Muro do Allianz é pichado após goleada histórica do Palmeiras
Os muros da bilheteria do Allianz Parque amanhecem pichados nesta quarta-feira (21), em São Paulo, após a goleada de 4 a 0 sofrida pelo Palmeiras para o Novorizontino, pelo Paulistão. As mensagens cobram a diretoria, o técnico Abel Ferreira e o elenco, e expõem a crise aberta pela pior derrota da era do treinador português.
Protesto na porta de casa após a pior derrota da era Abel
O protesto aparece menos de 24 horas depois do vexame em Novo Horizonte, na noite de terça-feira (20). A goleada por 4 a 0 para um time do interior, logo no início da temporada, transforma frustração em revolta e desloca o foco do campo para as paredes do estádio palmeirense.
Na fachada da bilheteria, torcedores usam tinta para atacar a presidente Leila Pereira, o técnico Abel Ferreira e o elenco. Frases como “Leila, seu negócio é roubar”, “Abel, acabou a magia?”, “Time sem vergonha” e “Cadê o planejamento?” se espalham pelos muros do Allianz, que ainda não recebe jogos em 2026 por causa da troca do gramado.
As tintas secam enquanto circulam nas redes sociais imagens da goleada e das pichações, muitas vezes lado a lado. O contraste entre os títulos recentes e a atuação desastrosa da véspera alimenta a sensação de ruptura. Para uma parte da torcida, o time que dominou o futebol brasileiro nos últimos anos perde fôlego, e a direção falha em renovar o elenco na mesma velocidade com que as cobranças aumentam.
Pressão sobre diretoria, elenco e Abel cresce em série histórica
A derrota para o Novorizontino entra na história palmeirense como a mais dura sob o comando de Abel Ferreira, no clube desde 2020. Até então, os piores tropeços eram os 3 a 0 sofridos para Internacional, em 2022, Flamengo, em 2023, Fortaleza, em 2024, e LDU, em 2025. A diferença agora é a combinação entre placar elástico, rival de menor investimento e início de temporada que teoricamente serviria para ajustes.
O próprio Abel admite o tamanho do tombo ainda no estádio, logo após o apito final. “É a minha maior derrota desde que estou aqui”, diz. Ele tenta explicar o abismo entre o time competitivo dos últimos anos e a equipe que desaba em Novo Horizonte. “Quando somos uma equipe competitiva, vamos ganhar até dos melhores times do mundo; se não nos concentramos, como foi hoje, podemos perder para um time da 5ª divisão”, afirma o treinador.
A leitura da arquibancada, porém, é menos técnica e mais emocional. As pichações resumem a sensação de abandono de uma parte dos torcedores, que enxerga falta de planejamento na montagem do elenco e em alguns movimentos de mercado. A frase “2026 de novo”, registrada ao lado das críticas, sugere temor de repetição de temporadas recentes em que o time oscila mais do que a torcida aceita para um clube que se habituou a disputar todas as taças.
A presidente Leila Pereira, alvo direto das tintas, é cobrada por contratações e por uma resposta clara à goleada. Ao associar o nome da dirigente à acusação “seu negócio é roubar”, os pichadores cruzam a fronteira da crítica esportiva e entram no campo da ofensa pessoal, o que deve abrir discussão jurídica e interna sobre até onde a contestação pode ir.
Imagem arranhada, muros pintados e um vestiário sob desconfiança
Funcionários do Palmeiras começam a repintar os muros ainda na manhã desta quarta-feira. A cor verde cobre as frases, mas não apaga o registro fotográfico e o simbolismo do protesto. As imagens circulam em perfis de torcedores e em canais esportivos, reforçando a ideia de um clube pressionado por dentro e por fora do campo.
O Allianz Parque, que passa por troca do gramado e não recebe partidas neste início de 2026, vira cenário de um conflito que se desloca de Barueri, onde o time manda seus jogos, para o endereço oficial do clube. O contraste é evidente: enquanto o estádio se prepara para voltar a receber público, o relacionamento com parte desse público se deteriora. A crise ultrapassa o resultado de um jogo e atinge a reputação construída em cinco anos de trabalho de Abel, de Leila e de um elenco que coleciona títulos.
A pressão recai sobre todos os setores. No vestiário, jogadores sentem o peso de um 4 a 0 que foge ao padrão de um time acostumado a competir em alto nível. Na diretoria, cresce o incômodo com a narrativa de que falta planejamento, reforçada pela pergunta pichada no muro. No departamento de comunicação, a missão é conter danos, mostrar reação rápida e reposicionar a imagem de um clube que busca profissionalismo, mas encara métodos de contestação que beiram o vandalismo.
As discussões se espalham por programas esportivos, rádios e redes sociais. Comentadores debatem se a goleada revela apenas um tropeço isolado em janeiro ou se aponta para um desgaste mais profundo de um ciclo vitorioso. Entre a defesa do legado de Abel e a cobrança por renovação, o Palmeiras se vê no centro de uma encruzilhada esportiva e política.
Restauração da confiança e decisões à vista
O clube tenta responder com gestos práticos. A pintura dos muros é o sinal mais visível, mas não o único. Internamente, a conversa é sobre cobrança, ajustes táticos e possíveis mudanças na escalação já para as próximas rodadas do Paulistão. A comissão técnica trabalha com a ideia de usar o impacto da goleada como gatilho para recuperar a competitividade que marca os últimos anos.
Abel fala em concentração e espírito de equipe para virar a chave. A diretoria busca um discurso que reconhece o tamanho do vexame sem alimentar um clima de terra arrasada. A torcida, por sua vez, espera respostas em campo, com desempenho e resultados que façam da goleada uma exceção estatística e não o prenúncio de uma temporada em queda livre. Resta saber se o Palmeiras conseguirá transformar a tinta de protesto em combustível para reação ou se os muros do Allianz voltarão a ser o painel de uma crise que ainda não encontrou seu limite.
