Macron chama Trump de ‘amigo’ em mensagens sobre Irã, Síria e Groenlândia
Emmanuel Macron chama Donald Trump de “amigo” e o convida para jantar em Paris, em mensagens privadas reveladas nesta terça-feira (20) nas redes sociais do americano. Nos textos, o presidente francês propõe articulações sobre Síria, Irã e uma reunião ampliada do G7, mas critica a ofensiva dos Estados Unidos sobre a Groenlândia.
Conversa privada expõe tom cordial em relação tensa
As mensagens, publicadas por Trump em sua própria plataforma, mostram um Macron menos combativo do que em discursos recentes. O francês, que já chamou a Otan de “morte cerebral” em crítica indireta ao estilo do republicano, escreve agora com tratamento abertamente pessoal. “Nós estamos em total sintonia sobre a Síria. Nós podemos fazer coisas grandes no Irã”, afirma o texto atribuído ao presidente da França.
O diálogo ocorre em meio a um cenário de pressões sucessivas no Oriente Médio e de disputa geopolítica no Ártico. Na sequência das mensagens, Macron propõe encontros presenciais em Paris, na quinta-feira (22), logo após o Fórum Econômico Mundial em Davos. Ele sugere uma reunião do G7 com participação às margens de ucranianos, dinamarqueses, sírios e russos, além de um jantar reservado com Trump antes da volta do americano aos Estados Unidos.
O trecho que trata da Groenlândia rompe o tom harmonioso. “Eu não entendo o que você está fazendo na Groenlândia”, escreve Macron, numa referência ao interesse de Trump em adquirir o território autônomo que pertence ao Reino da Dinamarca. A frase sintetiza o ponto de atrito entre os dois aliados da Otan, que se aproximam em temas militares clássicos, mas divergem sobre a expansão da presença americana no Ártico.
Síria, Irã e Groenlândia na mesma mesa
O convite para um jantar em 22 de janeiro, em Paris, indica a tentativa de Macron de transformar a cordialidade em posição concreta. Ao associar a conversa privada à agenda do G7, o francês tenta costurar, em menos de 48 horas, um espaço para negociações paralelas sobre conflitos que envolvem diretamente Washington, Moscou e Teerã. A participação de Ucrânia, Rússia, Dinamarca e Síria nas bordas da reunião reforça a estratégia de ampliar o alcance político de um encontro originalmente econômico.
A referência à Síria e ao Irã recoloca Paris no papel de mediador que o país busca desde o acordo nuclear assinado em 2015, do qual Trump se retira em 2018. Ao afirmar que está “em total sintonia” com o americano na Síria, Macron tenta mostrar alinhamento na luta contra grupos armados, mas também sinaliza que pretende influenciar os limites da atuação dos dois países, especialmente no norte sírio, onde tropas americanas, russas e forças locais disputam território e recursos desde 2011.
No caso iraniano, a frase “podemos fazer coisas grandes” sugere uma combinação de pressão diplomática e negociações, em vez de confronto direto. A Europa teme um colapso completo do acordo nuclear e um salto na capacidade de enriquecimento de urânio em Teerã. A exposição pública da proposta francesa, ainda que por iniciativa de Trump, dá peso político a eventuais conversas bilaterais que possam ocorrer à margem do G7 e de Davos.
A Groenlândia, porém, aparece como limite. O território de pouco mais de 2,1 milhões de km², coberto em 80% por gelo, ocupa posição estratégica nas rotas do Atlântico Norte e no monitoramento militar entre Estados Unidos, Europa e Rússia. Em 2019, Trump já provoca irritação internacional ao manifestar interesse em comprar a ilha. A reação dura de Copenhague força o cancelamento de uma visita oficial à Dinamarca. Agora, a crítica de Macron recoloca o dossiê no centro da disputa entre aliados e fortalece a posição dinamarquesa contra qualquer avanço territorial americano.
Impacto nas negociações e na geopolítica do Ártico
A divulgação das mensagens em público, menos de 24 horas após a troca privada, altera o clima das negociações multilaterais. Macron se apresenta como articulador de consensos, mas se vê exposto por Trump, que transforma bastidores em espetáculo político. O gesto pressiona o francês a manter a linha conciliadora diante da opinião pública, enquanto o americano tenta demonstrar que lidera, e não apenas reage, às conversas sobre Síria, Irã e Groenlândia.
Na prática, a revelação pode acelerar discussões no G7 sobre o papel do grupo em crises de segurança global. A menção explícita à presença de Ucrânia e Rússia, rivais diretos desde 2014, abre espaço para uma mesa de negociação incomum, em que aliados europeus, Washington e Moscou precisariam dividir protagonismo. A inclusão de dinamarqueses e sírios amplia o alcance da agenda e liga, em um mesmo eixo, guerra no Leste Europeu, instabilidade no Oriente Médio e disputa por rotas e recursos no Ártico.
O episódio também reforça a centralidade da Groenlândia na estratégia americana. A ilha já abriga bases militares e radares de alerta precoce dos Estados Unidos, essenciais para o monitoramento de mísseis balísticos. O degelo acelerado da região, com perda anual estimada em centenas de bilhões de toneladas de gelo desde 2000, abre novas rotas marítimas e oportunidades de exploração de minerais raros, aumentando o interesse de Washington, Pequim e Moscou. Ao se opor publicamente à iniciativa de Trump, ainda que em mensagem privada, Macron se alinha à preocupação europeia com uma eventual “corrida ao Ártico”.
Diplomatas ouvidos reservadamente em capitais europeias avaliam que a exposição da troca de mensagens pode ter efeito duplo. Por um lado, mostra que França e Estados Unidos mantêm canal direto e cordial mesmo após anos de atritos públicos, o que reduz o risco de rupturas abruptas. Por outro, torna mais difícil recuar de posições firmadas por escrito, sobretudo na questão da Groenlândia, agora lida como compromisso político, e não apenas desabafo particular.
Próximos movimentos e riscos para a relação França-EUA
A atenção agora se volta para Paris. Caso o jantar de quinta-feira se confirme, Macron e Trump terão poucas horas para transformar frases de efeito em compromissos verificáveis. Interlocutores esperam pelo menos um esboço de entendimento sobre coordenação militar na Síria e uma sinalização conjunta em relação ao programa nuclear iraniano, seja pela retomada de algum tipo de acordo, seja por novas sanções graduais.
O futuro da relação passa também por Copenhague. A resposta oficial da Dinamarca à nova investida americana sobre a Groenlândia tende a influenciar o tom da reunião proposta por Macron. Se o governo dinamarquês endurecer, o francês será cobrado a sustentar em público o recado que enviou em privado. Se houver espaço para diálogo, os Estados Unidos podem tentar negociar maior presença militar e econômica na ilha sem repetir o discurso de “compra” do território, que em 2019 causa desgaste internacional.
Os próximos dias indicarão se a mensagem que começou como exposição involuntária nas redes sociais se converterá em avanço diplomático real. A forma como Macron reagir à divulgação de sua própria conversa dirá até que ponto está disposto a pagar o preço político de tratar Trump como “amigo” em troca de algum grau de influência sobre a Síria, o Irã e o futuro da Groenlândia.
