Ultimas

Trump diz gostar de Lula e o convida para conselho que mira a ONU

Donald Trump afirma nesta terça-feira (20/1), em Washington, que “gosta” de Luiz Inácio Lula da Silva e quer o brasileiro em um novo Conselho de Paz. A declaração, dada no dia em que completa um ano de volta à Casa Branca, tenta reposicionar o papel dos Estados Unidos na diplomacia global e testar os limites da relação com o Brasil.

Trump responde a críticas e acena ao Planalto

A frase sobre Lula surge em uma entrevista incomum na Casa Branca. Trump entra de surpresa na sala de imprensa e toma o lugar da porta-voz Karoline Leavitt, que conduziria a coletiva. Poucos minutos antes, os jornalistas são avisados de que o presidente falará pessoalmente. Ao longo de cerca de uma hora, ele alterna provocações, recados a aliados e um raro gesto de afago ao governo brasileiro.

O aceno a Lula vem logo depois de uma pergunta da jornalista Raquel Krähenbühl, da TV Globo, sobre o convite ao Brasil para integrar o chamado Conselho de Paz. O órgão, ainda sem data oficial de lançamento, é apresentado por Trump como a peça central de sua estratégia para redesenhar a diplomacia internacional e contornar bloqueios na Organização das Nações Unidas. “Eu quero que o presidente Lula tenha um grande papel no Conselho de Paz. Eu gosto dele”, afirma o republicano, em tom categórico.

A fala contrasta com as críticas recentes do petista. Horas antes, em evento no Brasil, Lula acusa o americano de tentar “governar o mundo pelo Twitter” e questiona sua capacidade de tratar as pessoas com respeito. “Vocês já perceberam que o presidente Trump quer governar o mundo pelo Twitter? É fantástico. Todo dia ele fala uma coisa e todo dia o mundo fala ali da coisa que ele falou”, provoca. Na sequência, ele amplia o ataque. “É possível tratar o povo com respeito se eu não olhar na cara de vocês, se eu achar que vocês são objetos e não um ser humano?”

Trump escolhe não devolver na mesma moeda. Em vez disso, apresenta Lula como potencial parceiro em um fórum paralelo às estruturas tradicionais de mediação. O gesto surpreende diplomatas em Brasília e em Washington, acostumados a trocas públicas de farpas entre os dois líderes ao longo dos últimos anos. Em privado, auxiliares do presidente brasileiro admitem surpresa com o tom conciliador, mas evitam qualquer sinal de resposta imediata.

Conselho de Paz testa limites da ONU e do Itamaraty

O Conselho de Paz aparece, desde a campanha que leva Trump de volta à Casa Branca, como promessa de “sacudir” a arquitetura multilateral construída após a Segunda Guerra. Na prática, adota a forma de um núcleo político, reunindo um grupo restrito de chefes de Estado escolhidos pelo próprio republicano. A ambição declarada é negociar cessar-fogos, sanções e acordos diretos em conflitos armados, hoje tratados principalmente pelo Conselho de Segurança da ONU.

Setores do Itamaraty veem no convite uma chance de devolver o Brasil ao centro das grandes conversas globais. Desde 2019, o país perde espaço em rodadas sensíveis, como as negociações climáticas e a reforma do sistema de segurança coletiva. A possibilidade de ocupar cadeira em um colegiado restrito, ao lado de potências nucleares, seduz parte do corpo diplomático, que fala em “janela rara” para recuperar protagonismo. Ao mesmo tempo, cresce o temor de associar Brasília a uma iniciativa percebida como tentativa de esvaziar a própria ONU.

Trump é questionado diretamente sobre essa suspeita. Ele nega que queira implodir a organização, mas aproveita para desferir novo golpe na instituição que, em 2025, ele acusa de ser “lenta, cara e ineficaz”. “Eu gosto muito da ONU, mas ela não tem ajudado muito nas negociações de guerras”, diz, sem citar conflitos específicos. Em seu primeiro ano de mandato, Washington endurece tarifas contra parceiros históricos, amplia deportações em massa e intensifica operações secretas em zonas de tensão, alimentando a percepção de uma política externa mais unilateral e imprevisível.

O cenário fica ainda mais sensível porque a entrevista ocorre em meio a uma escalada de atritos com a Europa. Em apenas 12 meses, Trump volta a atacar líderes do continente no Truth Social, vaza mensagens privadas com o presidente francês, Emmanuel Macron, e insiste em pressionar a Dinamarca para obter controle sobre a Groenlândia. Perguntado quão longe está disposto a ir para conquistar o território, ele responde de maneira enigmática: “Vocês vão descobrir”. Ao comentar a relação com Macron e com o premiê britânico Keir Starmer, prefere minimizar os choques. “Eu me dou bem com ele. Eles sempre me trataram bem. Eles ficam um pouco agitados quando eu não estou por perto”, afirma, sorrindo.

Brasil pesa custos de protagonismo e risco

O governo brasileiro ainda não responde oficialmente se aceita ou não o convite para o Conselho de Paz. Assessores próximos de Lula dizem, em caráter reservado, que a decisão não deve sair antes de consultas internas ao Itamaraty e à base aliada no Congresso. Pesam, de um lado, o interesse em manter a agenda de defesa do multilateralismo e da reforma da ONU; de outro, a chance de falar diretamente ao ouvido do presidente americano em um formato que tende a concentrar muito poder em poucas mãos.

Para diplomatas experientes, a inclusão explícita do nome de Lula na coletiva muda o patamar da cobrança sobre o Planalto. Se o Brasil recusa, arrisca perder espaço em negociações de paz e ver outros países latino-americanos ocuparem o vácuo. Se aceita sem impor salvaguardas, pode ser acusado, em foros internacionais, de legitimar um atalho que reduz a relevância da ONU e enfraquece instâncias onde o país atua há décadas, como o Conselho de Direitos Humanos e a própria Assembleia Geral.

Analistas avaliam que Trump aposta em duas frentes. Internamente, tenta suavizar a imagem construída em um ano marcado por deportações em massa, aumento de tarifas e operações não divulgadas em ao menos três regiões de conflito. Ao associar o projeto a um líder de esquerda com forte capital político no Sul Global, busca mostrar que o conselho não nasce como clube exclusivo de aliados conservadores. Externamente, coloca Lula diante de uma escolha delicada: ou se afasta do conselho e reforça o discurso tradicional em defesa da ONU, ou embarca na iniciativa e tenta moldá-la por dentro, correndo o risco de dar mais legitimidade a uma estrutura paralela.

Os próximos meses definem o peso real da proposta. Diplomatas americanos falam, reservadamente, em lançar o Conselho de Paz ainda em 2026, com até dez países fundadores. No Brasil, auxiliares de Lula defendem extrair contrapartidas claras, como apoio dos EUA à reforma do Conselho de Segurança e a compromissos transparentes de governança do novo órgão. Até lá, a frase repetida por Trump na sala de imprensa da Casa Branca ecoa em Brasília como convite e pressão ao mesmo tempo: o presidente americano diz gostar de Lula, mas é a reação do brasileiro que determinará se o gesto inaugura uma nova fase de cooperação ou mais um foco de atrito na já congestionada diplomacia global.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *