Abrams diz que Trump abandona cautela e adota ofensiva militar
Elliott Abrams, veterano da política externa dos EUA, afirma que Donald Trump abandona a cautela no segundo mandato e adota estratégia militar mais agressiva. Em um ano, o republicano intensifica bombardeios e ameaças, reduz espaço da diplomacia e aumenta a tensão em regiões sensíveis.
Da contenção à ofensiva em um ano de mandato
Trump completa nesta terça-feira (20) um ano de retorno à Casa Branca e exibe um mapa de operações militares que contrasta com o período de 2017 a 2021. Se no primeiro mandato ele resiste a usar o poderio bélico, agora ordena ataques simultâneos em diferentes frentes e relega a diplomacia a papel secundário.
Nesse intervalo de doze meses, os EUA bombardeiam alvos na Somália, no Iraque, no Iêmen, na Síria e na Nigéria. Forças americanas atingem também instalações nucleares iranianas e executam uma ação arriscada em Caracas, destinada a capturar Nicolás Maduro. O presidente ainda ameaça a Colômbia e volta a falar em anexar a Groenlândia, proposta que em 2019 parecia mais bravata do que plano.
Abrams, que foi enviado especial de Trump para Venezuela e Irã no primeiro mandato e trabalhou nos governos Ronald Reagan e George W. Bush, descreve uma guinada calculada. “Não pensávamos seriamente em invadir a Venezuela”, diz, ao lembrar as discussões internas até 2021. Em outubro de 2025, já fora do governo, ele chega a dizer à BBC que Trump não atacaria Caracas. Poucos meses depois, vê a operação sair do papel.
O ex-assessor identifica duas raízes principais para a mudança. A primeira é o arrependimento de Trump por ter ouvido conselheiros mais cautelosos no passado. Em 2019, durante protestos no Irã, a Casa Branca evita apoiar abertamente os manifestantes, com receio de contaminá-los com a associação a Washington. Hoje, Abrams afirma que o presidente considera aquele recuo um erro. “Ele concluiu que estava errado e aprendeu a lição”, diz. Agora, Trump declara apoio aos protestos e eleva o tom contra Teerã.
A segunda raiz está no saldo das operações recentes. As incursões, em especial a ação em Caracas, são apresentadas como sucessos rápidos, sem baixas americanas e com objetivos delimitados. “O presidente tem cada vez mais confiança na capacidade militar de realizar essas ações e sabe que receberá um fantástico crédito por isso”, afirma Abrams. “Cada operação dessas encoraja Trump a usar a força militar.”
Diplomacia encolhe e Brasil perde espaço na mediação
A guinada militar altera o equilíbrio de forças não só nos campos de batalha, mas também nas mesas de negociação. Ao privilegiar ataques pontuais e ameaças diretas, Washington reduz sua margem de atuação como mediador e pressiona aliados a se reposicionarem. A diplomacia, que nos anos 2000 tenta costurar saídas políticas para conflitos no Oriente Médio e na América Latina, agora cede lugar a comunicados sobre novas operações e sanções.
O Brasil aparece nesse cenário como ator lateralizado. Durante duas décadas, governos brasileiros mantêm canais abertos com Caracas e tentam participar de conversas sobre a crise venezuelana. Essa experiência, que poderia ser trunfo em negociações, vira obstáculo em parte do tabuleiro. “A oposição venezuelana talvez enxergue Lula como alguém próximo demais de Maduro”, afirma Abrams. Na prática, a investida militar americana em Caracas diminui o espaço para qualquer mediação regional e concentra as decisões em Washington.
O impacto se estende ao Oriente Médio. No Irã, a crise atual nasce de dentro, com protestos que se arrastam desde 2019 e ganham novos ciclos nos últimos anos. Trump envia mais equipamentos militares à região, endurece sanções econômicas e mantém a ameaça de uma ação direta. Abrams descreve um quadro volátil: “Alguns dias atrás, parecia certo que ele ia agir. Agora parece que não. Mas isso pode mudar”.
Uma intervenção em Teerã teria custo e finalidade menos claros do que a operação venezuelana. O Irã dispõe de capacidade militar maior, influência sobre grupos armados no Iraque, no Líbano e no Iêmen e peso central nas rotas de energia da região. “Sabemos o que queremos na Venezuela, que é o que havia antes de Hugo Chávez”, diz Abrams. No caso iraniano, a lembrança é a ditadura do xá, derrubada em 1979. A pergunta, segundo ele, é o que viria depois de uma eventual queda do líder supremo.
Esse dilema ajuda a explicar a hesitação atual da Casa Branca. Qualquer mudança em Teerã tende a redesenhar a geopolítica regional. “Se o regime iraniano mudar, o Iraque vai ser um novo país, assim como o Líbano e o Iêmen”, afirma Abrams. Em outras palavras, o cálculo de custo-benefício ultrapassa o horizonte de três anos restantes de mandato e testa a disposição de Trump de lidar com efeitos que podem se prolongar por décadas.
Pressão crescente e incerteza sobre os próximos movimentos
Enquanto a diplomacia recua, a rotina de ataques pontuais se consolida como marca do segundo mandato. As operações iniciadas desde janeiro de 2025 seguem um padrão: ação rápida, anúncio posterior e ausência de tropas americanas em grandes contingentes em solo estrangeiro. Para a base republicana, segundo Abrams, esse modelo é aceitável. “Seus eleitores não querem guerras, com milhares de americanos enviados para morrer”, afirma.
O desafio é o que virá depois da exibição de força. Na Venezuela, Trump evita até agora falar em “democracia” e não apresenta um roteiro para as próximas eleições em Caracas. “É como se Maduro tivesse infartado”, resume Abrams. “Tudo está igual, com o regime no poder.” A metáfora expõe o impasse: a principal figura cai, mas a estrutura que a sustentava permanece praticamente intacta, à espera de uma definição externa ou de um arranjo interno.
No Irã, a estratégia de pressão combinada —sanções mais duras, apoio aos manifestantes e envio de arsenal— busca fragilizar o regime sem comprometer os EUA com uma ocupação longa. Washington aposta que a erosão interna, acelerada pela crise econômica, possa produzir uma transição menos custosa militarmente. Não há, por enquanto, um consenso público sobre qual modelo político deveria emergir no lugar da República Islâmica.
Os próximos anos colocarão à prova essa política externa mais belicosa e personalizada. Trump entra no segundo ano de mandato com um histórico de operações bem-sucedidas no curto prazo, mas sem respostas claras sobre o médio e o longo prazo em Caracas e Teerã. Entre a confiança crescente no poder militar e o risco de reação em cadeia, a Casa Branca precisa decidir se mantém a escalada ou se volta a abrir espaço para negociadores. A aposta feita hoje dirá se os EUA continuarão vistos como árbitro global ou como potência que prefere o estrondo das bombas ao silêncio das salas de mediação.
