Lula critica Trump, Bolsonaro e governaça por redes em ato no RS
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usa a entrega de 1.276 moradias do Minha Casa, Minha Vida, em Rio Grande (RS), nesta terça-feira (20), para atacar a política feita por redes sociais e mirar seus antecessores no Palácio do Planalto. Em discurso com tom eleitoral, ele critica o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, volta a dizer que Jair Bolsonaro “quase destruiu o País” e defende que 2026 seja o “ano da comparação” entre governos.
Lula contrapõe contato direto e política digital
O ato no Empreendimento Junção, que entrega 1.276 unidades habitacionais a famílias de baixa renda, vira palanque para uma mensagem dupla. De um lado, Lula tenta associar o atual mandato a políticas sociais concretas, como a retomada do Minha Casa, Minha Vida, rebatizado e ampliado desde 2023. De outro, reforça o discurso de que a política precisa voltar ao contato físico com o eleitor, e não se limitar às telas de celulares e redes sociais.
Ao mencionar Trump, Lula critica o modelo de governança que se populariza a partir de 2017, quando o republicano chega à Casa Branca e transforma o então Twitter, hoje X, em plataforma central de anúncios e ataques. “Vocês já perceberam uma coisa, que o presidente Trump quer governar o mundo pelo Twitter? É fantástico. Todo dia ele fala uma coisa e todo dia o mundo fala da coisa que ele falou. Vocês acham que é possível?” questiona o petista, em tom irônico.
Na sequência, o presidente conecta a crítica ao seu argumento sobre respeito e presença. “É possível tratar o povo com respeito se eu não olhar na cara de vocês, se eu achar que vocês são objetos, e não um ser humano?”, continua. O contraste atende a uma estratégia conhecida no entorno do Planalto: reforçar a imagem de governante que circula pelo País, revisita obras paradas e anuncia entregas, em um calendário acelerado por um ano marcado pela aproximação das eleições municipais e, mais adiante, pela disputa presidencial.
O alvo não é apenas Trump. Lula mira o uso cotidiano de tecnologia na política, inclusive dentro do próprio governo. “Todo deputado é viciado nisso (celular). Estava esperando se ia ter alguém com o celular, porque eu ia comer o fígado aqui”, provoca. Ele afirma que o gabinete presidencial veta o uso de aparelhos em reuniões estratégicas. “Na minha sala é proibido entrar com celular, no gabinete é proibido. Às vezes você está falando e fica olhando e as pessoas estão olhando para o celular, não estão na reunião”, reclama.
Disputa de narrativas e balanço de governos
O discurso em Rio Grande ocorre poucos dias depois de o presidente se tornar alvo de cortes de vídeo e publicações descontextualizadas nas redes sociais. Em um evento na Casa da Moeda, na sexta-feira 16, falas sobre trabalho e educação são recortadas para sugerir que Lula defende que “pobre foi feito para trabalhar, e não para estudar”. Outra postagem acusa o presidente de errar o pronome da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). O Planalto reage com notas, vídeos integrais e entrevistas.
No palco do Minha Casa, Minha Vida, Lula volta ao tema e associa o episódio ao que chama de “era da mentira”. “A verdade, você tem que explicar. A mentira, você só tem que falar”, afirma. Ele acusa adversários de viveirem de distorções nas redes. “Eles querem pegar uma ou duas palavras aqui para que eles possam distorcer e mandar para o mundo na internet”, diz, sugerindo que o embate central de 2026 será menos econômico e mais narrativo.
O presidente usa a plateia de beneficiários do programa para propor um critério de julgamento eleitoral. “Nós precisamos transformar o ano de 2026 no ano da comparação. Vamos pegar o ano em que foi feito o impeachment da Dilma, em 2016, vamos pegar o governo Temer e o governo Bolsonaro, e vamos fazer uma comparação do que nós fizemos em três anos com o que eles fizeram em sete anos”, declara.
Lula sustenta que os dois primeiros anos de seu terceiro mandato, 2023 e 2024, servem para “tentar reformar e recuperar esse País” após o que descreve como um período de desmonte. “O governo Bolsonaro quase destruiu o País”, afirma, ecoando um bordão repetido em discursos desde a campanha de 2022. O foco, agora, é empacotar esse argumento em números de obras, empregos e investimentos até o início oficial da corrida presidencial.
O contraste com Temer e Bolsonaro, porém, não se limita à economia. Ao atacar a centralidade das redes sociais na política recente, Lula tenta se posicionar como o presidente que devolve o debate ao espaço físico das praças, galpões e conjuntos habitacionais. O gesto tem efeito indireto sobre aliados e adversários, que estruturam campanhas em torno de engajamento digital, impulsionamento de conteúdo e guerras de desinformação.
Minha Casa, redes sociais e o tabuleiro até 2026
A cerimônia em Rio Grande reúne ministros, parlamentares e lideranças locais em torno da entrega das 1.276 unidades do Empreendimento Junção, dentro da modalidade Entidades do Minha Casa, Minha Vida. Os imóveis, segundo o governo, vêm de áreas da União sem uso ou ociosas, convertidas em habitação social. Para as famílias contempladas, o ato representa mudança imediata de vida: a passagem do aluguel ou da moradia precária para a casa própria.
Ao associar a chave das casas ao combate à desinformação, Lula tenta dizer que a resposta às fake news está em obras concluídas, e não em posts. O raciocínio também funciona como recado interno. Integrantes do governo defendem maior presença digital do presidente, especialmente em plataformas de vídeo curto que concentram parte do eleitorado jovem. Lula resiste a personalizar a comunicação, prefere delegar a auxiliares e volta e meia ironiza a dependência de celulares.
O embate sobre o peso das redes na política brasileira se acirra em paralelo a discussões no Congresso sobre projetos de regulação das plataformas e responsabilização por conteúdos falsos. O Planalto calcula o custo de retomar o tema em ano eleitoral, depois de derrotas em 2023, quando o chamado “PL das Fake News” enfrenta forte reação de bancadas conservadoras e empresas de tecnologia.
O discurso em Rio Grande antecipa esse conflito. Ao colocar Trump e Bolsonaro no mesmo pacote da política digital, Lula fala para sua base, pressiona o centro e testa o alcance de uma agenda que mistura regulação, educação midiática e reforço de políticas sociais. A dúvida, no meio político, é se a aposta no contato direto, em um País de dimensões continentais e altíssima penetração de smartphones, será suficiente para contrabalançar o poder de algoritmos e correntes virais.
Até 2026, o presidente terá de calibrar o discurso que demoniza o celular com a necessidade de alcançar eleitores que vivem conectados. A comparação que ele propõe entre governos tende a ser feita, em grande parte, nas mesmas redes que critica hoje. O desafio do Planalto será transformar entregas como as casas de Rio Grande em narrativa digital capaz de sobreviver ao ruído diário da internet.
