Nasa leva Artemis II à reta final antes de voo tripulado à Lua
A Nasa inicia a fase final de preparação para a Artemis II, primeiro voo tripulado do programa, previsto para as primeiras janelas de lançamento em fevereiro de 2026. Quatro astronautas vão orbitar a Lua por cerca de dez dias, sem pouso, para testar o foguete SLS e a cápsula Orion em condições reais de espaço profundo.
Da torre de montagem à plataforma de lançamento
No Centro Espacial Kennedy, na Flórida, o conjunto formado pelo enorme foguete Space Launch System (SLS) e pela cápsula Orion deixa o edifício de montagem e segue para a plataforma 39B. O deslocamento, que parece um simples transporte de equipamentos, marca de fato o início da contagem regressiva operacional para o primeiro voo humano do programa Artemis.
A missão decolará a partir das primeiras oportunidades de lançamento em fevereiro de 2026, em janelas que incluem os dias 6, 7, 8, 10 e 11, segundo a agência. O cronograma ainda pode oscilar por ajustes técnicos ou condições meteorológicas, mas a mensagem é clara: o retorno de astronautas à vizinhança lunar deixa o campo das promessas e entra na fase dos testes em voo.
Quatro nomes à frente do retorno à órbita lunar
A bordo da Orion, quatro astronautas assumem o papel de ponte entre a era Apollo e um novo ciclo de exploração. Reid Wiseman comanda a missão; Victor Glover atua como piloto; Christina Koch é a especialista de missão; e o canadense Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadense, completa a tripulação. É o primeiro voo humano à região lunar desde a Apollo 17, em 1972.
O plano prevê cerca de dez dias de viagem em torno da Lua e volta à Terra, em um trajeto conhecido como trajetória de retorno livre. Nessa configuração, a nave usa o campo gravitacional combinado de Terra e Lua para contornar o satélite e regressar sem depender de grandes manobras de propulsão na volta. A Nasa calcula que a Orion viaje aproximadamente 4.700 milhas, ou 7.562 quilômetros, além do lado oculto da Lua antes de iniciar o caminho de retorno.
Por que a missão não pousa na superfície lunar
O desenho da Artemis II frustra a expectativa mais óbvia do público, mas obedece a uma lógica técnica: não haverá pouso na superfície. O foco está em validar sistemas e treinar a tripulação em espaço profundo com um veículo que não é, por projeto, um módulo de pouso lunar.
“A resposta curta é porque não tem capacidade para isso. Não se trata de um módulo de pouso lunar”, explica Patty Casas Horn, vice-líder de Análise de Missões e Avaliações Integradas da Nasa, em entrevista à CNN. Ela descreve uma estratégia em etapas, em que cada avanço é testado com cuidado antes de se assumir riscos maiores.
“Ao longo da história da Nasa, tudo o que fazemos envolve um certo risco, e por isso queremos garantir que esse risco faça sentido e aceitar apenas o risco necessário, dentro de limites razoáveis”, diz. “Desenvolvemos uma capacidade, testamos, desenvolvemos outra capacidade e testamos novamente. E chegaremos a pousar na Lua, mas o programa Artemis II é realmente sobre a tripulação.”
O que está em jogo no voo de teste
O roteiro do voo é desenhado para forçar a espaçonave a operar no limite do que será exigido nas próximas missões. Depois do lançamento, a Orion e o estágio superior do SLS vão completar duas órbitas ao redor da Terra. Ainda “perto de casa”, os engenheiros checam em tempo real se os sistemas funcionam conforme o planejado com humanos a bordo.
Só após essas verificações a nave segue rumo à Lua, já em ambiente de espaço profundo. A agência destaca que o objetivo central é provar, na prática, que os sistemas de suporte à vida da Orion estão prontos para sustentar astronautas em viagens mais longas. Isso inclui controle de temperatura, reciclagem de ar, alimentação, comunicação e navegação em uma região onde não há possibilidade de retorno rápido em caso de falha grave.
Em comunicado, a Nasa afirma que “esta missão provará que os sistemas essenciais de suporte à vida da Orion estão prontos para sustentar nossos astronautas em missões de maior duração à frente e permitirá que a tripulação pratique operações essenciais para o sucesso da Artemis III e além”. Na prática, cada checklist concluído com sucesso na Artemis II reduz incertezas e alimenta a confiança de que pousos e estadias mais longas poderão ocorrer de forma rotineira.
Impacto para a corrida espacial e para a próxima década
O sucesso da Artemis II tende a consolidar a posição da Nasa como articuladora de um novo ciclo de exploração lunar, desta vez com presença sustentada, e não apenas com visitas rápidas. O programa atrai parcerias internacionais e investimentos privados em foguetes, naves de cargas e tecnologias de suporte, de painéis solares avançados a habitats pressurizados. Cada etapa validada em voo serve como vitrine para empresas e países que buscam lugar na futura economia lunar.
Uma missão tripulada bem-sucedida também tem efeito imediato sobre a opinião pública. A volta de astronautas à órbita lunar, mais de 50 anos depois de Apollo 17, tende a reacender o interesse global em ciência, engenharia e formação de especialistas em espaço. Universidades, centros de pesquisa e startups que trabalham com tecnologias espaciais podem se beneficiar de novos financiamentos e de um ambiente político mais favorável a projetos de longo prazo.
Mesmo sem pouso, a Artemis II funciona como ensaio geral para missões que pretendem estabelecer bases lunares permanentes nos próximos anos. A validação de sistemas em espaço profundo é condição para qualquer plano de mineração de recursos lunares, produção de combustível a partir de gelo de água e montagem de infraestrutura que sirva de trampolim para expedições a Marte.
Próximos passos rumo à superfície lunar
Se a Artemis II cumprir o roteiro, a Nasa pretende avançar para a Artemis III, missão planejada para levar novamente astronautas à superfície da Lua com a ajuda de um módulo de pouso dedicado. A agência projeta uma presença sustentável no satélite natural da Terra na próxima década, com repetição de voos tripulados e expansão gradual de capacidades em órbita e no solo.
A plataforma 39B, na Flórida, volta a assumir o papel simbólico de porta de saída da humanidade para além da órbita baixa da Terra. A diferença é que, agora, a ambição não se limita a plantar bandeiras, mas a construir infraestrutura duradoura. Enquanto o SLS e a Orion se aproximam da torre de lançamento, a pergunta que se desenha não é se a humanidade retorna à Lua, e sim quanto tempo levará para transformar essa presença em algo permanente.
