Ultimas

Trump reage a Nobel e pressiona por controle dos EUA sobre a Groenlândia

Donald Trump diz que já não se sente obrigado a pensar apenas na paz e volta a defender que os Estados Unidos assumam o controle da Groenlândia, em carta enviada no domingo, 18, ao primeiro-ministro da Noruega. A mensagem, revelada nesta segunda-feira, 19, aprofunda o atrito com países europeus e expõe a disputa de bastidores pela influência no Ártico.

Da frustração com o Nobel à pressão territorial

Trump escreve a Jonas Gahr Støre para responder a críticas sobre tarifas impostas a aliados europeus. Na carta, obtida e divulgada pela agência Reuters, o presidente mistura queixas pessoais, ameaça econômica e pressão geopolítica. Ele diz sentir-se liberado de uma suposta obrigação moral associada ao Prêmio Nobel da Paz, que não recebe, e usa esse argumento para justificar uma linha mais dura em relação à Groenlândia.

“Caro Jonas: dado que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por eu ter parado mais de 8 guerras, já não me sinto obrigado a pensar exclusivamente na paz”, escreve. Em seguida, afirma que agora pode se concentrar “no que é bom e adequado para os Estados Unidos da América”. O prêmio, criado em 1901 e concedido todos os anos em Oslo, volta ao centro do discurso de Trump, que transforma a ausência de laureamento em argumento político.

Støre reage publicamente nesta segunda-feira e tenta desarmar a ligação direta feita pelo presidente americano entre o governo norueguês e a escolha dos premiados. “Expliquei de forma clara, inclusive ao presidente Trump, o que é bem conhecido: o prêmio é concedido por um Comitê Nobel independente e não pelo governo norueguês”, afirma em comunicado. O premiê diz que envia uma breve mensagem ao republicano questionando as tarifas, e recebe a resposta dura “pouco depois”.

A troca de cartas ocorre em meio à decisão de Washington de impor tarifas a parceiros europeus que rejeitam a ideia de ampliar o controle americano sobre a Groenlândia. O movimento atinge diretamente Noruega, Dinamarca e outros membros da União Europeia, que já estudam uma resposta coordenada. Segundo o jornal britânico Financial Times, a UE avalia sobretaxas de até € 93 bilhões em produtos americanos, em um novo capítulo da guerra comercial transatlântica.

A Groenlândia no centro da disputa do Ártico

Trump volta a questionar a soberania da Dinamarca sobre a Groenlândia e apresenta o território como peça-chave na segurança do Ocidente. Na carta e em publicações na rede Truth Social, ele fala em “ameaça russa e chinesa” e defende que apenas os EUA teriam condições de proteger a ilha de 2,1 milhões de quilômetros quadrados, rica em minerais estratégicos e posição militar privilegiada no Atlântico Norte.

“A Dinamarca não consegue proteger aquela terra da Rússia ou da China e, afinal, por que eles teriam um ‘direito de propriedade’?”, provoca. Segundo Trump, não há “documentos escritos” que comprovem a posse dinamarquesa, argumento que ignora tratados internacionais e a integração histórica da Groenlândia ao Reino da Dinamarca desde o século XVIII. Ele cita ainda o passado naval americano: “Nós também tivemos barcos que desembarcaram lá.”

O presidente reivindica reconhecimento por sua atuação na Otan e transforma essa narrativa em cobrança direta. “Fiz mais pela Otan do que qualquer outra pessoa desde a sua fundação e, agora, a Otan deveria fazer algo pelos EUA. O mundo não estará seguro a menos que tenhamos controle completo e total da Groenlândia”, escreve. A frase eleva a aposta e associa segurança global à entrega de um território hoje autônomo, com cerca de 56 mil habitantes, sob guarda militar e diplomática dinamarquesa.

A posição encontra resistência imediata em Copenhague e em Nuuk, capital da ilha. O governo dinamarquês reforça que a Groenlândia “não está à venda”, discurso já repetido em crises anteriores com Trump. A liderança autônoma da ilha mantém a mesma linha e lembra que o território é parte do sistema de defesa coletiva da Otan, o que já garante a presença militar americana em bases estratégicas, sem ruptura na soberania formal.

Enquanto tenta reabrir a discussão sobre compra ou controle ampliado, Trump insiste em que a Dinamarca “não fez nada” para conter a influência russa na região, apesar dos alertas da Otan, que, segundo ele, se repetem há “duas décadas”. Em novo post na Truth Social, neste domingo, 18, ele afirma que “chegou a hora” de resolver a questão e conclui com um aviso em tom de ultimato: “e isso será feito!!!”.

Risco de escalada econômica e militar no Ártico

A carta e as postagens de Trump ampliam a pressão sobre alianças tradicionais dos Estados Unidos na Europa e expõem uma disputa mais ampla no Ártico. A região concentra rotas marítimas que ganham importância com o derretimento do gelo, reservas de petróleo e gás e metais críticos para a transição energética. Rússia, China, Estados Unidos e países nórdicos disputam espaço político, militar e econômico em uma área que, nas últimas décadas, tenta se firmar como zona de cooperação.

Noruega e Finlândia buscam conter os danos. Ao tornar pública a carta, Støre tenta mostrar que responde às tarifas sem romper com Washington e insiste no caráter técnico do Nobel da Paz. Alexander Stubb, presidente finlandês que também assina a mensagem original a Trump, mantém alinhamento com a Otan desde a adesão do país à aliança, em 2024, mas vê o impacto direto da tensão tarifária em economias abertas e dependentes de exportações.

No campo diplomático, a ofensiva americana reacende debates sobre soberania em territórios estratégicos. A reação rápida da Dinamarca e do governo autônomo da Groenlândia sinaliza que não há margem para negociações formais de venda ou transferência de controle. Ao atrelar a segurança global à posse americana da ilha, Trump pressiona aliados a escolher entre preservar arranjos atuais ou aceitar uma reconfiguração que favorece diretamente Washington.

As ameaças de tarifas sobre aliados europeus, somadas à possibilidade de retaliação da União Europeia em valor estimado em € 93 bilhões, indicam que a crise pode migrar das declarações para o bolso de empresas e consumidores. Setores como aço, produtos agrícolas, tecnologia e energia entram no radar, com risco de novos embargos cruzados em 2026. A disputa pela Groenlândia passa a ter impacto concreto em cadeias globais de comércio e em investimentos em infraestrutura no Ártico.

Impasse aberto e Ártico sob observação

Os próximos movimentos se concentram em duas frentes: a resposta coordenada da União Europeia às tarifas americanas e a forma como a Otan administra a pressão interna de um de seus principais membros. Líderes europeus tentam, ao mesmo tempo, desarmar a retórica de Trump sobre o Nobel e conter a escalada comercial, enquanto a Rússia e a China observam a fissura entre aliados ocidentais.

Trump, por sua vez, transforma a disputa pelo Prêmio Nobel da Paz e o controle da Groenlândia em instrumento de campanha e de afirmação de poder, reforçando a imagem de um presidente disposto a testar limites de instituições internacionais. A carta a Støre, escrita em tom pessoal, produz efeito muito além da diplomacia protocolar e projeta uma pergunta que nenhum chanceler consegue responder agora: até onde os aliados da Otan estão dispostos a ir para conter ou acompanhar a ambição americana no Ártico?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *