ESA registra sequência rara de erupções na coroa interna do Sol
A Agência Espacial Europeia registra, em 21 de setembro de 2025, uma sequência rara de três grandes erupções na coroa interna do Sol. As imagens inéditas são obtidas pela missão Proba-3, que usa dois satélites em formação para criar eclipses artificiais no espaço.
Janela de cinco horas revela atividade intensa
Durante cinco horas seguidas de observação, com registros a cada cinco minutos, a Proba-3 acompanha em detalhes a região mais quente da atmosfera solar. A coroa interna surge em tom amarelado em torno do disco do Sol e exibe jatos de plasma que surpreendem os pesquisadores pela frequência e pela clareza com que aparecem.
As imagens mostram três grandes erupções de proeminências solares, estruturas de plasma mais frio que se projetam para fora da superfície. Em geral, missões espaciais captam uma ou outra dessas erupções, espalhadas ao longo de dias. Ver três eventos marcantes no intervalo de poucas horas, em uma mesma sequência contínua, muda a escala do que os cientistas conseguem analisar.
O físico solar Andrei Zhukov, do Observatório Real da Bélgica, acompanha os dados em tempo quase real. Ele explica que as proeminências são formadas por plasma relativamente mais frio, cerca de 10 mil graus Celsius, ainda assim muito acima de qualquer padrão terrestre. “Ver tantas erupções de destaque em tão pouco tempo é raro, então estou muito feliz por termos conseguido capturá-las tão claramente durante nossa janela de observação”, afirma.
As cenas ajudam a decifrar um dos paradoxos do Sol. A superfície, visível a olho nu durante um eclipse, está em torno de 5.500 graus Celsius. Já a coroa chega a aproximadamente 1 milhão de graus, quase 200 vezes mais quente, em uma camada mais externa e ainda pouco compreendida. Cada nova sequência de imagens de alta resolução se torna uma peça de quebra-cabeça nesse esforço para entender onde essa energia extra se origina.
Missão europeia testa eclipses artificiais no espaço
A Proba-3 leva esse estudo um passo além ao criar eclipses sob medida. Em vez de esperar alinhamentos raros entre Sol, Lua e Terra, a ESA usa duas espaçonaves voando em formação precisa, separadas por dezenas de metros. Uma delas bloqueia o disco solar, como se fosse uma Lua artificial, enquanto a outra registra apenas a coroa.
Essa técnica, conhecida como coronografia, já é usada em telescópios na Terra e em órbita, mas nunca com esse nível de estabilidade geométrica no espaço. A formação da Proba-3 precisa manter um alinhamento com erro de poucos milímetros ao longo de órbitas de centenas de quilômetros. Cada variação interfere na nitidez do anel luminoso que contorna o disco oculto do Sol.
Na animação divulgada pela ESA, os dados do coronógrafo ASPIICS, responsável por registrar a coroa, se misturam às imagens de alta definição do Observatório de Dinâmica Solar da Nasa, que mostra o disco solar. O resultado é uma visão contínua que cobre desde a superfície até a região interna da coroa, faixa crítica onde nascem muitas das erupções que, horas depois, podem atingir o espaço em torno da Terra.
O objetivo declarado da agência é preencher lacunas que ainda limitam a previsão do chamado clima espacial. Quanto mais cedo os cientistas conseguirem identificar a formação de jatos de plasma e nuvens de partículas carregadas, mais tempo terão para calcular a rota dessas estruturas e o risco de impacto em nosso planeta.
Risco para satélites, GPS e redes elétricas
As erupções registradas em setembro não provocam grandes tempestades geomagnéticas na Terra, mas funcionam como laboratório. Proeminências que se expandem com força suficiente podem se transformar em ejeções de massa coronal, nuvens de bilhões de toneladas de plasma e campos magnéticos que cruzam o Sistema Solar a milhões de quilômetros por hora.
Quando uma dessas nuvens atinge a Terra, o efeito se espalha por diferentes camadas da tecnologia moderna. Satélites de comunicação e navegação, como sistemas de GPS usados em aviação, logística e agricultura de precisão, ficam mais vulneráveis a falhas. Redes de transmissão de energia podem sofrer sobrecargas que levam a apagões de grande porte, como já ocorreu em países de alta latitude nas últimas décadas.
Os dados da Proba-3 ajudam a detalhar a fase inicial desses fenômenos, antes de a erupção se soltar por completo do Sol. A ESA destaca que entender a dinâmica da coroa interna, onde as temperaturas chegam a 1 milhão de graus, é decisivo para construir modelos mais confiáveis de previsão. A diferença entre um alerta emitido com 15 minutos ou com algumas horas de antecedência pode determinar se uma operadora de energia terá tempo para redistribuir cargas e evitar um colapso.
Governos, empresas de telecomunicações, operadoras de satélites e controladores de tráfego aéreo acompanham esse tipo de avanço com atenção. O aumento da dependência de redes globais, inclusive por causa da internet via constelações de satélites em baixa órbita, amplia o potencial de dano de uma tempestade solar severa. A capacidade de prever e mitigar esses impactos deixa de ser apenas um interesse científico e se torna uma questão de infraestrutura crítica.
Clima espacial ganha prioridade nas próximas missões
A sequência captada em 21 de setembro entra agora em fase detalhada de análise por equipes na Europa e em outros centros parceiros. Pesquisadores cruzam as imagens da Proba-3 com medições de radiotelescópios, sensores de partículas e modelos numéricos para reconstruir, passo a passo, a evolução de cada erupção.
Os resultados devem alimentar novas gerações de modelos de clima espacial e orientar futuras missões dedicadas ao Sol. A própria ESA e a Nasa já planejam sondas e observatórios capazes de observar o astro de diferentes ângulos, inclusive acima e abaixo do plano em que os planetas orbitam. A expectativa é construir, ao longo da próxima década, um sistema de monitoramento contínuo com capacidade de alerta semelhante à dos atuais sistemas de previsão de furacões.
O interesse público cresce à medida que eventos de forte aurora boreal, apagões regionais e falhas de GPS ganham as redes sociais. A Proba-3 adiciona a esse cenário um elemento de precisão, ao mostrar em detalhes o que acontece na borda do Sol antes de cada tempestade. A pergunta que guia os cientistas é direta: até que ponto será possível, um dia, tratar as erupções solares com a mesma previsibilidade que se aplica hoje às frentes frias?
