Carlos Bolsonaro e Nikolas lideram ato por presos de 8 de Janeiro
Carlos Bolsonaro e Nikolas Ferreira caminham lado a lado na BR-040, em 20 de janeiro de 2026, em protesto pela situação dos presos dos atos de 8 de Janeiro. A dupla transforma a marcha rumo a Brasília em palco de pressão política sobre o Judiciário e o governo federal.
Marcha na estrada vira símbolo de disputa política
O trecho da BR-040 que leva a Brasília amanhece tomado por bandeiras, faixas e carros de som. O asfalto quente serve de cenário para a aproximação pública entre o vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), dois dos principais nomes do campo bolsonarista no Congresso e nas redes sociais. Eles seguem a pé, cercados por seguranças e apoiadores, em meio a gritos de “anistia já” e críticas abertas ao Supremo Tribunal Federal.
O ato ocorre em 20 de janeiro de 2026, quase dois anos e meio depois da invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. A data marca uma virada de chave para a direita radical, que passa a concentrar seu discurso na situação de cerca de centenas de investigados e condenados pelos ataques em Brasília. Parlamentares e organizadores falam em “perseguição política” e “prisões injustas”. Integrantes do Judiciário e do Ministério Público, por outro lado, defendem as condenações como resposta necessária a uma tentativa de golpe de Estado.
Na estrada, o discurso mira o coração desse embate. Em carros de som, líderes do movimento repetem que querem “condições dignas, revisão de penas e respeito ao devido processo legal”. Nikolas Ferreira diz a apoiadores que “não é possível normalizar pessoas presas há mais de 700 dias em regime fechado por atos sem violência direta”. Carlos Bolsonaro reforça a narrativa ao afirmar que “o país precisa saber o que está acontecendo dentro desses presídios e até onde vai a seletividade da Justiça”. As falas inflamam a multidão, que responde com orações, cantos do hino nacional e palavras de ordem.
Direitos humanos entram no centro do debate
A caminhada pela BR-040 se apoia em um argumento sensível: o das condições carcerárias e do respeito a direitos básicos. Entidades de defesa de direitos humanos já denunciam, há pelo menos uma década, superlotação, falta de assistência médica e problemas de higiene em presídios federais e estaduais. Com os presos de 8 de Janeiro, o tema ganha um recorte político explícito. Advogados ligados aos detidos falam em celas com mais de 10 pessoas, banho de sol reduzido e restrições rígidas a visitas, em especial nos primeiros meses após as prisões.
O protesto tenta usar esse histórico como motor de mobilização. Em faixas e discursos, apoiadores comparam o tratamento dos presos dos atos de 8 de Janeiro ao de outros réus da Lava Jato e de casos de corrupção anteriores. Afirmam que há “dois pesos e duas medidas” e insistem em revisão de condenações, muitas delas superiores a 10 anos de prisão. Integrantes da cúpula do Judiciário rejeitam a ideia de perseguição e sustentam que as penas seguem a legislação penal e decisões colegiadas. Ministros do STF repetem, em declarações recentes, que “não se trata de presos políticos, mas de condenados por crimes graves contra o Estado democrático”.
A presença de dois políticos com forte base digital aumenta o alcance do ato. Nikolas, um dos parlamentares mais votados do país em 2022, transmite trechos da caminhada ao vivo em suas redes. Carlos, que costuma atuar como articulador da comunicação do pai, amplifica as imagens para sua audiência. Em poucas horas, vídeos da marcha acumulam centenas de milhares de visualizações. A estratégia é clara: transformar uma manifestação regional, concentrada em um trecho de rodovia, em tema nacional e combustível para as eleições municipais de 2026 e para a reorganização da direita após a derrota presidencial de 2022.
A discussão alcança também o Congresso. Desde 2023, ao menos meia dúzia de requerimentos pedindo visitas a presos, audiências públicas e criação de comissões externas circulam na Câmara e no Senado. A caminhada de janeiro adiciona pressão para que esses pedidos saiam do papel. Assessores de parlamentares envolvidos no ato falam em novos requerimentos de informação ao Ministério da Justiça e ao Conselho Nacional de Justiça ainda no primeiro semestre de 2026. O objetivo é obter dados oficiais sobre número de presos, regimes de cumprimento de pena e eventuais denúncias formais de maus-tratos.
Pressão sobre Judiciário e horizonte de novos atos
A marcha na BR-040 não altera de imediato nenhuma sentença, mas cria um novo ambiente de pressão sobre o sistema de Justiça e sobre o governo federal. Grupos de direita falam em organizar, ao longo de 2026, pelo menos três grandes mobilizações em capitais, com foco na pauta carcerária e na revisão de processos ligados ao 8 de Janeiro. O cálculo político é explícito: usar o tema para manter a base mobilizada até as convenções partidárias e para ampliar o desgaste de ministros do STF que conduziram os julgamentos.
Aliados do governo temem que a narrativa da “anistia velada” ganhe corpo em setores mais moderados do eleitorado, especialmente se surgirem relatos consistentes de abusos ou irregularidades. Especialistas em direito penal alertam para o risco de politização extrema das decisões judiciais, seja pela pressão de movimentos alinhados ao bolsonarismo, seja pela reação de endurecimento de tribunais preocupados em não ceder à rua. O equilíbrio entre punição exemplar e respeito a garantias fundamentais volta ao centro da arena pública, quase 38 anos depois da Constituição de 1988 consagrar o Estado democrático de direito.
No curto prazo, a expectativa é de que a Procuradoria-Geral da República e o STF mantenham o ritmo de análise dos processos remanescentes, com novos julgamentos ao longo de 2026. Na esfera política, lideranças governistas cogitam responder com projetos de lei mais amplos sobre política penitenciária, tentando deslocar o foco do debate do caso 8 de Janeiro para a crise crônica das prisões brasileiras, que hoje abrigam mais de 830 mil pessoas. O gesto poderia reduzir a força simbólica dos atos centrados nos apoiadores de Jair Bolsonaro encarcerados.
Os organizadores da caminhada falam em transformar o ato em tradição anual, sempre no início de janeiro, em referência à data dos ataques em Brasília. A presença conjunta de Carlos Bolsonaro e Nikolas Ferreira, no entanto, já produz um efeito imediato: sinaliza ao campo bolsonarista que há um esforço de unificação de discursos e agendas, mesmo após disputas internas por protagonismo. Resta saber se a pressão da estrada conseguirá atravessar os muros dos tribunais e das penitenciárias, ou se ficará restrita ao campo simbólico e eleitoral que hoje molda boa parte da política brasileira.
