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Fachin antecipa volta a Brasília para conter crise do caso Banco Master

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, antecipa o retorno a Brasília na noite de 19 de janeiro de 2026 para tentar conter a crise aberta pelo inquérito do Banco Master. O gesto interrompe o recesso e recoloca a cúpula do Judiciário no centro de uma disputa com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR).

Crise no Supremo e busca por saída institucional

Fachin desembarca em Brasília depois de avisar a colegas de Corte que “o momento exige” sua presença na capital. A decisão encerra de forma precoce o período em que o comando interino do tribunal está nas mãos do vice-presidente, Alexandre de Moraes, e sinaliza uma tentativa de retomar o controle político e simbólico do Supremo em meio ao desgaste causado pela condução do caso Banco Master pelo ministro Dias Toffoli.

O estopim está na maneira como Toffoli assume para o STF todo o conjunto de investigações envolvendo o banco, incluindo processos que tramitam há meses na primeira instância, sem qualquer autoridade com foro privilegiado. Ao impor sigilo amplo e centralizar a guarda do material apreendido, o relator provoca reação em série na PF, na PGR e entre entidades de classe, que veem interferência indevida na rotina das apurações.

A tensão cresce quando Toffoli determina que todas as provas recolhidas em novas fases da operação sigam diretamente para o seu gabinete, em Brasília. A Polícia Federal alerta para o risco de atraso na análise do material e a Procuradoria-Geral emite parecer contrário. O ministro recua e aceita que a PGR mantenha a guarda, mas o desconforto já se espalha pelos bastidores e transborda para o debate público.

No sábado, 17, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) divulga nota classificada internamente como dura. A entidade descreve o cenário como “atípico” e fala em “afronta às prerrogativas” da corporação. No texto, delegados citam, entre outros pontos, a imposição de prazos exíguos para buscas, a realização de acareações fora do padrão e a escolha nominal de peritos pelo ministro relator.

Pressão sobre Toffoli e impacto na imagem do STF

O movimento de Fachin acontece no momento em que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, acumula quatro representações de parlamentares pedindo que ele questione, no próprio STF, a suspeição de Toffoli no caso. Os pedidos miram a relação do ministro com investigados e o alcance de suas decisões no inquérito que mira supostas fraudes e crimes financeiros ligados aos proprietários do Banco Master. Nos últimos 26 anos, porém, a prática da Corte é clara: não há registro de afastamento de ministro por decisão interna, o que torna qualquer avanço nessa frente politicamente explosivo.

A cúpula do Supremo teme que a sequência de atos em torno do inquérito alimente a percepção de falta de transparência e favorecimento de investigados com acesso à Corte. O sigilo quase total, que impede a consulta a decisões nos sistemas públicos, e a concentração de poderes processuais em um único gabinete reforçam críticas sobre personalização da Justiça e fragilizam o discurso de colegialidade. Em reservado, ministros admitem que a imagem do tribunal sai arranhada.

Fachin tenta redesenhar o tabuleiro antes da abertura formal do ano Judiciário, prevista para o início de fevereiro. A estratégia passa por conversas com integrantes da PF, da PGR e da própria Corte, em busca de uma saída institucional que reduza o atrito sem expor ainda mais o Supremo. A avaliação predominante é que a crise não se limita a um conflito pessoal entre ministros, mas toca o coração do sistema de freios e contrapesos entre investigação, acusação e julgamento.

O presidente do STF também precisa administrar a pressão externa. O caso Banco Master coloca novamente o tribunal sob holofotes, em um cenário em que decisões monocráticas, tomadas por um único ministro, já são alvo de críticas recorrentes no Congresso e em setores do meio jurídico. Qualquer passo em falso pode reavivar projetos de emenda constitucional que tentam limitar poderes individuais de integrantes da Corte.

ADPF das Favelas e disputa por narrativa no plenário

O retorno antecipado de Fachin não se restringe à gestão da crise do Banco Master. O ministro também recoloca em pauta a retomada do julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental conhecida como “ADPF das Favelas”, que discute medidas para reduzir a letalidade policial em operações no Rio de Janeiro. A ação, sob sua relatoria, tem impacto direto sobre a forma como as forças de segurança atuam em comunidades onde vivem milhões de pessoas.

A ADPF das Favelas estabelece parâmetros para operações em áreas densamente povoadas, como obrigação de planejamento prévio, comunicação a órgãos de controle e restrição ao uso de helicópteros como plataforma de tiros. As diretrizes, discutidas desde 2020, afetaram na prática o calendário e o desenho de incursões policiais em regiões dominadas pelo crime organizado. Organizações de direitos humanos apontam queda de mortes em algumas fases de vigência das medidas, enquanto governos estaduais reclamam de engessamento das ações.

Ao retomar o caso em meio à turbulência do Banco Master, Fachin tenta reforçar uma narrativa de compromisso do Supremo com a proteção de vidas e com o controle de abusos de poder, inclusive do próprio Estado. A movimentação também redesenha o equilíbrio de forças no plenário, ao recolocar o presidente como protagonista em um tema de alta sensibilidade social, enquanto Toffoli permanece sob escrutínio por sua atuação em um inquérito de natureza financeira e política.

A agenda do presidente do STF nesta terça-feira, 20, inclui São Luís, no Maranhão, onde ele se encontra com o ministro da Corte, Flávio Dino. Fachin decide viajar à capital maranhense após ser informado de que o filho de Dino passará por cirurgia, e prioriza uma conversa presencial. O gesto acrescenta um componente humano a uma rodada de articulações que, na prática, busca costurar apoio interno para enfrentar a crise sem ruptura.

O que está em jogo e os próximos passos

O desfecho do impasse em torno do inquérito do Banco Master definirá os limites da atuação individual de ministros em grandes casos criminais e financeiros. Se prevalecer a centralização adotada por Toffoli, o recado para investigadores e procuradores será de submissão mais rígida ao crivo do STF em fases sensíveis de operações, com maior risco de questionamentos sobre interferência e perda de agilidade. Se houver revisão de rumo, a Corte terá de explicar por que muda um entendimento que, na prática, já está em vigor.

Na outra ponta, a retomada da ADPF das Favelas recoloca em debate o papel do Supremo na regulação da atividade policial em estados federados. A decisão final pode consolidar parâmetros nacionais para operações em territórios vulneráveis, com impacto direto sobre índices de mortes, orçamento da segurança e estratégia de combate ao crime organizado. Governadores, chefes de polícia, movimentos sociais e moradores de favelas acompanham a votação em busca de sinais sobre até onde o tribunal pretende ir.

Fachin tenta, nas próximas semanas, blindar a instituição e evitar que a disputa em torno de um inquérito específico contamine a agenda mais ampla do Supremo. O equilíbrio entre transparência, autoridade judicial e respeito às atribuições da PF e da PGR ainda não está dado. Até que o tribunal apresente uma resposta clara, a pergunta que ecoa em Brasília é se o Supremo conseguirá sair dessa crise com mais coesão interna ou com novas fissuras à vista.

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