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França pede exercício da Otan na Groenlândia e enfrenta pressão de Trump

A França apresenta um pedido formal para que a Otan realize exercícios militares na Groenlândia e desafia abertamente a pressão dos Estados Unidos pela anexação do território. A iniciativa é anunciada pelo presidente Emmanuel Macron em Davos, em meio à chegada de Donald Trump ao Fórum Econômico Mundial, em janeiro de 2026.

Europa reage à ofensiva americana no Ártico

O movimento francês transforma uma disputa diplomática em sinal militar concreto em uma das regiões mais estratégicas do planeta. A Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca, ocupa posição-chave no Atlântico Norte e no Ártico, rota de submarinos nucleares, aviões militares e novas rotas de navegação abertas pelo derretimento do gelo.

Macron escolhe Davos como palco para o recado. Em discurso na terça-feira, 20 de janeiro, diante de chefes de Estado e executivos de grandes fundos, ele afirma que a Europa “não cederá a valentões nem se deixará intimidar”. A frase é entendida como resposta direta à ameaça de Trump de impor tarifas de até 200% sobre produtos europeus caso seus planos para a ilha não avancem.

A presença de Trump na mesma estação de esqui suíça amplia a tensão. O presidente americano desembarca em Davos nesta quarta-feira com a intenção de usar o Fórum como vitrine para sua campanha pela anexação da Groenlândia, ignorando a rejeição pública de Copenhague e a crescente resistência europeia. Assessores de governos aliados descrevem, em privado, o episódio como o maior desgaste nas relações transatlânticas em décadas.

O pedido francês à Otan prevê exercícios que podem incluir cenários de combate em grande escala na região. Segundo o próprio site da aliança, esse tipo de treinamento pode mobilizar aeronaves de caça, navios de guerra, peças de artilharia, veículos blindados e milhares de soldados, sob comando único da organização. A CNN solicita um posicionamento oficial da Otan, que ainda não se manifesta.

Groenlândia vira teste de fogo para a Otan

A iniciativa de Macron não mira apenas Washington. O gesto pressiona diretamente os 31 países da Otan a se posicionar diante da estratégia de Trump para a Groenlândia. Líderes da aliança já alertam, em conversas reservadas, que a escalada americana pode desestabilizar o bloco que garante a defesa coletiva do Atlântico Norte desde 1949.

Exercícios da Otan são definidos por um comandante da aliança e dependem da adesão voluntária dos países. Cada governo decide se envia tropas, aviões, navios ou apoio logístico e arca com os próprios custos. Ao pedir um treinamento específico na Groenlândia, a França busca transformar a defesa da ilha em tema de segurança coletiva, e não apenas em questão bilateral entre Estados Unidos e Dinamarca.

No pano de fundo está a ambição declarada de Trump de incorporar a Groenlândia ao território americano. O republicano já havia sido alvo de críticas em 2019, quando ventilou pela primeira vez a ideia de comprar a ilha. Agora, segundo assessores europeus, ele indica a interlocutores que considera alternativas mais duras para forçar um acordo, da imposição de tarifas punitivas a pressões políticas sobre aliados nórdicos.

Trump liga o dossiê da Groenlândia à própria biografia política. Em discursos recentes, volta a reclamar por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz e acusa o comitê norueguês de perseguição. Assessores relatam que ele se vê como arquiteto de uma “nova ordem” no Ártico e descreve a ilha como peça central de sua estratégia de segurança nacional e prestígio internacional.

O cálculo francês é que o envio de meios militares aliados para a região funcione como freio a qualquer tentativa de mudança forçada de status da ilha. Auxiliares de Macron ressaltam que o presidente está “pronto para ajudar a proteger a região” e que qualquer alteração na soberania da Groenlândia precisa passar por Copenhague, Nuuk e pelas instituições multilaterais, não por pressão unilateral da Casa Branca.

Impactos no Ártico e no vínculo transatlântico

A ofensiva diplomático-militar de Paris tem efeitos imediatos. Em primeiro lugar, reforça a leitura de que o Ártico deixa de ser periferia estratégica e entra no centro do tabuleiro global. A região concentra reservas de petróleo, gás e minerais críticos e pode ver, nas próximas décadas, novas rotas comerciais que encurtem em milhares de quilômetros a ligação entre Ásia, Europa e América do Norte.

Para a Europa, a disputa pela Groenlândia representa teste de coesão. Países do Báltico e do Norte, mais expostos à Rússia, temem que uma crise aberta com Washington enfraqueça a Otan e beneficie Moscou. Já capitais da Europa Ocidental, como Paris e Berlim, veem o episódio como oportunidade para afirmar maior autonomia estratégica, mesmo sob risco de atrito direto com a Casa Branca.

Na prática, um grande exercício da Otan na Groenlândia exige meses de planejamento, definição de cenários e coordenação entre dezenas de estados-maiores. O deslocamento de navios e aviões para áreas próximas ao círculo polar aumenta o custo das operações militares, mas também eleva o patamar de dissuasão. Para Washington, a presença ampliada de aliados na região pode tanto ser vista como respaldo à segurança do Atlântico Norte quanto como obstáculo às ambições de anexação.

A pressão americana já provoca reação fora dos círculos diplomáticos. Organizações ambientalistas alertam para o impacto de manobras em áreas sensíveis do Ártico. Partidos de oposição em capitais europeias utilizam a crise para questionar a dependência de Washington e defender que a União Europeia desenvolva política própria para a região polar até 2030.

No interior da Otan, a crise funciona como catalisador de debates antigos, da divisão de custos de defesa ao alcance exato da cláusula de proteção mútua. Diplomatas reconhecem que, se a disputa pela Groenlândia se agravar, aliados serão forçados a responder a uma pergunta incômoda: até onde a aliança está disposta a ir para contrariar um presidente dos Estados Unidos em exercício?

Próximos passos em Davos e no Ártico

Os desdobramentos imediatos passam por Davos. Macron e Trump circulam pelos mesmos corredores, salões e jantares fechados do Fórum Econômico Mundial. Equipes diplomáticas monitoram cada gesto, declaração e encontro bilateral, à espera de sinais sobre eventual recuo ou nova escalada. A Otan, pressionada, precisa decidir se acolhe, modifica ou ignora o pedido francês.

Nos próximos meses, aliados discutem, em Bruxelas, o calendário de exercícios para 2026 e 2027. Uma eventual aprovação de cenários de combate em grande escala na Groenlândia redesenha o mapa militar do Atlântico Norte e cristaliza o Ártico como fronteira de confronto político entre Europa e Estados Unidos. Caso a aliança opte por uma resposta tímida, Macron terá de explicar a aposta a eleitores e parceiros, enquanto Trump pode interpretar o silêncio como sinal verde para endurecer sua estratégia.

A Groenlândia, com pouco mais de 56 mil habitantes e 2,1 milhões de quilômetros quadrados de território gelado, torna-se laboratório para medir os limites da cooperação ocidental. A disputa expõe fraturas na relação entre Europa e EUA, questiona o papel da Otan e recoloca a pergunta que começa a ecoar nos bastidores de Davos: quem, afinal, define as regras do jogo no Ártico do século 21?

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