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Davos 2026 vira palco da disputa global por Groenlândia, poder e tecnologia

Líderes políticos e executivos das maiores empresas de tecnologia se reúnem nos Alpes suíços a partir de 21 de janeiro de 2026 para o maior Fórum Econômico Mundial da história. Em meio à ofensiva de Donald Trump sobre a Groenlândia, tensões comerciais e corrida tecnológica com a China, Davos se torna, por uma semana, o centro visível da disputa por território, poder econômico e influência global.

Groenlândia à mesa em Davos

A neve é a mesma, mas o objeto da briga está a milhares de quilômetros dali. A Groenlândia, território estratégico no Ártico, paira sobre os debates em Davos como um fantasma geopolítico. A ameaça repetida por Donald Trump de comprar ou até invadir a ilha transforma um fórum de discursos programados em um campo minado diplomático.

Trump desembarca nos Alpes suíços na quarta-feira, 21 de janeiro, com cinco membros do gabinete, uma comitiva de assessores e a elite empresarial americana. Jensen Huang, da Nvidia, e Satya Nadella, da Microsoft, ajudam a compor o séquito que tenta vender a imagem de um Estados Unidos forte, disposto a usar tarifas, tecnologia e poder militar para redesenhar mapas e cadeias de produção.

O presidente chega depois de um ano de escaladas verbais. Em 2025, em videoconferência a partir da Casa Branca, ele fala a uma plateia europeia atônita. Sorri, pede desculpas por não viajar à Suíça, mas deixa claro o recado: ou a Europa aceita vender a Groenlândia, ou enfrenta tarifas que, segundo ele, podem render “trilhões” de dólares ao Tesouro americano. “Construam fábricas nos EUA ou paguem”, diz, diante de executivos que evitam aplaudir.

A ofensiva, vista em Bruxelas e Copenhague como chantagem econômica, volta agora a ser tema central. Em conversas reservadas, diplomatas europeus falam em “teste de estresse” para a soberania do bloco e para a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan. A lembrança de Yalta, conferência de 1945 que redesenha o mapa pós-guerra, aparece nos corredores como metáfora incômoda de um possível redesenho silencioso de fronteiras, do Ártico a Donbas.

Do outro lado do Atlântico, o discurso é outro. Mark Carney, primeiro-ministro canadense, chega a Davos como o contraponto norte-americano a Trump. Ele exibe um crescimento econômico sustentado após um ano de turbulência comercial com Washington e cita a diversificação de parceiros para reduzir a dependência dos EUA. Ao lado de Xi Jinping, anuncia o que chama de “nova ordem mundial” baseada em multilateralismo e cooperação climática.

Choque entre unilateralismo e multilateralismo

O tema oficial deste ano, “um espírito de diálogo”, soa quase irônico. A Casa Branca pressiona a organização a reduzir a ênfase em clima, desenvolvimento global e agendas consideradas progressistas. Insiste para que o fórum priorize temas comerciais “pragmáticos”, em linha com a estratégia trumpista de renegociar acordos na base da força econômica e militar.

O contraste fica evidente logo na programação. Mais de 65 chefes de Estado e de governo, incluindo Volodymyr Zelensky, dividem atenções com 850 executivos de grandes companhias e dezenas de pioneiros em inteligência artificial, computação quântica e carros elétricos. A China, agora maior exportadora de veículos do mundo, ocupa sessões lotadas com ministros das Finanças e dirigentes de conglomerados tecnológicos. Pequim se apresenta como a parte adulta em uma sala dominada por ameaças tarifárias e ambições territoriais.

Nos bastidores, assessores europeus descrevem Davos 2026 como um “teste ao vivo” da capacidade de o sistema multilateral suportar o peso de um unilateralismo americano sem freios. A memória do encontro do ano passado permanece fresca. O triunfalismo dos EUA na abertura do fórum é esvaziado, em poucos dias, pela surpresa com um chatbot de inteligência artificial chinês, o DeepSeek, que domina conversas e levanta dúvidas sobre a liderança tecnológica ocidental.

