Ultimas

Chernobyl fica sem energia externa após ataque russo, alerta AIEA

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) alerta nesta quarta-feira (21) que a usina nuclear de Chernobyl, no norte da Ucrânia, perde toda a energia externa após novos ataques russos com drones contra a infraestrutura elétrica do país. O órgão classifica a situação como crítica e cobra a restauração imediata do fornecimento.

Ataques a rede elétrica deixam usina vulnerável

O corte total de energia ocorre em meio a uma nova onda de ataques russos direcionados a subestações, linhas de transmissão e instalações estratégicas do sistema elétrico ucraniano. Drones kamikaze sobrevoam cidades e zonas rurais durante a madrugada e atingem pontos que alimentam a região de Chernobyl, a cerca de 110 quilômetros de Kiev.

Sem energia externa, a usina depende de geradores de emergência e sistemas internos para manter o resfriamento de resíduos radioativos armazenados no local. Técnicos explicam que essas bombas garantem que o calor produzido pelos materiais nucleares seja dissipado de forma segura. Qualquer falha prolongada nesse processo aumenta o risco de superaquecimento e de liberação de radiação.

A AIEA ressalta que Chernobyl já não opera reatores desde o ano 2000, mas continua abrigando enormes quantidades de lixo radioativo e estruturas de contenção que exigem vigilância constante. “A perda de energia externa em uma instalação como Chernobyl é inaceitável em um cenário de conflito armado”, alerta o diretor-geral da agência em comunicado. “É essencial restaurar o fornecimento o mais rápido possível para evitar consequências ambientais e humanas graves.”

Autoridades ucranianas acusam Moscou de usar o inverno e a dependência da população da rede elétrica como arma de pressão. Nas últimas semanas, o governo de Kiev registra dezenas de ataques coordenados contra centrais de geração, estações de transformação e linhas de alta tensão. O objetivo, segundo os ucranianos, é enfraquecer a capacidade de resistência do país e ampliar a sensação de insegurança.

Fantasma de 1986 volta a assombrar a região

O alerta desperta reações imediatas porque Chernobyl é sinônimo de desastre nuclear desde 26 de abril de 1986, quando a explosão do reator 4 espalha radiação por boa parte da Europa. A área continua cercada por uma zona de exclusão de cerca de 30 quilômetros de raio, com acesso controlado e presença contínua de equipes técnicas.

Nas últimas duas décadas, o esforço internacional se concentra em reforçar a blindagem da usina. Em 2016, um novo sarcófago metálico, projeto avaliado em mais de 2 bilhões de euros, é instalado sobre a antiga estrutura de concreto soviética. O gigantesco arco tem a função de conter partículas radioativas e permitir o desmonte gradual do reator destruído, processo que deve se estender por pelo menos mais 50 anos.

A estabilidade dessa estrutura, no entanto, depende de sistemas de monitoramento, ventilação e controle de umidade, todos alimentados por energia elétrica estável. Especialistas ligados à AIEA lembram que geradores a diesel conseguem manter essas funções por algumas horas ou dias, mas não substituem de forma duradoura uma rede externa confiável. “Cada hora sem uma fonte de energia segura aumenta a margem de incerteza”, afirma um técnico da agência, sob condição de anonimato, em nota distribuída à imprensa europeia.

O cenário preocupa governos e entidades ambientais. Diplomatas em Viena, sede da AIEA, relatam consultas emergenciais entre países europeus, Estados Unidos e Nações Unidas para avaliar possíveis rotas alternativas de energia para o norte da Ucrânia. A União Europeia acompanha a situação com atenção especial, já que uma nova crise nuclear na região poderia atingir diretamente seus territórios, a depender da direção dos ventos e da quantidade de radiação liberada.

Risco nuclear em guerra reacende pressão internacional

A escalada em Chernobyl reforça a percepção de que zonas nucleares viram alvo indireto em guerras modernas. Desde 2022, a AIEA relata incidentes recorrentes em instalações atômicas na Ucrânia, incluindo a usina de Zaporizhzhia, a maior da Europa. Bombardeios nas proximidades, ocupações militares e cortes de energia expõem uma infraestrutura projetada para operar em tempos de paz a condições extremas de insegurança.

Para a população ucraniana, o impacto é imediato. Comunidades em torno da zona de exclusão convivem com interrupções prolongadas de luz, queda na pressão da água e falhas em serviços básicos. Hospitais e abrigos em cidades do entorno dependem de geradores e estoques limitados de combustível. “Quando a rede cai, tudo fica mais frágil: do sistema de saúde às comunicações”, resume um funcionário local ouvido por telefone.

No plano diplomático, o episódio amplia a pressão sobre a Rússia. Países ocidentais argumentam que atacar deliberadamente infraestrutura crítica que sustenta usinas nucleares viola princípios básicos de segurança internacional. Analistas em Kiev e Bruxelas veem espaço para novas sanções direcionadas a setores ligados à indústria militar russa e à cadeia de drones usados nesses ataques.

Organizações ambientais voltam a pedir regras globais mais rígidas para proteger instalações nucleares em zonas de guerra. Grupos de pesquisa em segurança nuclear defendem a criação de corredores energéticos protegidos, nos quais linhas e subestações que atendem usinas atômicas não possam ser atacadas sem desencadear resposta imediata da comunidade internacional. A proposta ganha força à medida que conflitos se aproximam de centros industriais e de grandes complexos energéticos.

Corrida contra o tempo para restabelecer a energia

Equipes ucranianas trabalham para avaliar os danos à rede que alimenta Chernobyl e traçar rotas alternativas de fornecimento. Técnicos estudam a possibilidade de redirecionar energia de outras regiões e priorizar a usina em planos de contingência, enquanto aguardam a redução do risco de novos ataques na área.

A AIEA promete manter atualizações diárias sobre a situação e envia novos pedidos de acesso seguro à região para suas equipes de monitoramento. A agência insiste em um compromisso formal das partes em conflito para evitar qualquer ação que comprometa a integridade da usina e de outras instalações nucleares ucranianas. “Não se trata apenas de um problema da Ucrânia ou da Rússia”, reforça o diretor-geral. “Um acidente aqui teria impacto além de fronteiras, por décadas.”

Governos europeus discutem, em reuniões reservadas, como transformar esse alerta em medidas concretas. Estão na mesa desde novas salvaguardas no âmbito da ONU até mecanismos regionais de resposta rápida a emergências nucleares. A capacidade de construir esse consenso, em meio a um conflito que entra no seu quinto ano, deve definir não só o futuro de Chernobyl, mas também o padrão de segurança nuclear em guerras que ainda podem surgir.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *