Um ano de Trump 2.0: como a Casa Branca redesenha os EUA e o mundo
Um ano após voltar à Casa Branca, em 20 de janeiro de 2026, Donald Trump governa um país mais rico em alguns indicadores e mais dividido em quase todos os outros. A nova temporada trumpista acelera a economia em setores estratégicos, tensiona instituições e redesenha alianças globais, enquanto o mundo tenta decifrar até onde vai o segundo mandato do republicano.
Casa Branca em modo ofensivo
O retorno de Trump, sacramentado na posse em 20 de janeiro de 2025, encerra quatro anos de governo democrata e recoloca os Estados Unidos em uma rota de confronto aberto com adversários e parceiros. A agenda econômica combina cortes de impostos, desregulamentação e incentivos à indústria de combustíveis fósseis, repetindo a fórmula que marcou o primeiro mandato, mas desta vez com pressa maior e freios institucionais mais desgastados.
O pacote aprovado pelo Congresso, estimado em mais de US$ 2 trilhões em incentivos e renúncias fiscais até 2030, impulsiona setores como petróleo, gás e defesa. Índices de confiança empresarial sobem, e a taxa de desemprego, que flertava com 5% no início de 2025, recua para a casa dos 4%. O dado é celebrado pelo governo como prova de que “a América está de volta”, nas palavras do próprio Trump, em discurso recente no Salão Oval.
O crescimento, porém, vem acompanhado de desgaste social. Movimentos ambientais denunciam retrocessos em metas climáticas e acusam a Casa Branca de “sacrificar o futuro por ganhos de curto prazo”. Organizações ligadas a minorias raciais e à comunidade LGBTQIA+ apontam aumento de casos de violência e discurso de ódio, alimentados por uma retórica presidencial que dispensa filtros. A polarização, que já parecia extrema em 2020, ganha nova camada de radicalização, agora turbinada por plataformas digitais ainda menos reguladas.
A série de 12 reportagens especiais de O GLOBO mergulha nesse ambiente em que decisões diárias da Casa Branca reconfiguram a vida de milhões de pessoas, dentro e fora dos EUA. Economistas, diplomatas, analistas de segurança e lideranças sociais descrevem um país em disputa permanente sobre o próprio projeto de democracia, enquanto aliados históricos tentam se ajustar ao vaivém de Washington.
Choques internos e realinhamento global
Nos bastidores de Washington, o segundo mandato se apoia em lealdades solidificadas durante a primeira passagem de Trump pela Casa Branca. A equipe mais próxima do presidente reúne antigos assessores, figuras influentes da direita ultraconservadora e nomes afinados com a indústria de armas e de energia. A relação com o Congresso se dá à base de pressão pública, ameaças veladas e uso intenso das redes sociais, em tom que mistura palanque eleitoral e comando de governo.
A política externa volta a privilegiar acordos bilaterais, tarifas como arma de negociação e uma visão transacional das alianças. Compromissos multilaterais são revistos, da agenda climática à cooperação em organismos internacionais. Parceiros europeus registram perda de previsibilidade. Na Ásia, a disputa com a China entra em nova fase, com sanções tecnológicas ampliadas e exercícios militares mais frequentes no Pacífico, o que gera preocupação em chancelerias de pelo menos três continentes.
O impacto econômico global aparece em curvas de juros mais voláteis, na reorganização de cadeias de suprimento e em acordos comerciais reescritos às pressas. Setores de tecnologia, agricultura e energia calculam perdas e ganhos. Exportadores latino-americanos, incluindo o Brasil, encontram oportunidades pontuais em nichos deixados por parceiros afastados de Washington, mas convivem com incerteza sobre prazos e regras, revisados com poucas semanas de aviso.
A tensão interna acompanha esse movimento. Estados governados por democratas acionam a Justiça para barrar decretos federais sobre imigração, direitos civis e acesso ao aborto. Cortes federais, pressionadas por nomeações conservadoras acumuladas ao longo dos últimos anos, tornam-se palco de disputas que ultrapassam o jargão jurídico. “O que se decide hoje não é apenas a legalidade de uma política, mas os limites do próprio sistema de freios e contrapesos”, avalia um professor de Direito Constitucional ouvido pela série.
O debate sobre democracia se espalha pelas ruas. Em 12 meses, capitais americanas registram dezenas de grandes protestos, alguns com mais de 100 mil pessoas. Marchas pró-governo respondem na mesma escala. Imagens de bandeiras, cartazes e confrontos circulam em tempo real, alimentando bolhas informativas que raramente dialogam entre si. A disputa pelo sentido de “América” se torna tão relevante quanto os índices de emprego ou o valor do dólar.
Quem ganha, quem perde e o que vem depois
O segundo mandato de Trump redefine prioridades e produz vencedores visíveis. Empresas de combustíveis fósseis registram lucros recordes. Fabricantes de armamentos veem crescer contratos com o Pentágono, em cenário de alta de pelo menos 15% nos gastos militares projetados até 2027. Investidores de curto prazo se beneficiam de cortes de regulamentações ambientais e trabalhistas, que reduzem custos e aceleram licenças.
Entre os perdedores estão imigrantes em situação irregular, alvos de operações mais agressivas nas fronteiras e no interior do país. Programas sociais federais sofrem cortes graduais, atingindo famílias de baixa renda e estados mais dependentes de repasses de Washington. Pesquisadores e universidades relatam perda de financiamento em áreas ligadas a clima, direitos humanos e saúde pública, consideradas pouco prioritárias pelo governo.
As repercussões internacionais seguem um padrão semelhante. Governos alinhados ideologicamente a Trump comemoram a abertura para acordos rápidos e pouco condicionados a temas como meio ambiente e direitos humanos. Outros países, sobretudo na Europa Ocidental, intensificam esforços para construir alternativas de liderança global, reduzindo a dependência de Washington em energia, tecnologia e defesa. A ordem internacional, já fragmentada, entra em uma fase em que a previsibilidade se torna artigo raro.
Em ano eleitoral para parte do Congresso e a dois anos da próxima disputa presidencial, a pergunta central é quanto tempo esse curso se sustenta. A economia pode seguir crescendo em 2026 e 2027, mas a custo de conflitos internos mais agudos e isolamento externo maior. “O legado desse segundo mandato não será medido apenas em PIB. Será medido em coesão social e credibilidade institucional”, resume um ex-diplomata americano ouvido na série.
O GLOBO acompanha, em 12 capítulos, como cada uma dessas frentes se desdobra — da fronteira com o México às salas de reunião em Bruxelas, de usinas de carvão reativadas ao Vale do Silício em disputa com Pequim. Um ano depois da volta de Donald Trump ao Salão Oval, a única certeza é que as escolhas feitas agora ainda vão reverberar, em números e cicatrizes, muito além de 2029.
