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Lula critica Trump por governar via Twitter e atacar Venezuela

Lula critica Donald Trump por “tentar governar o mundo pelo Twitter” e atacar a Venezuela, em discurso nesta terça-feira (20), no Rio Grande do Sul. O petista questiona a legitimidade de decisões de política externa anunciadas em rede social e alerta para riscos à democracia na região.

Crítica direta ao estilo Trump de governar

O ex-presidente escolhe um comício em cidade do interior gaúcho para retomar o embate com a política externa dos Estados Unidos. Diante de militantes, prefeitos e deputados estaduais, Lula afirma que nenhum líder eleito “pode brincar de guerra em 280 caracteres” e acusa Trump de transformar o Twitter em “gabinete paralelo” para decisões que afetam milhões de pessoas.

Lula cita especificamente a pressão de Washington sobre Caracas. Lembra que, desde 2017, sanções econômicas, ameaças de intervenção militar e o reconhecimento de lideranças opositoras à margem das instituições venezuelanas partem, muitas vezes, de postagens feitas de madrugada. “Um presidente não pode acordar mal-humorado, tuitar contra outro país e, no dia seguinte, o povo pobre pagar a conta”, dispara.

O discurso se mantém centrado na crítica ao atalho digital como método de governo. Para Lula, o uso permanente de redes sociais por Trump como canal de anúncio de sanções, mudanças de embaixadas e recados militares rebaixa a diplomacia a espetáculo e amplifica crises. “Diplomacia é paciência, é conversa, é construção. Twittar ameaça não é política externa séria”, afirma, arrancando aplausos de um público que lota um ginásio municipal.

O petista resgata episódios em que Trump anuncia via Twitter a intenção de impor “bloqueio total” à Venezuela e cogita “todas as opções” contra o governo de Nicolás Maduro, expressão entendida, em Washington e em Caracas, como referência a uma possível ação militar. Na avaliação de Lula, esse tipo de sinalização pública, dirigida a 80 milhões de seguidores e repercutida em dezenas de países, alimenta instabilidade econômica e política na América do Sul.

Redes sociais, diplomacia e disputa de narrativas

As críticas de Lula se somam a um debate que ganha força há pelo menos oito anos: o poder das redes sociais na política mundial. Desde 2016, a combinação de líderes hiperconectados, algoritmos que premiam o conflito e ciclos de notícias de segundos substitui, em muitas ocasiões, negociações reservadas e canais diplomáticos tradicionais. Trump se torna símbolo desse deslocamento ao usar o Twitter como tribuna prioritária, não apenas como complemento à comunicação oficial.

O ex-presidente brasileiro defende que decisões com impacto global, como sanções econômicas e mudanças de apoio a governos, sejam discutidas em organismos multilaterais, não anunciadas em posts. Lembra que, em 2019, bastam poucas frases do então presidente dos EUA para elevar o risco-país de vizinhos da Venezuela e pressionar moedas na região. “Um tweet pode derrubar a bolsa de um país em minutos. Quem tem esse poder precisa ter responsabilidade e respeito”, afirma.

As declarações reabrem, dentro e fora do Brasil, o debate sobre soberania e intervenção na América Latina. Especialistas ouvidos após o evento apontam que o uso de redes por chefes de Estado não é um problema em si, mas torna-se perigoso quando substitui processos de decisão, consultas a equipes técnicas e diálogo com parlamentos. No caso venezuelano, o acúmulo de mensagens inflamadas de Washington alimenta polarização interna, fortalece alas mais radicais no governo Maduro e na oposição e dificulta saídas negociadas.

Lula também faz um paralelo entre o comportamento digital de Trump e a forma como redes sociais foram usadas em crises políticas recentes no continente. Menciona protestos no Chile em 2019, eleições disputadas na Bolívia e campanhas de desinformação sobre a pandemia, sempre com o mesmo padrão: informações desencontradas circulam em alta velocidade, enquanto decisões de governo são anunciadas em tempo real, sem filtro técnico. “A política precisa tirar o pé do ódio online e voltar a olhar nos olhos das pessoas”, diz.

Impacto regional e próximos movimentos

As falas no Rio Grande do Sul têm efeito imediato na disputa de narrativas entre Brasília e Washington. Aliados de Lula enxergam na crítica a Trump uma tentativa de recolocar o Brasil no centro das discussões sobre democracia na América do Sul e de reforçar a defesa da não intervenção como eixo da política externa. O cálculo político é claro: diferenciar-se de governos que abraçam a diplomacia de redes sociais e acenar a eleitores preocupados com segurança institucional.

A reação nos Estados Unidos tende a vir de dois lados. Grupos próximos a Trump devem usar as mesmas plataformas digitais para rebater o ex-presidente brasileiro, acusando-o de relativizar o autoritarismo de Maduro. Setores ligados ao Partido Democrata e a organismos multilaterais podem ver na fala de Lula um ponto de apoio para pressionar por maior previsibilidade e transparência na comunicação oficial americana, independentemente de quem ocupe a Casa Branca após 2026.

No Brasil, a intervenção de Lula alimenta a polarização interna. Adversários apontam incoerência e lembram episódios de aproximação com o chavismo em seus dois mandatos, entre 2003 e 2010, quando o comércio bilateral com a Venezuela cresce mais de 150% e o governo brasileiro evita críticas públicas a violações de direitos humanos em Caracas. Petistas respondem que a defesa da soberania não significa apoio irrestrito a nenhum governo e que a crítica atual mira a forma de governar por rede social, não apenas o conteúdo das decisões.

Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que, a médio prazo, a discussão sobre o “Twitter como gabinete” tende a transbordar para novas regras internacionais de uso de plataformas digitais por autoridades. Organizações como ONU e OEA já discutem códigos de conduta e mecanismos de responsabilização por discursos que incitam violência ou ameaçam países. A fala de Lula reforça esse movimento e pressiona governos a separar comunicação política de decisões de Estado.

Nos próximos meses, a expectativa é que o tema reapareça em fóruns multilaterais, em especial em debates sobre regulação de redes e combate à desinformação. O discurso no Rio Grande do Sul funciona como ensaio de uma agenda mais ampla, em que o Brasil tenta se colocar como defensor de canais diplomáticos clássicos em um mundo cada vez mais governado por notificações de celular. Resta saber se líderes acostumados ao poder instantâneo de um tweet aceitarão trocar curtidas por negociações longas em mesas fechadas.

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