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Israel derruba sede da UNRWA em Jerusalém Oriental e afronta ONU

Forças israelenses derrubam nesta terça-feira (20) a sede da agência da ONU para refugiados palestinos (UNRWA) em Jerusalém Oriental, em operação inédita na cidade ocupada. A ação, acompanhada pelo ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, reacende o embate de Israel com a ONU e cria novo foco de tensão diplomática.

Demolição simbólica em território disputado

Tratores e equipamentos pesados avançam pelo complexo fechado da UNRWA nas primeiras horas do dia, sob o olhar de parlamentares israelenses e de Ben-Gvir, um dos principais nomes da ala ultranacionalista do governo. Pouco depois, a bandeira azul da ONU cede lugar ao estandarte branco e azul de Israel, hasteado no que as Nações Unidas consideram território palestino ocupado.

A demolição ocorre em Jerusalém Oriental, área anexada por Israel em 1967 e reivindicada pelos palestinos como capital de um futuro Estado. O movimento transforma um impasse jurídico e político em imagem concreta, pensada para circular em redes sociais e telejornais: tratores derrubando prédios de uma agência da ONU sob aplausos de autoridades governistas.

O vice-prefeito de Jerusalém, Aryeh King, ajuda a moldar o tom da escalada ao chamar a UNRWA de “nazista” em publicação na plataforma X. O termo, carregado de peso histórico no país, sinaliza a disposição de parte do establishment político em deslegitimar por completo a atuação da agência responsável por serviços básicos a cerca de 6 milhões de refugiados palestinos em Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria e Jordânia.

O governo israelense sustenta que a UNRWA abriga militantes do Hamas em suas instalações e alimenta, desde 1949, o que chama de “indústria de refugiados”, ao manter viva a reivindicação palestina pelo direito de retorno às terras de onde foram expulsos na criação do Estado de Israel. A direção da agência nega as acusações e afirma colaborar com investigações internas e externas sempre que surgem denúncias específicas.

Confronto aberto com a ONU e risco humanitário

A demolição é o primeiro grande teste da Lei de Cessação das Operações da UNRWA, aprovada por Israel no fim de dezembro de 2025 para impedir o funcionamento da agência em seu território e em áreas sob controle efetivo israelense. Na prática, a legislação busca esvaziar a presença institucional da ONU em Jerusalém Oriental e redesenhar o mapa de quem pode atuar em zonas sensíveis do conflito.

A ONU reage de forma incomummente dura. Em comunicado, o secretário-geral lembra que “a Convenção continua aplicável à UNRWA, seus bens e ativos, e a seus funcionários e demais colaboradores. Os bens utilizados pela UNRWA são invioláveis”. O texto afirma que a nova lei “é incompatível com o status e o arcabouço jurídico internacional aplicáveis à UNRWA e deve ser revogada imediatamente”.

O secretário-geral cita ainda parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, de 22 de outubro de 2025, segundo o qual Israel tem obrigação de garantir o pleno respeito aos privilégios e imunidades concedidos às Nações Unidas no Território Palestino Ocupado. A Corte ressalta que Israel não tem jurisdição sobre Jerusalém Oriental, o que torna a intervenção na sede da agência ainda mais sensível sob a ótica do direito internacional.

Do lado da UNRWA, o tom também é de alarme. O comissário-geral Philippe Lazzarini descreve a operação como “um novo nível de desafio aberto e deliberado ao direito internacional, incluindo os privilégios e imunidades das Nações Unidas, por parte do Estado de Israel”. Ele relata que “tratores entraram no complexo e começaram a demolir edifícios em seu interior sob o olhar atento de parlamentares e de um membro do governo”.

Na avaliação de Lazzarini, “isso constitui um ataque sem precedentes contra uma agência das Nações Unidas e suas instalações”. O chefe da UNRWA afirma que o fornecimento de água e energia para outras estruturas da agência, incluindo centros de saúde e escolas, está programado para ser cortado nas próximas semanas. A medida ameaça uma rede de serviços que, só em Gaza, atende centenas de milhares de pessoas em meio a um cenário de mortes, deslocamento forçado, destruição e fome.

O comissário vê um movimento mais amplo para “apagar a identidade dos refugiados palestinos” e alerta para o efeito multiplicador do precedente: “O que acontece hoje com a UNRWA acontecerá amanhã com qualquer outra organização internacional ou missão diplomática, seja no Território Palestino Ocupado ou em qualquer lugar do mundo”.

Brasil sob os holofotes e próximos movimentos

O episódio atinge em cheio o Brasil, que desde 1º de julho de 2025 preside pela primeira vez a Comissão Consultiva da UNRWA, órgão que aconselha o comissário-geral na execução do mandato da agência. Em setembro passado, o chanceler Mauro Vieira copresidiu em Nova York uma reunião ao lado dos ministros das Relações Exteriores da Jordânia e da Espanha para reforçar o apoio político e financeiro à entidade.

Na ocasião, Vieira expressou “forte apoio do Brasil às atividades da UNRWA” e “condenou iniciativas que visam a inviabilizar a continuidade de suas operações no Território Palestino Ocupado”. O Itamaraty defendeu a renovação do mandato da agência pela Assembleia-Geral da ONU e reiterou o compromisso histórico com a solução de dois Estados, com fronteiras baseadas nas linhas de 1967 e Jerusalém Oriental como capital palestina.

Com a demolição da sede em Jerusalém Oriental, o governo brasileiro passa a ser cobrado não apenas por discursos em fóruns multilaterais, mas também por iniciativas concretas em defesa da agência que hoje preside em nível consultivo. O tema tende a entrar na agenda do Conselho de Segurança e da própria Assembleia-Geral, abrindo espaço para resoluções de condenação, iniciativas de monitoramento ou tentativas de sanções políticas a Israel.

Diplomatas em Genebra e Nova York já projetam um ciclo de debates que pode se estender pelos próximos meses, com efeitos sobre o financiamento da UNRWA e sobre o futuro de outras missões da ONU em áreas de conflito. Países historicamente próximos de Israel, como Estados Unidos e membros da União Europeia, terão de arbitrar entre o apoio ao aliado e a defesa das regras que garantem a atuação de organismos internacionais.

Na prática, quem sente o impacto imediato são os refugiados palestinos que dependem de escolas, clínicas e programas de assistência administrados pela agência. O desmonte físico e jurídico da UNRWA em Jerusalém Oriental amplia a percepção, entre palestinos, de que a comunidade internacional é incapaz de proteger nem mesmo suas próprias estruturas em território ocupado.

A demolição desta terça-feira transforma um embate jurídico em fato consumado e coloca à prova a disposição dos Estados-membros da ONU de reagir. Nas próximas semanas, o mundo verá se o episódio ficará registrado apenas como mais uma imagem forte do conflito ou se marcará o início de uma revisão mais profunda do papel da ONU, de Israel e da própria ideia de direito internacional no Oriente Médio.

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