Vaiado em evento com Lula, Eduardo Leite reage: “Esse é o amor que venceu o medo?”
Vaiado ao iniciar seu discurso ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador Eduardo Leite (PSD) reage em tom de confronto nesta terça-feira (20), em Rio Grande (RS). Diante da resistência do público, ele questiona: “Esse é o amor que venceu o medo?”.
Clima hostil em ato de cooperação
O episódio ocorre no Estaleiro da Ecovix, no Sul do Estado, durante o ato que marca o evento final da passagem de Lula por Rio Grande. O palco simboliza uma rara convergência entre o Palácio do Planalto e o Piratini em torno da reativação do polo naval, projeto que mobiliza investimentos bilionários em obras e logística para o litoral gaúcho.
O ambiente, porém, foge do roteiro de conciliação. Leite assume o microfone depois do presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, que encerra sua fala com um bordão associado à campanha de Lula em 2022: o “amor venceu o medo”. O governador tenta emendar a mensagem de união institucional, mas é recebido com uma onda de vaias que parte principalmente de apoiadores do PT presentes no estaleiro.
As manifestações começam assim que seu nome é anunciado e se intensificam quando ele tenta articular a primeira frase. “Estou cumprindo o meu dever institucional”, diz, tentando manter o tom protocolar. O público não recua. As vaias seguem, acompanhadas de gritos que impedem a continuidade do discurso por alguns minutos.
Nesse ponto, Leite abandona a postura estritamente formal e devolve a provocação, usando a mesma expressão que embala a narrativa petista desde a vitória de Lula com 50,8% dos votos válidos em 2022. “Esse é o amor que venceu o medo?”, dispara, em referência direta à votação apertada e ao slogan que marcou o segundo turno da disputa presidencial.
O gesto transforma um ato voltado à retomada econômica em vitrine da polarização política no Rio Grande do Sul. Diante da plateia dividida, o governador tenta reconduzir o discurso para a necessidade de cooperação entre os governos. “Na última eleição, o presidente foi eleito com 50,8% dos votos. Se vocês querem união, não simplesmente hostilizem quem pensa diferente”, afirma.
Confronto expõe rachaduras na base social
O pedido de respeito não basta para conter o descontentamento do público, que insiste nas vaias e interrompe seguidas vezes a fala do governador. Leite reforça que está ali “em nome do Rio Grande do Sul” e volta a mencionar o cargo de Lula. “Eu respeito o cargo do presidente da República, então peço respeito”, completa, na tentativa de deslocar o debate do embate eleitoral para o terreno institucional.
O constrangimento atinge também a cúpula federal presente. A presença de Lula em Rio Grande, em plena terça-feira, tem peso político e econômico para o governo petista. O Planalto tenta associar a agenda à retomada do investimento público e à criação de empregos em um estado onde o presidente enfrenta resistência histórica, sobretudo em redutos bolsonaristas. A reação ao governador, porém, revela que nem mesmo palanques de anúncio de obras escapam do clima de torcida organizada.
O episódio ecoa disputas recentes entre o PSD de Leite e o PT no Rio Grande do Sul, tanto na arena estadual quanto nas conversas sobre alianças municipais para 2026. Em 2022, o governador se reelege com 57,12% dos votos no segundo turno, enquanto Lula conquista o Planalto por margem bem mais estreita, de 1,8 ponto percentual sobre Jair Bolsonaro. A geografia das urnas ainda pesa sobre a plateia que hoje se junta para ouvir os dois.
A escolha de um estaleiro como cenário reforça a dimensão econômica da visita. O polo naval de Rio Grande vive anos de oscilação, com períodos de auge e colapso de contratos, afetando diretamente milhares de empregos na região. O discurso oficial destaca um “esforço conjunto” para reativar estruturas e recuperar a capacidade produtiva, em articulação entre Petrobras, Transpetro, governo federal e governo gaúcho. Leite faz questão de sublinhar esse ponto, mesmo sob vaias, para marcar presença na partilha de créditos políticos futuros.
O contraste é evidente: enquanto o projeto promete injetar recursos e renovar encomendas para o setor, o palco revela um público mais engajado na disputa de narrativas nacionais do que na conciliação institucional. A cena do governador quase impedido de falar ao lado de Lula entra imediatamente no radar das campanhas, que já trabalham projeções para as próximas eleições municipais e para a corrida presidencial de 2026.
Polarização à beira do cais e o que vem depois
A reação a Leite funciona como termômetro de uma base lulista que segue mobilizada e disposta a demarcar território, mesmo em eventos de parceria administrativa. Ao devolver a provocação, o governador calcula que também fala para seu próprio público, que cobra distância simbólica do PT e vê com desconfiança qualquer gesto de aproximação.
O custo político da cena ainda é incerto. Para o governo federal, a imagem de um aliado circunstancial vaiado em pleno anúncio de investimentos reforça a dificuldade de montar frentes amplas e estáveis. Para Leite, o episódio pode consolidar a narrativa de que ele tenta dialogar acima das trincheiras partidárias, mas enfrenta hostilidade de segmentos mais radicais do campo adversário.
Especialistas em comunicação política ouvidos ao longo dos últimos anos alertam que episódios de hostilidade aberta em atos públicos tendem a cristalizar percepções. A plateia que vê um governador vaiado diante do presidente tende a registrar menos o conteúdo das promessas de investimento e mais o tom da disputa. No curto prazo, a cena alimenta redes sociais, vídeos de campanha e interpretações conflitantes sobre quem desrespeita quem.
No plano concreto, a continuidade dos projetos no Estaleiro da Ecovix depende menos do humor do público e mais da sequência de contratos, prazos e liberações orçamentárias. Se os anúncios forem confirmados, a região pode assistir à abertura de centenas, possivelmente milhares de vagas diretas e indiretas nos próximos meses, alterando o cenário de desemprego local e a arrecadação municipal. O compartilhamento de palanques entre Lula e Leite, porém, tende a permanecer delicado.
A cena desta terça-feira se soma a outros episódios em que adversários dividem o mesmo palco em nome de obras e investimentos, mas saem com capital político desigual. A diferença, desta vez, está na pergunta lançada ao microfone diante das câmeras e dos celulares erguidos na plateia. Resta saber se, até as próximas eleições, o “amor” e o “medo” continuam apenas como slogans de campanha ou se se transformam em disposição real de convivência democrática.
