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Meligeni vê falta de ritmo e pressão em derrota de João Fonseca

João Fonseca, 19, se despede do Australian Open logo na estreia, na madrugada desta terça-feira (20), em Melbourne. O carioca perde por 3 sets a 1 para o americano Eliot Spizzirri e vira alvo de uma análise dura e otimista de Fernando Meligeni.

Derrota na estreia expõe falta de ritmo e peso da expectativa

Spizzirri se impõe na Rod Laver Arena e vence por 6/4, 2/6, 6/1 e 6/2. O placar traduz a oscilação do brasileiro, que alterna um segundo set agressivo com quedas físicas e táticas no restante da partida. A primeira participação de Fonseca na chave principal em Melbourne termina antes do amanhecer no Brasil, mas acende um debate que vai além do resultado.

Fernando Meligeni acompanha o jogo à distância e transforma a madrugada em aula pública de tênis e de frustração. Em uma longa publicação nas redes sociais, o ex-top 30 e hoje comentarista identifica um ponto central: falta de ritmo competitivo e dificuldade de decidir sob pressão. “A expectativa sobre ele sempre será grande. Ao se colocar apto para jogar, poucos vão querer ou entender que faltou ritmo e que é normal perder um jogo assim”, escreve.

O discurso mira menos Fonseca e mais o ambiente em torno dele. “Aqui no Brasil não estamos acostumados a perder… ops, na verdade, já nos acostumamos tanto e estamos tão machucados que não aceitamos a derrota de ninguém. Rapidamente desmerecemos ou atacamos”, afirma. A frase circula entre torcedores, técnicos e ex-jogadores ainda durante a madrugada, enquanto o jovem sai em silêncio dos corredores do Melbourne Park.

Tática, maturidade e o paralelo com Alcaraz

Meligeni descreve uma virada de chave que, para ele, ainda não acontece em tempo real para o brasileiro. “Assim que o jogador acorda, tudo fica um pouco mais claro. A análise é mais acertada, mas vem junto a ressaca do ‘o que poderíamos ter feito melhor’”, escreve. Na visão do ex-tenista, Fonseca entra em um labirinto estratégico no terceiro e no quarto sets.

“Claramente as pernas acabaram, e o João se sentiu entre meter a mão o mais forte possível para acabar com o ponto ou ficar na condição de ser atacado. Essa segunda forma ele odeia”, analisa. A escolha, quase sempre, recai sobre a pancada rápida, mesmo quando o cenário pede variação. O jogo fica previsível, o americano lê o padrão e passa a comandar os ralis.

O contraste com o segundo set incomoda o comentarista. Naquele trecho, vencido por 6/2, Fonseca muda o ritmo. “No segundo set, o João variou mais o saque, usou o slice, mudou velocidades e soube ‘fugir’ da pressão sobre a esquerda sem se desesperar, apenas batendo o mais forte possível”, aponta Meligeni. A descrição não é só elogio, é roteiro de trabalho para a temporada que começa.

O ex-tenista puxa então um paralelo com Carlos Alcaraz, atual número 1 do mundo. Não fala de potência ou carisma, mas de maturidade. “Ontem comentei no New Balls sobre a maturidade tenística do Alcaraz, o quanto ele vem evoluindo taticamente sem perder sua agressividade e variação. Evoluir não tem a ver com deixar de fazer, e sim com fazer na hora certa, de uma forma mais produtiva”, diz.

O recado se dirige a um jogador que, em 2025, se torna o brasileiro mais jovem a conquistar um título de nível ATP, em Buenos Aires. O talento já está em vitórias e números. O que falta, na avaliação de Meligeni, é transformar repertório em escolha consciente sob tensão, sobretudo em melhor de cinco sets e em um Grand Slam, onde o corpo cobra mais caro cada decisão errada.

Pressão, torcida e o papel da derrota no projeto Fonseca

A estreia e queda em Melbourne expõem um dilema conhecido do esporte brasileiro. Um garoto de 19 anos vira símbolo de renovação em um país que ainda associa tênis a ídolos esporádicos, como Gustavo Kuerten, e a raras campanhas em torneios grandes. O circuito profissional, porém, cobra constância, adaptação a pisos e fusos horários, além de gestão emocional diante de quadras cheias e jogos longos.

Meligeni descreve esse abismo entre a pressa da arquibancada e o tempo do desenvolvimento. Ao falar que “não aceitamos a derrota de ninguém”, ele atinge diretamente a reação ácida de parte da torcida nas redes sociais. O julgamento imediato ignora contexto: Fonseca chega ao Australian Open após uma pré-temporada encurtada por questões físicas e entra em quadra carregando o rótulo de sucessor antes mesmo de consolidar ranking e experiência.

A derrota para Spizzirri, número ainda distante da elite, alimenta dúvidas sobre o ritmo do brasileiro, mas também reforça o debate sobre investimento no esporte de base e na transição para o profissional. Um jovem que disputa Grand Slam aos 19 anos não é um fracasso precoce. É o topo de uma pirâmide estreita, que depende de calendário planejado, equipe técnica estável e suporte psicológico real, não apenas discursos motivacionais.

Nesse ponto, a análise de Meligeni funciona como escudo e cobrança. “As cartas estão na mesa. Ele vai ter um ano incrível, e essas derrotas servem demais. Ficamos tristes porque é sempre um prazer e um orgulho vê-lo jogar. Segue firme, João”, escreve o comentarista. O tom mistura frustração com aposta de longo prazo, algo raro em um ambiente acostumado a celebrar resultados imediatos.

Buenos Aires no horizonte e um ano de prova

Fonseca não tem muito tempo para digerir a queda em Melbourne. A partir de 9 de fevereiro, ele volta às quadras no ATP 250 de Buenos Aires, na Argentina, onde defende o título conquistado em 2025. O torneio representa chance concreta de recuperar confiança, somar pontos no ranking e provar que a estreia conturbada no Australian Open é tropeço de início de temporada, não tendência.

A defesa de um troféu tão cedo na carreira também testa a relação do brasileiro com a memória recente dos próprios feitos. Em 2025, o título em Buenos Aires o coloca na vitrine internacional como promessa real do circuito. Em 2026, ele retorna ao mesmo cenário com um peso a mais nas costas, mas também com um diagnóstico claro do que precisa ajustar. Variação de saque, uso do slice, gestão de intensidade e maturidade tática deixam de ser conceitos abstratos e viram metas mensuráveis.

O tênis não oferece atalhos. Um Grand Slam exige quatro semanas de concentração máxima, do qualifying à decisão, e 21 vitórias para quem sai do zero até o título. Fonseca está no início desse caminho e acumula agora uma derrota que fere o orgulho, mas amplia o mapa. Resta saber se o entorno, do público à imprensa, terá a mesma paciência que Fernando Meligeni prega quando escreve que “essas derrotas servem demais”.

O próximo capítulo começa em menos de um mês, em Buenos Aires. A resposta de João Fonseca à madrugada amarga em Melbourne dirá se o país está diante de um talento que aprende rápido com as cicatrizes ou de mais um prodígio engolido pela expectativa.

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