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Aliados de Bolsonaro apostam em prisão domiciliar após sinais no STF

Aliados de Jair Bolsonaro intensificam, nas últimas horas antes de 21 de janeiro de 2026, a aposta em uma decisão de Alexandre de Moraes que autorize a prisão domiciliar do ex-presidente. A expectativa cresce em Brasília após sinalizações internas no Supremo Tribunal Federal (STF) e movimentos políticos do entorno do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Sinais de bastidor no Supremo alimentam aposta

Nos corredores do STF, ministros comentam em caráter reservado que Moraes avalia a transferência de Bolsonaro da Papuda para o regime de prisão domiciliar. Interlocutores do ex-presidente relatam ter ouvido, ao longo desta semana, que a mudança de regime pode ocorrer “em breve”, expressão repetida por ao menos dois integrantes da cúpula bolsonarista.

O ambiente político em Brasília se concentra em torno do gabinete de Moraes. O ministro, relator dos inquéritos sobre tentativa de golpe de Estado e ataques ao sistema eleitoral, tornou-se o principal alvo do bolsonarismo desde 2022. A decisão sobre o futuro imediato de Bolsonaro, preso em Brasília após decisões do próprio Moraes, é vista como um novo capítulo desse embate que se arrasta há mais de três anos.

Bolsonaro deixa a prisão na quarta-feira, 7 de janeiro, para atendimento hospitalar, sob escolta. O episódio alimenta especulações sobre seu estado de saúde e reforça, na narrativa dos aliados, o argumento de que o ex-presidente não teria condições de permanecer em uma unidade prisional. Essa leitura é levada a ministros do Supremo por advogados e políticos próximos ao ex-presidente.

Nesse mesmo período, Alexandre de Moraes é alvo de sanções com base na chamada Lei Magnitsky, mecanismo usado por parlamentares estrangeiros para punir autoridades acusadas de violar direitos humanos. O gesto, de forte carga simbólica, é explorado por apoiadores de Bolsonaro como tentativa de pressionar o ministro, ainda que não tenha efeito jurídico direto no Brasil.

Papel de Tarcísio e cálculo político em ano eleitoral

O entorno do governador Tarcísio de Freitas entra em cena com discrição, mas peso político. Auxiliares próximos confirmam, em conversas reservadas, que o governador atua pessoalmente para tentar viabilizar a prisão domiciliar. A movimentação ocorre tanto por meio de contatos com ministros do STF quanto por meio de emissários em Brasília. “Ele está engajado em buscar o benefício”, relata um aliado que acompanha as tratativas.

Bolsonaristas interpretam o cancelamento da visita de Tarcísio a Bolsonaro, marcada inicialmente para quinta-feira, 22 de janeiro, como um sinal de mudança de cenário. Na leitura de aliados, uma ida oficial à Papuda às vésperas de uma decisão sensível poderia ser vista como afronta ao Supremo ou tentativa explícita de pressão. Ao suspender a visita, o governador reduz o atrito direto e preserva capital político em meio às negociações silenciosas.

O momento ocorre a menos de um ano das próximas eleições municipais, que funcionam como termômetro para 2026. A eventual transferência de Bolsonaro para casa teria impacto imediato sobre a disputa interna à direita, em que Tarcísio surge como um dos nomes mais competitivos. Uma decisão que alivie a situação do ex-presidente pode reaproximar lideranças hoje em rota de colisão e reorganizar palanques em capitais estratégicas.

No plano jurídico, a mudança para prisão domiciliar não encerra os processos. Bolsonaro segue respondendo a investigações no STF por tentativa de golpe, ataques ao sistema eleitoral e articulação com militares para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva. A diferença, para bolsonaristas, está na imagem pública: um ex-presidente em casa, ainda que monitorado, tem mais espaço para se posicionar e influenciar o debate nacional do que alguém atrás das grades.

Impacto político imediato e dúvidas sobre o alcance da decisão

A possível autorização para prisão domiciliar provoca reações antes mesmo de ser assinada. Parlamentares da oposição ao governo Lula se preparam para celebrar a medida como sinal de “equilíbrio” do Supremo. Integrantes da base governista, por outro lado, temem que a decisão seja lida como recuo diante da pressão bolsonarista, especialmente após as sanções contra Moraes no exterior.

O efeito sobre a opinião pública tende a ser dividido. Uma parte do eleitorado enxerga a manutenção de qualquer restrição, ainda que domiciliar, como reafirmação de que Bolsonaro enfrenta consequências jurídicas. Outra parcela, especialmente no campo bolsonarista, deve tratar a transferência como vitória política e combustível para denunciar o que chama de “perseguição sistemática” contra opositores.

A decisão também pode influenciar a dinâmica de depoimentos e colaborações dentro dos inquéritos que envolvem o ex-presidente. Advogados avaliam que um ambiente menos hostil, fora do presídio, reduz tensões imediatas, mas não elimina o risco de condenações futuras. Assessores ligados à defesa calculam que qualquer flexibilização do regime pode abrir espaço para novos pedidos, como autorização para participar de eventos políticos controlados ou gravação de vídeos.

Aliados e adversários se perguntam até que ponto Moraes levará em conta o impacto político de sua decisão. Desde os atos de 8 de janeiro de 2023, o ministro adota linha considerada dura em relação aos envolvidos em ataques às instituições, com penas que, em alguns casos, ultrapassam 15 anos de prisão. A eventual concessão da prisão domiciliar a Bolsonaro terá, portanto, peso simbólico bem maior do que o de uma decisão de rotina em processo penal.

O que pode acontecer nas próximas horas

Nos gabinetes de Brasília, a expectativa é de que Moraes se pronuncie formalmente nos próximos dias, possivelmente ainda antes do fim de janeiro. Ministros do Supremo consultados em reserva afirmam que a discussão já não é mais sobre conceder ou não o benefício, mas sobre as condições e restrições a serem impostas. Monitoramento eletrônico, proibição de uso de redes sociais e veto a declarações públicas sobre o processo estão na mesa.

A decisão, qualquer que seja o teor, deve redesenhar o tabuleiro da direita nos próximos meses. Se Bolsonaro voltar para casa, ainda sob vigilância, ganha fôlego para articular, mesmo impedido de disputar eleições, candidaturas alinhadas ao seu projeto político. Se Moraes optar por manter o ex-presidente na Papuda, o recado será de endurecimento absoluto e pode catalisar novas mobilizações de rua. Em ambos os cenários, o Supremo reafirma seu papel central na crise política que atravessa o país desde 2018, e deixa aberta a pergunta que, por ora, nenhum ator consegue responder: até onde vai a capacidade de Bolsonaro de influenciar o jogo estando sob custódia da Justiça.

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