Trump implode ordem global em primeiro ano do segundo mandato
Donald Trump completa nesta terça-feira, 20, um ano do segundo mandato à frente da Casa Branca e tensiona a ordem internacional como nenhum presidente recente. Tarifas em série, ações militares controversas e ameaças de anexação redesenham alianças, abrem frentes de conflito e isolam os Estados Unidos em 2025.
Da promessa de pacificador ao confronto em múltiplas frentes
Trump volta ao poder em janeiro de 2025 prometendo encerrar a guerra na Ucrânia em 24 horas e se apresentar como “pacificador e unificador”. O discurso inaugural também anuncia “enormes quantidades de dinheiro provenientes de fontes estrangeiras” para recolocar o sonho americano nos trilhos, sinal claro de que a política externa seria usada como extensão da agenda econômica interna.
O que se vê nos 365 dias seguintes é o oposto de qualquer ambiente de distensão. Ainda no dia 20 de janeiro, uma ordem executiva rebatiza o Golfo do México como Golfo da América e escancara o projeto de tratar a América Latina, e até o Canadá, como quintal estratégico. Na fronteira norte, Trump chama o Canadá de “51º Estado” e se refere a Justin Trudeau, então premiê, como “governador”, condicionando o fim de tarifas à aceitação de uma anexação simbólica.
No sul, a fronteira com o México vira vitrine do endurecimento migratório. Tropas reforçam o controle, programas de imigração são extintos, e cartéis de drogas passam a ser rotulados como organizações terroristas internacionais. A ameaça de intervenção militar em território mexicano, sob o pretexto de conter o tráfico, rompe décadas de ambiguidade calculada na relação entre os dois vizinhos.
A guinada expansionista ganha outro símbolo no Caribe. Em Caracas, em 3 de janeiro de 2025, uma ação militar leva à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores. Trump se apresenta como “presidente interino” da Venezuela, ignora a vice Delcy Rodríguez e coloca sob controle americano as reservas de petróleo do país, sem sofrer sanções efetivas.
No Oriente Médio, o republicano autoriza ataques aéreos israelenses que colocam fim, em março, a um cessar-fogo frágil firmado poucos meses antes entre Israel e Hamas. Em seguida, chega a anunciar que os Estados Unidos “tomariam posse” da Faixa de Gaza e defende um plano para transformar o território em uma “Riviera do Oriente Médio”, com realocação em massa de palestinos, proposta condenada como limpeza étnica por governos e organismos multilaterais.
Tarifas globais, sanções ao Brasil e guerra comercial com a China
A economia mundial sente o impacto mais direto da ofensiva americana. Em abril de 2025, Washington impõe tarifas a todos os parceiros comerciais: 10% para países da América Latina, 20% para europeus e 30% para a Ásia. Em setembro, o Brasil se torna alvo preferencial, com sobretaxa de 50% sobre exportações, em reação ao julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado no Supremo Tribunal Federal.
Trump chama a ação no STF de “caça às bruxas” e tenta enquadrar o caso na narrativa de perseguição a aliados ideológicos. As sanções, porém, têm efeito contrário no tabuleiro diplomático. O Itamaraty se aproxima de Pequim e dos demais membros do BRICS, enquanto um raro movimento do Senado americano busca derrubar as tarifas contra o Brasil. O clima esfria parcialmente depois de um encontro protocolar entre Trump e Lula na 80ª Assembleia-Geral da ONU, em setembro, quando o republicano fala em “boa química” com o brasileiro.
Com a China, o atrito deixa de ser apenas retórico e se transforma em guerra comercial aberta. Depois de Pequim reagir às tarifas americanas com uma alíquota de 34% sobre bens dos EUA, Trump eleva a pressão em nome do combate à epidemia de fentanil. As punições cruzadas fazem as tarifas americanas contra produtos chineses saltarem para 145%, enquanto as chinesas atingem 125% contra itens dos EUA.
A disputa não fica restrita a números. A China suspende a exportação de metais raros, cruciais para a produção de microchips, carros elétricos e equipamentos militares. Washington responde restringindo vistos de estudantes chineses em áreas sensíveis, especialmente ligados ao Partido Comunista. Taiwan vira foco adicional de tensão, acusado por Pequim de servir de plataforma para a influência americana e, ao mesmo tempo, criticado por Washington pela dependência da indústria de semicondutores.
