Duas faculdades de SC tiram nota 1 em exame que avalia formação médica
Duas faculdades de medicina de Santa Catarina recebem a pior nota no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgado nesta segunda-feira (19). Universidade do Contestado, em Mafra, e Faculdade Estácio, em Jaraguá do Sul, tiram conceito 1 e entram na mira do Ministério da Educação.
Resultado expõe fragilidades da formação médica em SC
O boletim do Enamed, exame criado pelo Ministério da Educação para aferir a qualidade da formação médica no país, coloca Santa Catarina em posição desconfortável. Nenhum curso catarinense alcança a nota máxima, conceito 5, e duas instituições aparecem no grupo com pior desempenho. O resultado sai em 19 de janeiro de 2026 e acende o alerta sobre a preparação dos futuros médicos no Estado.
O Enamed avalia os cursos com notas de 1 a 5. Conceito 1 indica desempenho muito abaixo do esperado. A Universidade do Contestado (UNC), em Mafra, e a Faculdade Estácio, em Jaraguá do Sul, integram a lista de 24 cursos em todo o Brasil que recebem a classificação mais baixa. Ao todo, 351 graduações em medicina passam pela prova aplicada pelo Inep em parceria com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).
Os números nacionais ajudam a dimensionar o cenário: 83 cursos ficam com conceito 2; 80 alcançam a nota 3; 114 recebem conceito 4; e 49 atingem a faixa de excelência, conceito 5. Um curso permanece sem avaliação por ter menos de 10 estudantes participantes. O retrato indica um sistema de formação desigual e pressiona faculdades que se expandem em ritmo acelerado nos últimos anos.
Em Santa Catarina, sete cursos conseguem nota 4 e oito ficam com nota 3. A ausência de qualquer instituição com conceito 5 contrasta com o discurso de qualidade frequentemente associado ao ensino superior no Estado. A fotografia do Enamed coloca a formação médica catarinense sob escrutínio público e aproxima o debate da sala de aula, dos hospitais-escola e das políticas de abertura de vagas.
Faculdades contestam, MEC prepara supervisão
O Ministério da Educação já informa que cursos com conceito 1 e 2 entram em processo de supervisão. Na prática, as instituições ficam sujeitas a medidas cautelares que podem incluir suspensão ou redução de vagas para novos alunos e restrições ao acesso ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e a outros programas federais. O impacto atinge não apenas as faculdades, mas também estudantes atuais e candidatos que planejam ingressar na carreira médica pela região.
A Faculdade Estácio de Jaraguá do Sul atribui o resultado a uma divergência de dados entre as informações apresentadas pelo Inep em dezembro de 2025 e aquelas usadas na divulgação nacional. “Essa divergência pode mudar a situação de diversas instituições. Por isso, estamos momentaneamente impossibilitados de passar uma análise, até que tenhamos um esclarecimento sobre o tema”, afirma a instituição em nota.
A Universidade do Contestado adota outro tom. A UNC trata o conceito 1 como um episódio isolado, ligado a um ciclo específico de avaliação, e diz que o desempenho “não retrata a realidade do curso”. A universidade lembra que, na avaliação anterior do Inep, o curso de medicina apresenta resultado dentro da média nacional. “A universidade aguarda o acesso aos resultados detalhados para realizar uma análise técnica aprofundada e apresentar recurso, conforme os procedimentos previstos pelos órgãos reguladores. A UNC reafirma seu compromisso com a qualidade da formação médica, a melhoria contínua dos processos acadêmicos e a responsabilidade com a comunidade atendida”, informa a nota.
O ministro da Educação, Camilo Santana, reforça em Brasília que o Enamed funciona como diagnóstico da formação médica no país e antecipa que as instituições terão prazo para apresentar defesa. Ele vincula o rigor do exame ao impacto direto no atendimento à população. “Há uma grande preocupação nos ministérios da Educação e da Saúde em assegurar que os cursos oferecidos aos alunos brasileiros possam garantir a qualidade da formação médica nesse país, até porque são profissionais que cuidam da vida das pessoas”, afirma.
O exame nasce em 2025 com a proposta de unificar a avaliação dos cursos de medicina. Ele aproxima as matrizes de referência do Enade, que mede o desempenho de estudantes ao fim da graduação, e do Enare, prova que seleciona médicos para residência. A intenção do governo federal é checar, ano a ano, se os estudantes concluem o curso com as competências e habilidades previstas nas Diretrizes Curriculares Nacionais.
Pressão sobre cursos e incerteza para estudantes
A nota 1 traz efeito imediato na imagem das faculdades e pode influenciar decisões de vestibulandos que planejam iniciar o curso ainda em 2026. A eventual suspensão de novas vagas, somada a restrições a financiamentos como o Fies, afeta o planejamento de famílias que contam com crédito público para bancar a mensalidade, muitas vezes superior a alguns milhares de reais por mês.
Para estudantes já matriculados, a supervisão do MEC tende a mexer na rotina acadêmica. Medidas de recuperação costumam envolver revisão de projeto pedagógico, reforço de atividades práticas, contratação de docentes e ajustes em campos de estágio. Essas mudanças exigem investimentos das mantenedoras num cenário de competição intensa entre cursos de medicina pelo país.
O baixo desempenho também pressiona redes públicas de saúde que recebem estagiários e residentes dessas instituições. Prefeituras e hospitais da região dependem da presença de alunos de medicina para manter parte dos atendimentos. Quando um curso entra em xeque, surgem dúvidas sobre a qualidade do cuidado prestado nas unidades básicas, nos hospitais e nas Unidades de Pronto Atendimento que integram a formação prática.
Especialistas em educação superior apontam que o Enamed pode funcionar como freio em novas autorizações de cursos em áreas já saturadas. O avanço desenfreado de vagas, sem estrutura equivalente em hospitais de ensino e preceptores, é um dos focos de crítica de entidades médicas. A radiografia de 2026, com 24 cursos na pior faixa de desempenho e 83 na penúltima, reforça a percepção de que o país amplia o acesso sem garantir, na mesma proporção, a qualidade da formação.
Próximos passos e debate sobre qualidade
Os resultados individuais dos participantes do Enamed saem em 12 de dezembro de 2025 e servem de base para a classificação no Exame Nacional de Residência, o Enare. A nota final do processo de residência está prevista para 21 de janeiro de 2026, o que mantém a pressão sobre estudantes que dependem de um bom desempenho para avançar na carreira. Enquanto isso, MEC e Inep organizam a próxima edição do exame, que passa a ser anual.
Nos bastidores, as instituições com conceito baixo correm para acessar relatórios detalhados, montar equipes de análise e preparar recursos dentro do prazo definido pelo governo federal. O resultado catarinense tende a alimentar debates em audiências públicas, conselhos de saúde e assembleias legislativas sobre a expansão dos cursos de medicina sem contrapartida em estrutura hospitalar, preceptoria e pesquisa.
Santa Catarina entra nesse debate com um retrato incômodo: nenhuma faculdade com conceito máximo, duas na pior faixa e um conjunto intermediário pressionado a mostrar evolução já nos próximos ciclos de avaliação. A resposta que UNC, Estácio e demais instituições oferecem nos próximos meses ajuda a definir não apenas o futuro de centenas de estudantes, mas também a qualidade do atendimento que a população catarinense encontrará em postos, hospitais e UPAs nos próximos anos.
