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Pacheco reavalia saída da política e mira governo de MG com apoio de Lula

Rodrigo Pacheco reconsidera deixar a política e passa a articular uma candidatura ao governo de Minas Gerais em 2026, com apoio direto do presidente Lula. Em movimento que envolve troca de partido e nova aliança nacional, o senador tenta ocupar o espaço de centro em um estado decisivo para a disputa presidencial.

Ruptura com o PSD e aproximação com o Planalto

A guinada de Pacheco ocorre após o PSD mineiro priorizar outro projeto eleitoral. A decisão de Gilberto Kassab de apostar na filiação e na candidatura do vice-governador Mateus Simões, com o apoio do governador Romeu Zema, esvazia o espaço interno do senador. Nos bastidores, aliados tratam a saída do PSD como “natural” e apontam a inviabilidade de convivência com uma legenda que se alinha à direita em Minas.

Um interlocutor próximo ao senador, sob reserva, resume o impasse: “Não há como ele seguir em um partido que optou pelo caminho de apoiar os adversários políticos da direita”. A frase simboliza o rompimento político, mas também a tentativa de Pacheco de se reposicionar como candidato de centro, em sintonia com o projeto de reeleição de Lula.

O presidente entra no jogo com interesse declarado. Lula vê em Pacheco uma peça estratégica para montar um palanque forte em Minas Gerais em 2026, estado que, historicamente, ajuda a decidir eleições presidenciais. Em 2022, o petista venceu no segundo turno em solo mineiro com 6,2 milhões de votos, o equivalente a 50,20% dos válidos, margem apertada, mas suficiente para consolidar a imagem de Minas como fiel da balança.

Negociações partidárias e disputa pelo centro

As conversas de Pacheco se concentram, por enquanto, em três siglas: União Brasil, MDB e PSB. Cada uma oferece vantagens e riscos. No União Brasil, o senador encontra o apoio de um aliado de primeira hora em Minas, o prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião, e a ponte com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, um dos principais articuladores nacionais da legenda. Lula incentiva essa aproximação e enxerga no movimento uma chance de reaproximar parte do partido do governo federal.

O cenário, porém, não está pacificado. Pacheco quer clareza sobre o rumo do União Brasil, hoje federado com o PP. A dúvida central é se a federação vai obrigar diretórios estaduais a apoiar uma candidatura de direita à Presidência, provavelmente a de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, que desponta como nome natural desse campo. “Se isso acontecer, seria um empecilho intransponível para alguém que pretende disputar em Minas com o apoio de Lula”, avalia um aliado.

O MDB surge como alternativa mais flexível. Pacheco recebeu convite direto do presidente nacional da sigla, Baleia Rossi, e mantém o canal aberto. O partido conserva capilaridade municipal, tempo de TV e tradição de se alinhar a projetos de centro, o que agrada ao senador. O PSB também entra na roda de negociações, mas enfrenta resistência. Pacheco não quer ser visto como candidato de esquerda, embora conte com o apoio desse campo. “A ideia é construir uma candidatura de centro, e é claro que a esquerda vai apoiar esse nome”, diz um membro do núcleo político do senador.

As sondagens atuais indicam um tabuleiro dominado pela direita em Minas. O senador Cleitinho, do Republicanos, aparece hoje como favorito nas pesquisas, embora ainda não confirme se será candidato ao governo. Mateus Simões, apadrinhado por Kassab e Zema, tenta se cacifar como nome competitivo. Há ainda a expectativa de outros postulantes do mesmo campo. Diante desse quadro, Pacheco calcula que pode herdar parte expressiva dos votos obtidos por Lula no estado em 2022, caso se firme como a principal alternativa ao bloco conservador.

Impacto em Minas e na disputa presidencial de 2026

A eventual candidatura de Pacheco redesenha o jogo político mineiro. Um nome de centro com apoio explícito do presidente tende a reorganizar alianças e forçar reposicionamentos no PSD, no Novo e em legendas da direita. Em vez de um confronto direto entre Zema e o campo lulista, o estado pode assistir a uma disputa em que o governo federal aposta em um aliado não petista para conter o avanço conservador.

Para Lula, o cálculo é nacional. Minas costuma ser tratada como o “estado que decide eleição” por uma razão aritmética: dificilmente um candidato ao Planalto vence sem ir bem entre os mineiros. Em 2022, a diferença de cerca de 2 pontos percentuais para Jair Bolsonaro no segundo turno ajudou a consolidar a vitória petista. Em 2026, a aposta no nome de Pacheco busca não só repetir o desempenho, mas ampliar a margem e oferecer palanque confiável para o presidente em cidades-chave, de Belo Horizonte ao interior.

O movimento também afeta diretamente o PSD. A saída de Pacheco, ex-presidente do Senado e figura de projeção nacional, enfraquece a narrativa da legenda como espaço privilegiado para candidaturas de centro. Em Minas, o partido se ancora no acordo com Zema e com a direita, mas perde a possibilidade de liderar uma coalizão mais ampla. No curto prazo, a sigla mantém estrutura e alianças locais; no médio prazo, arrisca ficar marcada como coadjuvante em uma disputa polarizada entre um candidato de centro apoiado por Lula e nomes explicitamente à direita.

No campo conservador, a presença de Pacheco na corrida tende a fragmentar estratégias. Republicanos, Novo, PL e segmentos do próprio União Brasil terão de decidir se concentram forças em um único palanque ou se correm o risco de pulverizar votos. O xadrez se estende às eleições para o Senado, para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa, que dependem da força dos candidatos a governador para puxar votos e estruturar campanhas regionais.

Próximos passos e incertezas no tabuleiro mineiro

As definições começam a ganhar forma ao longo de 2025, quando os partidos precisarão afunilar alianças para chegar às convenções de 2026 com candidaturas competitivas. Pacheco trabalha com um calendário próprio: quer escolher a nova sigla antes da janela oficial de migração partidária, para ter tempo de estruturar palanques municipais, montar coordenações regionais e testar seu nome em pesquisas qualitativas e quantitativas.

As conversas com Lula e com dirigentes partidários seguem reservadas, mas já influenciam cálculos em Brasília e em Belo Horizonte. O entorno do presidente aposta que Minas será um dos Estados mais disputados do país, tanto pela simbologia quanto pelo peso eleitoral. A dúvida que se impõe é se Pacheco conseguirá, de fato, se firmar como o principal rosto do centro em um ambiente pressionado pela polarização. A resposta passa não apenas por sua escolha partidária, mas pela capacidade de transformar essas articulações de bastidor em um projeto claro para o eleitor mineiro em 2026.

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