Coreia do Sul começa a distribuir míssil ‘monstro’ Hyunmoo-5
As Forças Armadas da Coreia do Sul começam a distribuir o míssil balístico Hyunmoo-5 para unidades de linha de frente desde o fim de 2024. O artefato, apelidado de “míssil monstro”, integra uma estratégia de dissuasão contra a ameaça nuclear da Coreia do Norte e deve chegar a algumas dezenas de unidades até 2030.
Escalada militar em nome do “equilíbrio do terror”
A decisão de levar o Hyunmoo-5 para perto da fronteira consolida uma mudança de escala na postura militar de Seul. O míssil é projetado para atingir centros de comando, bunkers subterrâneos e instalações nucleares norte-coreanas em caso de emergência, a até 300 quilômetros de distância. A mensagem é clara: qualquer ataque de Pyongyang teria uma resposta devastadora, ainda que com armas convencionais.
O ministro da Defesa, Ahn Guy-back, defende abertamente essa lógica de equilíbrio. Em entrevista à agência Yonhap, em outubro de 2024, ele afirma ser necessário um “equilíbrio do terror” diante da expansão do programa nuclear norte-coreano. “Como a Coreia do Sul não pode possuir armas nucleares por ser signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear, acredito firmemente que devemos possuir um número considerável de mísseis Hyunmoo-5 para alcançar um equilíbrio”, diz. A fórmula resume a aposta sul-coreana: compensar a ausência de ogivas atômicas com poder de fogo convencional de altíssima destruição.
O Hyunmoo-5 entra em operação de forma gradual desde o fim do ano passado, em fases, em unidades da linha de frente. O plano do governo prevê completar a implantação até junho de 2030, com pelo menos algumas dezenas de mísseis disponíveis. Embora a Coreia do Sul não detalhe números nem locais, a prioridade é posicionar os lançadores em áreas capazes de atingir Pyongyang e instalações críticas em questão de minutos.
O míssil foi exibido publicamente pela primeira vez em 2024, no Dia das Forças Armadas, dentro de um contêiner cilíndrico montado em um veículo de nove eixos, com 18 rodas. A apresentação ao vivo reforça o caráter de vitrine estratégica. Seul mostra à Coreia do Norte, e também aos aliados, que domina tecnologia de ataque de precisão contra alvos endurecidos, mesmo sem cruzar a linha do armamento nuclear.
Um míssil convencional com ambição nuclear
O Hyunmoo-5 carrega uma ogiva convencional de até 8 toneladas e é considerado um dos mais poderosos mísseis balísticos não nucleares do mundo. Fontes militares sul-coreanas estimam que o efeito destrutivo seja equivalente ao de uma ogiva de 11 toneladas, graças a avanços em materiais explosivos. A arma pode destruir bunkers a até 100 metros de profundidade, um patamar projetado justamente para mirar abrigos subterrâneos usados por Kim Jong-un e pela cúpula militar norte-coreana.
Quando lançado, o míssil ultrapassa dez vezes a velocidade do som antes de atingir o alvo. Um oficial ouvido pelo jornal Dong-A Ilbo compara esse impacto ao de “uma pequena arma nuclear tática”, em termos de devastação localizada. A intenção declarada é neutralizar centros de comando, silos de mísseis e instalações nucleares antes que Pyongyang consiga coordenar um ataque em larga escala contra o Sul.
Especialistas ouvidos pelo jornal The Korea Herald, porém, colocam freio nessa comparação. Eles lembram que, mesmo com ogivas muito pesadas, mísseis convencionais não alcançam a mesma capacidade destrutiva, de radiação e de efeito prolongado de uma ogiva nuclear tática. A distância entre um artefato convencional superpotente e uma arma atômica continua grande, ainda que, no campo político, a percepção de risco possa se aproximar.
Dentro do comando militar sul-coreano, o Hyunmoo-5 é visto como peça central de uma tríade convencional: mísseis balísticos de grande poder, sistemas de defesa antimíssil e capacidade de ataque de precisão com foguetes e artilharia. A combinação busca complicar o cálculo de Pyongyang, que passa a lidar com a ameaça de ver suas estruturas de comando destruídas em minutos, sem que Seul quebre compromissos internacionais de não proliferação.
Risco de escalada e próximos passos na Península Coreana
A implantação do “míssil monstro” tende a mexer no xadrez da Península Coreana. Ao aproximar tanto poder de fogo da linha de frente, Seul espera conter a ousadia de Pyongyang, mas também alimenta temores de escalada. A Coreia do Norte já reage a anúncios anteriores de modernização militar do Sul com novos testes de mísseis e retórica agressiva contra Seul, Washington e Tóquio. A tendência é que a chegada de dezenas de Hyunmoo-5 ao arsenal sul-coreano provoque respostas na mesma direção.
Aliados tradicionais da Coreia do Sul, como Estados Unidos e Japão, observam com interesse o reforço da dissuasão convencional. A estratégia reduz a pressão interna por armas nucleares próprias, tema recorrente em debates políticos sul-coreanos desde que o arsenal de Kim Jong-un se expande. Ao mesmo tempo, aumenta a complexidade das conversas diplomáticas com a China e a Rússia, que historicamente condenam avanços militares em Seul e podem usar o Hyunmoo-5 como argumento em fóruns internacionais.
Nos próximos anos, o ritmo de produção em massa e de distribuição dos mísseis vai indicar o grau de aposta do governo sul-coreano nesse modelo de equilíbrio. Se a implantação seguir o cronograma até 2030, a região terá um cenário em que um ataque em grande escala da Coreia do Norte encontrará, quase automaticamente, uma salva de dezenas de mísseis de altíssimo poder rumo a Pyongyang. O efeito prático dessa equação ainda depende de decisões políticas de ambos os lados da fronteira.
Enquanto a Coreia do Sul acelera a implantação silenciosa do Hyunmoo-5, permanece em aberto uma pergunta central: a presença de um míssil convencional com ambição de impacto nuclear empurra a Península Coreana para um impasse mais estável ou para uma nova rodada de risco permanente?
