Técnico é investigado por injeções letais em UTI no DF
A Polícia Civil do Distrito Federal investiga o técnico de enfermagem Marcos Vinícius por aplicar doses letais e medicamentos errados em pacientes da UTI do Hospital Anchieta, em Brasília. Os casos, alguns registrados em 2025, incluem o uso de desinfetante na veia de ao menos uma vítima. Duas colegas de equipe também são investigadas por possível participação e negligência.
Confissão após imagens e rotina de suspeitas
O caso vem à tona depois que o hospital identifica irregularidades em três óbitos na unidade de terapia intensiva e abre uma apuração interna. O movimento, segundo nota da instituição, leva à demissão de três técnicos de enfermagem e ao acionamento formal da polícia. A investigação aponta que as condutas suspeitas ocorrem, pelo menos, nos últimos cinco anos, com registros recentes entre 17 de novembro e 1º de dezembro do ano passado.
Marcos Vinícius, de 24 anos, atua como técnico de enfermagem nesse período e nega, inicialmente, qualquer participação nas mortes, de acordo com apuração da CNN Brasil. Quando é confrontado com imagens do circuito interno de TV, muda a versão e admite parte dos atos. Diz à polícia que queria “abreviar o sofrimento dos pacientes” e atribui o comportamento ao nervosismo e ao estresse dos plantões, marcados por tumulto e sobrecarga na UTI.
O inquérito em curso mostra um padrão de atuação que inclui a aplicação de medicamentos sem autorização médica, o uso indevido da senha de um médico para acessar o sistema de prescrição e a retirada das substâncias diretamente na farmácia. As doses são administradas sem consulta à equipe responsável pelos pacientes. Em um dos episódios, quando a primeira tentativa de provocar a morte não funciona, o técnico decide injetar desinfetante na veia de uma vítima, em flagrante violação de qualquer protocolo assistencial.
As investigações também descrevem uma estratégia de encobrimento. Após aplicar os produtos, o técnico realiza massagens cardíacas e simula manobras de reanimação, diante de colegas e registros da UTI. O procedimento, que deveria servir para tentar salvar uma vida, vira, segundo a polícia, parte do roteiro para mascarar a origem das paradas cardíacas.
Responsabilidade compartilhada e falhas de controle
Marcos não é o único alvo do inquérito. As técnicas de enfermagem Marcela Camilly Alves da Silva e Amanda Rodrigues de Sousa também são investigadas por negligência e possível coautoria. Marcela é nova no hospital e recebe orientações diretas de Marcos sobre a rotina da UTI. Em depoimento, ela afirma a um dos delegados que “não sabia” o que o colega aplicava nos pacientes e diz estar arrependida de não ter avisado a equipe ao notar algo estranho.
Amanda trabalha em outro setor, mas mantém relação de amizade antiga com o técnico. À polícia, nega participação no esquema e relata acreditar que Marcos utilizava “medicamentos normais”. As versões das duas são confrontadas com registros do sistema, escala de plantões e imagens internas, que ainda passam por cruzamento detalhado pelos investigadores.
O hospital informa que as suspeitas surgem quando médicos e enfermeiros percebem uma sequência atípica de agravamento rápido em pacientes que não apresentavam piora compatível com a evolução clínica. A checagem de prontuários, prescrições e movimentação na farmácia interna revela divergências entre o que está anotado nas fichas e o que entra no corpo das vítimas. A partir daí, a direção decide instaurar um processo interno e, após as conclusões, comunica o caso à Polícia Civil.
Em nota, o Hospital Anchieta afirma que “os três técnicos de enfermagem foram demitidos após a apuração, e as famílias das vítimas foram notificadas, sendo fornecidas as explicações necessárias de forma transparente e cuidadosa”. A unidade não informa quantos pacientes podem ter sido atingidos ao longo dos cinco anos de atuação do grupo, mas admite que, no mínimo, três mortes recentes motivam o inquérito aberto.
Delegados envolvidos no caso dizem que, até agora, não há um padrão claro entre as vítimas em relação a idade, diagnóstico principal ou tempo de internação. Essa ausência de semelhança aumenta a perplexidade de familiares e profissionais, porque derruba a hipótese de um alvo específico ou de critérios minimamente definidos, como estágio terminal de doença.
Impacto sobre a confiança e riscos sistêmicos
O episódio atinge o coração da relação entre pacientes e profissionais de saúde: a confiança. Famílias de doentes internados na UTI questionam não só a conduta individual de Marcos e das colegas, mas também os mecanismos de controle do hospital. Como um técnico consegue acessar a senha de um médico, prescrever um medicamento incorreto, retirá-lo da farmácia e aplicá-lo em ao menos três pacientes sem que o sistema dispare alertas?
Especialistas em ética médica ouvidos pela reportagem afirmam que o caso expõe brechas de segurança que não são exclusivas de um único hospital. Em muitos serviços, a rotina corrida, a sobrecarga de equipes e a cultura de confiança informal favorecem o compartilhamento de senhas e atalhos perigosos. A prática abre espaço para desvios graves, que vão de erros evitáveis a crimes deliberados.
O histórico de episódios semelhantes no Brasil é raro e, justamente por isso, causa tanta comoção. Situações em que profissionais assumem o papel de decidir quem vive ou morre, à revelia da família, da equipe e da lei, remetem a debates antigos sobre eutanásia, cuidados paliativos e limite da intervenção médica. No caso do Hospital Anchieta, não há, até o momento, qualquer indicação de consentimento das famílias ou de discussão estruturada sobre fim de vida. As ações são tratadas pela polícia como potenciais homicídios.
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal acompanha as apurações e avalia medidas adicionais de fiscalização sobre UTIs privadas e conveniadas. Entre as possibilidades em estudo estão auditorias mais frequentes em prontuários, rastreio eletrônico de cada dose aplicada e regras rígidas para acesso a sistemas de prescrição, com autenticação em duas etapas e proibição formal do compartilhamento de logins.
Próximos passos da investigação e lições em aberto
A Polícia Civil colhe depoimentos de médicos, enfermeiros, farmacêuticos e outros técnicos que atuaram nos mesmos plantões de Marcos, Marcela e Amanda. Perícias toxicológicas em amostras de sangue e medicamentos apreendidos devem ajudar a comprovar quais substâncias foram usadas e em que quantidades. O inquérito também busca detalhar desde quando a prática ocorre e quantos pacientes podem ter sido vítimas, direta ou indiretamente, das aplicações suspeitas.
Os investigadores trabalham com a hipótese de responsabilização penal por homicídio, tentativa de homicídio e falsidade ideológica, além de crimes conexos, como uso indevido de sistemas. Na esfera civil, o hospital e os profissionais podem enfrentar ações de indenização por danos morais e materiais movidas pelas famílias. A CNN Brasil tenta localizar as defesas dos suspeitos, que ainda não se manifestam publicamente.
O Hospital Anchieta promete reforçar protocolos internos, rever o acesso a senhas médicas e ampliar a checagem de prescrições e óbitos em áreas críticas. Outras instituições de saúde acompanham com atenção o caso, que se torna exemplo extremo dos riscos quando falham as barreiras de segurança e supervisão. Enquanto laudos e perícias não ficam prontos, a principal pergunta permanece sem resposta: quantas mortes poderiam ter sido evitadas se os sinais tivessem sido percebidos antes?