O que então parecia anedótico se torna aviso. Em uma sessão sobre baterias de carros elétricos, especialistas deixam claro que montadoras americanas e europeias não têm condições de alcançar a tecnologia chinesa nesta década. Este ano, a presença de gigantes como Nvidia e Microsoft, lado a lado com startups asiáticas, transforma esse diagnóstico em disputa aberta por chips, dados e infraestrutura digital.

Em paralelo, a política climática tenta sobreviver. Pressões da Casa Branca fazem o fórum suavizar discursos mais duros sobre metas ambientais. Ainda assim, investidores cobram prazos, números e compromissos de governos e empresas. O degelo no Ártico, que torna a Groenlândia ainda mais estratégica por causa de minérios e novas rotas marítimas, entra em relatórios como combinação explosiva de crise climática e corrida por recursos.

Impactos sobre alianças, economia e tecnologia

A ofensiva americana sobre a Groenlândia mexe com mais do que mapas. Afeta alianças militares, contratos de energia, seguros e investimentos no Ártico. Estimativas de consultorias europeias apontam que acordos de exploração de minerais raros na região podem ultrapassar US$ 100 bilhões em 20 anos, dependendo de regras de soberania e de licenciamento ambiental. Uma mudança de controle sobre a ilha deslocaria fluxos inteiros de capital.

Para a Europa, o custo político é imediato. Ceder à pressão dos EUA significaria admitir que ameaças tarifárias e militares funcionam como instrumento legítimo na definição de fronteiras. Resistir implica risco de retaliações que podem atingir setores como automóveis, aço, tecnologia e agricultura, que somam centenas de bilhões de dólares em exportações anuais ao mercado americano. Em Davos, ministros de Economia calculam, em reuniões fechadas, cenários de perdas de 1% a 2% do PIB em caso de guerra tarifária prolongada.

O Canadá tenta ocupar o espaço deixado por Washington como parceiro confiável. Carney aposta em acordos de médio e longo prazo com Europa e Ásia, baseados em previsibilidade regulatória e metas de emissões. O cálculo é simples: se empresas acreditam que tarifas americanas podem mudar de um ano para o outro, procuram portos alternativos. Davos vira a vitrine desse reposicionamento, com anúncios de novos investimentos e linhas de crédito verdes.

A China observa e avança. Ao se apresentar como defensora do multilateralismo, mesmo com histórico ambíguo em direitos humanos e segurança digital, ganha espaço entre países médios que buscam contrapesos aos EUA. Na prática, isso significa novos financiamentos, acordos de infraestrutura e, sobretudo, expansão de padrões tecnológicos chineses, de redes 5G a plataformas de IA usadas em governos e bancos.

No campo ambiental, a pressão vem de outro lado. Fundos de investimento que administram trilhões de dólares condicionam aportes a metas claras de redução de emissões até 2030. Eles cobram dos líderes reunidos na Suíça um calendário verificável, com percentuais definidos de corte de carbono, sob pena de redirecionar recursos para mercados considerados mais responsáveis. A disputa por capital verde se mistura à batalha por influência geopolítica.

O que Davos pode decidir sobre o futuro

Os próximos dias nos Alpes suíços funcionam como um laboratório a céu aberto das relações internacionais. Conversas fora da agenda oficial podem definir, por exemplo, se a pressão americana sobre a Groenlândia se transforma em negociação formal ou se recua para o campo das bravatas. A forma como Europa, Canadá e China respondem a Trump indica o espaço real que o multilateralismo ainda possui.

Para além dos discursos, Davos 2026 testa a capacidade dos governos de lidar, ao mesmo tempo, com três frentes: reconfiguração territorial no Ártico, guerra comercial entre grandes potências e revolução tecnológica acelerada por inteligência artificial e computação quântica. O fórum termina em poucos dias, mas deixa perguntas que não cabem em um comunicado final. A principal delas é se o mundo ainda tem instituições e acordos suficientes para conter líderes dispostos a redesenhar fronteiras com tarifas, algoritmos e, se necessário, tropas.

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