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Junta defeituosa em trilho causa desastre com trens e 39 mortos na Espanha

Um defeito antigo em uma junta de trilho provoca o descarrilamento de dois trens de alta velocidade e deixa ao menos 39 mortos nesta segunda-feira (19), perto de Adamuz, na província de Córdoba, sul da Espanha. Técnicos apontam desgaste e folga na peça como peça-chave para explicar uma das maiores tragédias ferroviárias da Europa recente.

Falha conhecida em trilho antecede colisão fatal

Os primeiros vagões do trem operado pela privada Iryo cruzam o trecho sem problemas aparentes. No oitavo vagão, a situação muda de forma abrupta. A roda encontra um vão crescente entre dois segmentos de trilho, no ponto onde uma junta metálica, o talão de junção, deveria manter tudo firme. O vagão salta, pende, arrasta o sétimo e o sexto, e parte da composição é lançada na direção contrária dos trilhos.

Na outra ponta da mesma linha, um trem da Renfe se aproxima em sentido oposto. Os vagões já instáveis invadem a faixa ao lado e atingem em cheio a composição espanhola. O impacto empurra o segundo trem para fora dos trilhos e o lança em um barranco. Em poucos segundos, um defeito localizado se converte em um amontoado de metal retorcido, fumaça e gritos, em um cenário que lembra os piores acidentes ferroviários da década.

O acidente ocorre a cerca de 360 quilômetros ao sul de Madri, em um trecho de linha reformado há menos de um ano. Segundo o ministro dos Transportes, Óscar Puente, a via passa por uma reforma completa em maio de 2025. O trem da Iryo, um modelo Frecciarossa 1000 fabricado pela Hitachi Rail, tem menos de quatro anos de uso e passa por inspeção de rotina em 15 de janeiro, quatro dias antes do desastre. “Nenhuma anomalia foi detectada”, relata uma fonte ligada à apuração técnica.

Especialistas que percorrem o leito ferroviário após a tragédia se detêm sobre um ponto específico. Ali, na junção entre os trilhos, a chapa metálica que faz a ligação apresenta desgaste visível. A fotografia do vão vertical entre os trilhos, divulgada pela Guarda Civil, se torna o primeiro indício concreto de uma falha que, segundo técnicos, não surge de um dia para o outro. “Esse tipo de folga indica um problema antigo, que se agrava com cada passagem de trem”, afirma uma fonte ouvida sob reserva, que acompanha os trabalhos em campo.

Pressão sobre manutenção e fiscalização ferroviária

A descoberta de uma junta degradada em uma linha anunciada como renovada pressiona autoridades e operadoras. A Comissão Espanhola de Investigação de Acidentes Ferroviários (CIAF), órgão responsável por apurar oficialmente as causas, mantém silêncio inicial e não responde a pedidos de comentário. O Ministério dos Transportes e a estatal Adif, que administra a infraestrutura, também evitam se pronunciar nas primeiras horas após a tragédia.

O presidente da Renfe, Álvaro Fernández Heredia, escolhe a cautela, mas aponta um caminho. Em entrevista à rádio Cadena Ser, ele afirma que é “muito cedo” para apontar uma causa definitiva. Em seguida, delimita o campo da investigação. Segundo ele, o acidente ocorre em “condições estranhas” e “o erro humano está praticamente descartado”. Ao afastar a hipótese clássica de falha do maquinista, a declaração desloca o foco para a infraestrutura e a cadeia de manutenção de trilhos e equipamentos.

A Iryo, operadora privada controlada majoritariamente pela estatal italiana Ferrovie dello Stato, entra no radar de reguladores e da opinião pública. O modelo Frecciarossa 1000, estrela da alta velocidade italiana, tinha até agora histórico de confiabilidade. A inspeção feita pela Hitachi Rail em 15 de janeiro, sem registro de anomalias, reforça a percepção de que o problema nasce da via, não do trem. O contraste com os 39 mortos e dezenas de feridos amplia a pressão para explicar como uma falha visível em uma junta sobrevive a reformas recentes, rotinas de inspeção e sistemas de monitoramento.

O impacto político é imediato. O primeiro-ministro Pedro Sánchez cancela a viagem ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, e acompanha de perto as buscas e a perícia no local. Ao lado de Óscar Puente e de equipes de resgate exaustas, percorre o trecho retorcido de trilhos e vagões. A imagem de um trem de alta velocidade tombado em um barranco, em um país que investe pesado em sua malha ferroviária, contrasta com o discurso de segurança que sustenta a expansão do modelo europeu de transporte sobre trilhos.

Tragédia expõe fragilidades de um modelo de sucesso

O desastre próximo a Adamuz se insere em uma estatística que a Europa tenta manter sob controle. Em meio século, o continente transforma o trem de alta velocidade em vitrine tecnológica, com índices de acidentes letais bem abaixo dos registrados em rodovias. Uma falha estrutural em um componente básico, porém, devolve o debate ao ponto de partida: a segurança de qualquer sistema depende do elo mais frágil.

No curto prazo, a expectativa é de revisões emergenciais em juntas e segmentos de trilhos semelhantes em toda a rede espanhola de alta velocidade. Técnicos consultados apontam que esse tipo de componente deveria ser monitorado com maior frequência, sobretudo em trechos reformados ou submetidos a obras recentes. A eventual confirmação de que havia desgaste conhecido, ou detectável, na junta pode abrir espaço para processos criminais e cíveis contra gestores de infraestrutura e empresas contratadas para manutenção.

Companhias como Adif, Renfe e Iryo enfrentam um novo patamar de escrutínio público e regulatório. Seguradoras calculam perdas milionárias, enquanto familiares das vítimas começam a organizar ações coletivas por indenizações. O episódio tende a influenciar decisões de investimento, com exigência de prazos menores entre inspeções, reforço de sensores em linha e uso de tecnologia capaz de identificar folgas milimétricas antes que se tornem rupturas fatais.

Outros países europeus acompanham o caso de perto. Redes como a francesa e a italiana operam trens Frecciarossa 1000 ou equivalentes sobre malhas similares. O histórico do modelo e a ausência de defeitos apontados na inspeção mais recente aliviam, por ora, a imagem do material rodante. O foco recai sobre protocolos de manutenção de trilhos, subcontratações e eventuais falhas de supervisão estatal.

Investigações definem responsabilidade e futuro da rede

A CIAF centraliza a investigação, com participação de peritos independentes e representantes das empresas envolvidas. O relatório preliminar deve sair em semanas, mas a experiência de casos anteriores indica que o documento final pode levar meses. Cada detalhe da junta danificada, das passagens de trem registradas e dos laudos fotográficos vai pesar na distribuição de responsabilidades.

O governo Sánchez já sinaliza que o desfecho não ficará restrito à atribuição de culpa. A tendência é que o relatório técnico alimente uma revisão mais ampla de normas, com atualização de padrões de inspeção, reforço da autonomia dos órgãos de investigação e possíveis mudanças na forma de contratação da manutenção ferroviária. A tragédia em Adamuz expõe um dilema para a Europa: como expandir uma rede de alta velocidade que se vende como modelo global sem repetir a confiança excessiva em sistemas que falham no detalhe mais básico, um pedaço de metal gasto entre dois trilhos.

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