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Técnicos de enfermagem são suspeitos de matar pacientes em hospital do DF

Três técnicos de enfermagem do Distrito Federal são suspeitos de matar, até janeiro de 2026, pacientes internados em um hospital particular de Brasília. A polícia aponta que pelo menos três mortes em UTIs têm indícios de provocação intencional, com aplicação de medicamentos em doses letais e até desinfetante na veia de uma das vítimas. O caso expõe uma ruptura violenta na relação de confiança entre pacientes e profissionais de saúde.

Investigação revela padrão de mortes em UTIs

Os investigadores identificam Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24 anos, Marcela Camilly Alves da Silva, 22, e Amanda Rodrigues de Sousa, 28, como suspeitos de participação nos homicídios. Segundo a polícia, Marcos é apontado como o autor direto das aplicações letais, enquanto Marcela e Amanda respondem por negligência e coautoria em duas das três mortes. Todas as vítimas estavam internadas em leitos de Unidade de Terapia Intensiva, acamadas e sem qualquer possibilidade de defesa.

As mortes ocorrem até o início de 2026, no Hospital Anchieta, unidade privada do Distrito Federal. A apuração indica que Marcos administra medicamentos em doses muito acima do prescrito, com a intenção de provocar parada cardiorrespiratória. Em um dos casos, quando a vítima resiste, ele injeta desinfetante diretamente na veia do paciente, segundo o inquérito. Os investigadores classificam os crimes como homicídios dolosos qualificados, cometidos por meio insidioso, quando a vítima não sabe que está recebendo a substância e não tem como reagir.

A Comissão de Óbitos do hospital percebe um padrão anormal nas mortes em determinados plantões e aciona a direção. A instituição passa a cruzar escalas, horários e prontuários e identifica coincidências entre a presença de Marcos e as paradas súbitas em pacientes que não apresentavam piora clínica compatível. A direção então demite o técnico e comunica a polícia, o que abre o inquérito que hoje sustenta os pedidos de prisão preventiva.

Marcos trabalha como técnico de enfermagem há pelo menos cinco anos, de acordo com os investigadores. Um desses anos transcorre no Anchieta, onde os homicídios são apurados. Ao mesmo tempo, ele cursa fisioterapia e, após a demissão, passa a atuar na UTI neonatal de outro hospital particular do DF. Nas redes sociais, se apresenta como homem casado e frequentador da Congregação Cristã no Brasil, o que contrasta com a gravidade das acusações que agora enfrenta.

A polícia afirma que Amanda atua em outro setor do Anchieta, mas mantém amizade de longa data com Marcos. No Instagram, ela se descreve como mãe, cristã, intensivista e instrumentadora cirúrgica. Já Marcela é recém-chegada ao hospital e recebe instruções do colega sobre a rotina do setor. Em 2022, ela aparece aprovada em uma etapa de seleção de jovem aprendiz do Hospital da Criança de Brasília, trajetória que ajuda a dimensionar a rapidez com que uma carreira em construção vira alvo de uma das investigações mais graves da saúde privada no DF.

Medo entre pacientes e alerta para a saúde privada

O caso ganha grande repercussão social à medida que os detalhes vêm à tona. A suspeita de que profissionais encarregados de salvar vidas tenham deliberadamente causado mortes em um hospital particular acende um alerta entre pacientes e familiares. A sensação de segurança associada a UTIs de alto custo dá lugar a medo, desconfiança e indignação, sobretudo entre famílias com parentes acamados e dependentes de cuidados intensivos.

Autoridades ouvidas pela reportagem reconhecem que as suspeitas atingem em cheio a credibilidade dos mecanismos internos de controle das unidades privadas. O episódio pressiona hospitais a revisar protocolos de administração de medicamentos, rastreamento de doses, registro de acesso a prontuários e cruzamento de dados de óbitos. O ponto central, repetido em conversas reservadas, é como reforçar a vigilância sem paralisar a rotina de um ambiente em que decisões e intervenções precisam ser rápidas.

A tipificação de homicídio doloso qualificado, com pena prevista de 12 a 30 anos de prisão, mostra o peso jurídico dos indícios reunidos. A polícia planeja indiciar Marcos pelos três homicídios. Marcela e Amanda devem responder por coautoria em dois deles, porque, segundo o inquérito, não estão presentes em uma das ocorrências. Investigadores afirmam que os atos são “particularmente cruéis” por atingirem pacientes que dependem por completo do cuidado alheio, em um espaço onde a vulnerabilidade deveria ser compensada pela proteção máxima.

Entidades ligadas à ética na enfermagem acompanham o caso e discutem, internamente, como reforçar a formação dos profissionais em temas como responsabilidade penal, limites de atuação e dever de denunciar condutas suspeitas. Especialistas em direito médico avaliam que o episódio deve estimular novas normas para rastrear, em tempo real, alterações de prescrições, volumes aplicados e responsáveis técnicos em cada etapa, inclusive em hospitais de médio porte, onde a fiscalização costuma ser mais rarefeita.

A repercussão ultrapassa o DF e alcança outros estados, onde associações de pacientes e conselhos regionais de saúde pedem auditorias independentes em óbitos recentes nas UTIs da rede privada. Em grupos de familiares nas redes sociais, o debate se intensifica. Muitos questionam se seus parentes receberam a dose correta de medicamentos ou se algum excesso passou despercebido em meio a rotinas intensas e linguagem técnica pouco acessível aos leigos.

Prisões, inquérito e dúvidas sobre novas vítimas

Marcos, Marcela e Amanda estão presos preventivamente enquanto a Polícia Civil aprofunda a apuração. A linha de investigação agora mira não apenas os três homicídios já identificados, mas também outras mortes registradas durante os plantões em que o grupo atua. Peritos revisam prontuários, laudos e curvas de medicação para identificar eventuais padrões que indiquem novas vítimas ao longo de 2025 e do início de 2026.

Os próximos meses devem ser decisivos para definir o alcance da responsabilidade penal de cada um. O Ministério Público aguarda a conclusão do inquérito para decidir sobre eventual denúncia formal à Justiça. Se o indiciamento for confirmado, o caso deve abrir uma disputa complexa em tribunal, com perícias, depoimentos de colegas de plantão, familiares das vítimas e especialistas em terapia intensiva.

Hospitais privados do DF, mesmo sem ligação direta com o Anchieta, correm para rever suas rotinas internas. Diretores estudam adotar rastreadores eletrônicos em bombas de infusão, duplo check de doses em pacientes críticos e auditorias externas periódicas de óbitos. A discussão alcança também planos de saúde, que avaliam formas de exigir níveis mais altos de transparência e controle das unidades credenciadas, sob pena de descredenciamento.

O caso deixa, por enquanto, mais perguntas do que respostas. Investigadores tentam esclarecer qual seria a motivação de alguém que, com 24 anos, divide o tempo entre a faculdade de fisioterapia, a rotina em UTI e a vida religiosa, e ainda assim é acusado de tirar vidas de pacientes indefesos. Famílias de vítimas aguardam uma explicação que talvez nunca seja plenamente satisfatória. A Justiça agora precisa estabelecer, com base em provas, onde termina a falha humana e onde começa o crime deliberado em um dos ambientes mais sensíveis da saúde brasileira.

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