Na África, Trump escolhe a África do Sul como alvo político. Sob o argumento de combater um suposto “genocídio” da minoria branca, o governo americano corta todo apoio ao desenvolvimento do país. Em uma reunião no Salão Oval, em maio de 2025, o presidente mostra fotos de corpos e afirma que seriam fazendeiros brancos mortos por negros sul-africanos. As imagens, na verdade, retratam trabalhadores humanitários removendo vítimas na República Democrática do Congo, o que amplia o desgaste com Pretória.
Ucrânia, Irã e Groenlândia expõem limites da estratégia
Na guerra da Ucrânia, Trump rompe com a linha adotada por Joe Biden, que apostou em apoio militar e financeiro robusto a Kiev. O novo governo tenta redesenhar o jogo e se coloca como mediador entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin, suspendendo por um mês, entre fevereiro e março de 2025, parte da ajuda americana após a Ucrânia aceitar um cessar-fogo temporário. Ataques russos a Kiev enterram o acordo e expõem a falta de controle de Washington sobre o conflito.
Uma reunião em fevereiro, que deveria selar um pacto para exploração de terras raras em território ucraniano, termina em bate-boca, com Trump acusando Zelensky de “ingratidão”. Em agosto, o encontro com Putin no Alasca repete o roteiro de fotos, ameaças de sanções e nenhum resultado concreto. A promessa de encerrar a guerra em 24 horas se torna símbolo da distância entre o discurso de campanha e a realidade do campo de batalha.
Com o Irã, os Estados Unidos voltam a flertar com confronto direto. Sob a alegação de que Teerã mantém um programa nuclear voltado para armas, Trump tenta negociar um acordo de desmonte. Sem avanço, ordena um ataque aéreo contra instalações militares iranianas em junho de 2025 e ameaça novas ofensivas se a produção de urânio enriquecido continuar. A repressão aos protestos internos, que deixa milhares de mortos entre 2025 e 2026, vira novo pretexto para advertências públicas de intervenção.
No Atlântico Norte, a crise mais simbólica envolve um velho desejo do republicano: a Groenlândia. A partir do final de 2025, auxiliares como Stephen Miller defendem abertamente nas redes que os EUA têm o direito de “tomar” o território autônomo da Dinamarca. Katie Miller posta uma montagem da ilha coberta pela bandeira americana com a legenda “Em breve”, dando o tom da ofensiva.
Em 6 de janeiro de 2026, a Casa Branca afirma que pode usar a força para controlar a Groenlândia, o que provoca reação imediata da União Europeia e de Copenhague. “De um jeito ou de outro, nós teremos a Groenlândia”, reforça Trump em 12 de janeiro. O primeiro-ministro local, Jens-Frederik Nielsen, rejeita qualquer negociação e afirma que o território não está à venda. A resposta do governo americano vem em forma de tarifas de 10% contra oito países europeus, ampliando o desgaste dentro da própria Otan.
Ordem internacional em xeque e um legado em disputa
O saldo do primeiro ano de Trump 2 é uma combinação de isolamento diplomático, realinhamento de forças e avanço de agendas paralelas aos Estados Unidos. A implosão prática do multilateralismo, construído desde o pós-Segunda Guerra, abre espaço para arranjos regionais na Ásia, na África e no eixo BRICS, que buscam reduzir a dependência de Washington em comércio, defesa e tecnologia.
O Brasil, empurrado pelas tarifas recordes, acelera negociações com a China e outros emergentes. A União Europeia reage às ameaças sobre a Groenlândia com articulações para fortalecer sua defesa própria. No Oriente Médio, o cessar-fogo em Gaza, firmado em outubro com base em um plano de 20 etapas apresentado por Trump, segue frágil sob bombardeios recentes e denúncias de violações de direitos humanos.
Nos bastidores de Washington, diplomatas e militares tentam conter danos enquanto o presidente envia novas cartas provocativas a líderes europeus, como o premiê norueguês Jonas Gahr Støre, e volta a reclamar por não ter sido contemplado com o Nobel da Paz. A capacidade americana de mediar conflitos fica em xeque, em um cenário em que rivais e aliados calculam quanto tempo podem esperar por uma correção de rota.
Trump insiste em definir seu “maior legado” como o de pacificador. Os próximos meses dirão se essa ambição sobrevive ao avanço das tarifas, à escalada militar e à crescente disposição de outros países em buscar caminhos fora da órbita de Washington.
