Trump ameaça tarifa de 200% sobre vinhos franceses para pressionar Macron
Donald Trump ameaça impor tarifa de 200% sobre vinhos e champanhes franceses para pressionar Emmanuel Macron a aderir ao Conselho de Paz, em 20 de janeiro de 2026. A ofensiva econômica aumenta a tensão entre Washington e Paris e expõe o ceticismo de aliados sobre a nova iniciativa diplomática do ex-presidente dos Estados Unidos.
Pressão econômica em troca de adesão
Trump volta a usar o comércio como arma política. Questionado por um repórter sobre a resistência de Macron ao convite para integrar o Conselho de Paz, o republicano reage com ironia e ameaça direta. “Ele disse isso? Bem, ninguém o quer porque ele deixará o cargo muito em breve”, afirma, ao comentar a recusa preliminar do presidente francês.
Na sequência, ele eleva o tom e vincula explicitamente a política comercial à sua agenda diplomática. “Vou impor uma tarifa de 200% sobre seus vinhos e champanhes, e ele aderirá, mas não é obrigado a aderir”, diz. A declaração, feita em solo americano, ecoa imediatamente em Paris, onde auxiliares de Macron já indicam, desde segunda-feira (19), que a França pretende recusar o convite “neste momento”.
A ofensiva mira um dos símbolos econômicos e culturais da França. Em 2025, exportadores franceses vendem bilhões de euros em vinhos e espumantes ao mercado internacional, com os Estados Unidos entre os principais destinos. Uma tarifa de 200% encareceria de forma drástica garrafas que hoje chegam às prateleiras americanas, afetando produtores, distribuidores e restaurantes.
O Conselho de Paz, proposto por Trump em setembro passado, nasce como resposta declarada à guerra em Gaza, mas rapidamente ganha ambição global. O plano divulgado agora prevê que o órgão atue como fórum para negociações de fim de conflitos em todo o mundo, em paralelo à estrutura já existente das Nações Unidas. A sobreposição de papéis incomoda diplomatas em capitais europeias e na ONU.
Conselho de Paz divide aliados e inclui Putin
Uma minuta de estatuto enviada pelo governo dos Estados Unidos a cerca de 60 países exige uma contribuição pesada para quem quiser permanecer no grupo. Segundo o documento, visto pela agência Reuters, os membros que desejarem estender sua participação por mais de três anos precisam aportar US$ 1 bilhão em dinheiro. O valor, apresentado como compromisso financeiro para sustentar operações de mediação, é recebido com cautela e desconfiança.
Governos aliados reagem com prudência desde o fim de semana. Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que o desenho do Conselho de Paz pode esvaziar o papel do Conselho de Segurança da ONU e criar um organismo paralelo sob influência direta dos Estados Unidos. Em vez de fortalecer a arquitetura multilateral, o projeto poderia alimentar disputas de legitimidade entre instituições internacionais.
A inclusão do presidente russo, Vladimir Putin, amplia as dúvidas. “Ele foi convidado”, confirma Trump na segunda-feira, ao ser questionado sobre a lista de participantes. O gesto soa ambíguo para países europeus que enfrentam a Rússia desde a invasão da Ucrânia em 2022. Ao abrir espaço a Moscou, Trump tenta apresentar o Conselho como ponte entre adversários, mas corre o risco de afastar aliados que veem Putin como agressor e não como mediador.
No Reino Unido, a reação ganha tom político doméstico. Um parlamentar britânico chega a sugerir boicote à Copa do Mundo como resposta às ameaças de Trump, em gesto simbólico contra o uso de sanções comerciais entre aliados. Outra autoridade britânica descreve, em condição de anonimato, a postura americana como inadequada para a relação entre parceiros históricos. “Ameaças dos EUA não são forma de tratar aliados”, afirma.
Em Paris, a recusa de Macron ao convite é articulada com cuidado. Uma fonte próxima ao presidente francês ressalta, na segunda-feira (19), que a França “pretende recusar, neste momento” a entrada no Conselho. O Palácio do Eliseu tenta equilibrar a crítica velada ao desenho da iniciativa com a necessidade de preservar os laços estratégicos com Washington, essenciais na Otan e em negociações globais de segurança e clima.
Risco de guerra comercial e futuro da nova iniciativa
A ameaça de uma tarifa de 200% sobre vinhos e champanhes franceses reacende o temor de uma nova rodada de guerra comercial entre Estados Unidos e União Europeia. Setores como o agronegócio, o turismo e a indústria de luxo podem sentir o impacto em cadeia. Importadores americanos podem reduzir pedidos, bares e restaurantes podem repensar cartas de bebidas, e produtores franceses podem buscar com mais força mercados alternativos na Ásia e no Oriente Médio.
A disposição de Trump em usar sanções tarifárias para forçar decisões políticas reabre cicatrizes de disputas anteriores, como as tarifas sobre aço, alumínio e produtos europeus durante seu mandato. A diferença agora está no alvo estratégico: não se trata apenas de uma disputa comercial, mas de uma alavanca para redesenhar a governança da paz internacional. A própria participação de outros líderes no Conselho passa a depender de como Trump lida com Macron e com os europeus.
Diplomatas avaliam que a pressão sobre a França pode ter efeito contrário ao desejado. Ao transformar vinhos e champanhes em instrumentos de chantagem política, Trump oferece a Macron o argumento para manter distância do Conselho e buscar apoio dentro da União Europeia. Se o bloco fechar posição em defesa de Paris, o Conselho de Paz pode nascer enfraquecido, com adesão restrita a aliados mais alinhados a Washington ou a países interessados no aporte financeiro americano.
O futuro da iniciativa depende agora de uma cadeia de decisões nos próximos meses. Macron precisa definir se transformará a ameaça em confronto aberto ou se buscará uma saída negociada que preserve o prestígio francês e limite danos econômicos. Trump, por sua vez, terá de mostrar até que ponto está disposto a cumprir a promessa de tarifa de 200% em troca de adesão política.
As respostas de Paris, Londres, Moscou e de outras capitais convidadas indicarão se o Conselho de Paz se tornará um novo centro de poder diplomático ou apenas mais um palco de disputa entre grandes potências. A questão que permanece em aberto é se ameaças comerciais serão suficientes para sustentar um projeto que se apresenta como caminho para o fim das guerras.
