial e passa para as mãos de Marcos. A apuração também procura estabelecer quantas mortes podem ter relação direta com as injeções letais.

As técnicas Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva seguem sob investigação por possível participação ou omissão. A linha entre cumplicidade e silêncio culposo deve ser detalhada em laudos, depoimentos e eventuais quebras de sigilo. Na esfera administrativa, o hospital pode enfrentar processos, multas e exigências de ajustes imediatos em seus protocolos de segurança digital e controle de estoque.

Entidades de classe e especialistas em gestão hospitalar já discutem mudanças concretas. Entre as medidas em debate estão o uso de autenticação em duas etapas para prescrições, rastreamento em tempo real de medicamentos de alto risco e revisão de treinamentos sobre procedimentos éticos. Em muitos hospitais, a discussão interna deixa de ser teórica e passa a ter data, número de boletim de ocorrência e nomes completos envolvidos.

No curto prazo, o caso tende a pressionar planos de saúde, conselhos profissionais e órgãos de fiscalização a rever regras de credenciamento e auditoria. As mortes sob suspeita colocam em xeque não apenas um hospital, mas a capacidade do sistema de detectar desvios antes que eles se tornem tragédias em série. A cada nova informação revelada pelo inquérito, cresce a cobrança por transparência.

As famílias dos pacientes aguardam respostas objetivas: quem morreu por causa das drogas aplicadas, quem poderia ter sido salvo e em que momento os sinais se tornaram evidentes. A investigação promete laudos, relatórios e eventuais denúncias criminais, mas uma pergunta segue em aberto e ecoa além de Brasília: depois de um caso como esse, quanto tempo leva para um hospital recuperar a confiança de quem não tem escolha senão entregar a ele a própria vida?

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