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Técnico confessa injeções letais em hospital do DF e expõe falhas

Um técnico de enfermagem de 24 anos admite ter aplicado injeções letais em pacientes internados no Hospital Anchieta, no Distrito Federal, em janeiro de 2026. Ele é investigado por homicídio qualificado, ao lado de duas colegas que, segundo a polícia, vigiavam a porta enquanto as aplicações aconteciam.

Confissão, câmera de segurança e rotina quebrada

O caso vem à tona após a polícia confrontar Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo com imagens do circuito interno do hospital. Inicialmente, ele nega participação, mas muda de versão ao ver as gravações. Em depoimento, afirma que age movido por “nervosismo” nos plantões e diz querer “abreviar o sofrimento dos pacientes” mais debilitados.

Os crimes investigados ocorrem dentro de uma das áreas mais sensíveis da rede pública de saúde, a UTI do Hospital Anchieta, em meio a uma rotina descrita por funcionários como tumultuada. Marcos tem 24 anos e trabalha como técnico de enfermagem. Segundo o inquérito, ele usa essa posição para driblar controles internos, acessar prescrições e preparar doses que jamais deveriam chegar aos leitos.

A investigação aponta que não há padrão claro entre as vítimas. O delegado responsável afirma que “não há semelhança entre os pacientes”, o que afasta, por enquanto, a tese de escolha específica por idade, diagnóstico ou condição social. A ausência de um perfil único amplia o alcance do medo entre familiares de internados.

De acordo com a apuração policial, Marcos entra no sistema de prescrição hospitalar usando logins de médicos. Ali, inclui substâncias indevidas ou define dosagens fatais, sem autorização dos profissionais responsáveis. Em seguida, retira os medicamentos na farmácia, prepara as seringas e as esconde no bolso interno do jaleco, longe dos olhos de colegas e acompanhantes.

Em pelo menos um dos casos, segundo a polícia, ele aplica desinfetante em um paciente, em dez oportunidades distintas, até a parada cardíaca. Quando surgem sinais de reação, inicia manobras de massagem cardíaca para simular uma tentativa desesperada de reanimação. A cena tenta convencer a equipe de que se trata de uma morte natural ou de complicação inesperada.

Método, cúmplices e rachadura na confiança

Enquanto Marcos executa o plano ao lado do leito, duas colegas técnicas de enfermagem, Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva, segundo a polícia, se posicionam na porta dos quartos. A função delas seria vigiar o corredor e impedir a entrada de outros profissionais durante as aplicações letais e as simulações de socorro.

O trio trabalha na mesma unidade e compartilha plantões. Marcela admite, em depoimento, que percebe algo errado, mas diz não saber o que exatamente o colega aplica. Conta ao delegado que se arrepende de não ter avisado a direção do hospital e a equipe médica. “Eu deveria ter contado, me arrependo de não ter falado nada”, relata, segundo investigadores.

Amanda nega qualquer participação. Afirma acreditar que Marcos aplicava “medicamentos normais”, como sedativos e analgésicos comuns em pacientes graves. Diz não ter visto alteração nas prescrições nem nos rótulos das seringas. A polícia, porém, sustenta que a rotina de plantão, o acesso às salas e a posição das duas na porta indicam, no mínimo, ciência de que algo fora do protocolo acontecia.

O Hospital Anchieta, localizado no Distrito Federal, torna-se alvo de investigação interna e de questionamentos públicos. As denúncias expõem a fragilidade do controle de acessos ao sistema de prescrição, que deveria restringir alterações a médicos autorizados, com rastreio nominal de cada inclusão. O caso também pressiona a direção a explicar por que manobras repetidas de reanimação, em um mesmo plantonista, não acendem sinal de alerta formal.

A suspeita de homicídio dentro de uma UTI provoca reação imediata de entidades de saúde e profissionais de enfermagem. Conselhos regionais defendem que se trata de um desvio individual e cobram que a responsabilização não recaia sobre toda a categoria. Ao mesmo tempo, especialistas em segurança do paciente lembram que crimes assim só prosperam em ambientes com falhas crônicas de supervisão, auditoria e cultura de transparência.

A escolha do método choca o público. A aplicação de injeções letais, seguida de simulação de socorro, rompe o pacto básico que sustenta qualquer internação: a ideia de que quem usa jaleco está ali para salvar vidas. A descoberta de que substâncias usadas para desinfecção ou em doses fatais circulam escondidas em bolsos de uniformes derruba essa imagem em segundos.

Pressão por mudanças e efeitos além do hospital

As investigações policiais correm paralelamente a uma apuração administrativa dentro do hospital e da rede pública do Distrito Federal. O Ministério Público acompanha o caso e prepara denúncia por homicídio qualificado, com base em elementos como meio cruel, impossibilidade de defesa das vítimas e eventual continuidade delitiva. A pena, em caso de condenação, pode ultrapassar 30 anos de prisão.

O impacto ultrapassa os muros do Hospital Anchieta. Secretarias de Saúde em diferentes estados iniciam revisões emergenciais de protocolos de acesso aos sistemas de prescrição, exigindo autenticação em dois fatores e trilhas de auditoria mais rígidas. Farmácias hospitalares passam a revisar a retirada de medicamentos de alto risco, com checagem dupla de quem solicita e de quem aplica.

Entidades de pacientes e familiares organizam manifestações nas redes sociais e em frente à unidade, cobrando transparência. Pedem a divulgação do número exato de vítimas, os nomes dos profissionais afastados e datas claras para a conclusão das investigações. Em grupos de mensagem, circulam relatos de quem passou pela UTI nos últimos meses e agora questiona cada parada cardíaca registrada em prontuários.

Especialistas em bioética voltam a discutir o limite entre cuidados paliativos e práticas proibidas como a eutanásia, que não é permitida pela legislação brasileira. No caso de Marcos, a alegação de que quer “abreviar o sofrimento” esbarra no fato de que não há consentimento dos pacientes, não há decisão médica formal e não existe qualquer respaldo jurídico. O que se vê, apontam investigadores, é a apropriação distorcida de um discurso humanitário para encobrir assassinatos.

O Conselho Federal de Enfermagem e associações da área defendem que a resposta passe por três frentes: punição exemplar dos envolvidos, fortalecimento da formação ética e investimento em equipes suficientes para reduzir o esgotamento dos profissionais. A sobrecarga, lembram, não explica crimes, mas cria brechas para erros graves passarem sem questionamento.

Nos próximos meses, o caso do Hospital Anchieta deve se tornar referência negativa em debates sobre segurança do paciente e governança hospitalar. Laudos periciais, cruzamento de dados de sistemas e novos depoimentos podem ampliar o número de vítimas e de investigados. A principal pergunta, dentro e fora da UTI, permanece em aberto: quem controla, de fato, o poder de vida e morte nas mãos de quem prescreve e aplica medicamentos dentro dos hospitais públicos brasileiros?

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