PGR analisa suspeição de Toffoli em inquérito do Banco Master
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, analisa quatro representações que pedem a suspeição do ministro Dias Toffoli no inquérito do Banco Master. As peças questionam possíveis conflitos de interesse e pedem seu afastamento da relatoria. As apurações tramitam sob sigilo na PGR.
Pressão política cresce sobre relatoria de Toffoli
A ofensiva de parlamentares sobre o papel de Dias Toffoli no caso Banco Master se intensifica nos últimos meses e chega ao ponto mais sensível em janeiro de 2026. O alvo é a condução do inquérito que investiga fraudes e outros crimes atribuídos aos proprietários do banco, em um processo que envolve cifras milionárias e uma teia de fundos de investimento. A suspeita de conflito de interesses atinge diretamente a imagem do Supremo Tribunal Federal e pressiona a cúpula do Ministério Público Federal.
Na quarta-feira, 14, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) apresenta à PGR uma representação em que pede a investigação de “possíveis conflitos de interesse e impedimentos” de Toffoli. O documento cita negócios envolvendo familiares próximos do ministro e pessoas ligadas ao grupo financeiro alvo da investigação. Horas antes, reportagem revela que os irmãos de Toffoli cederam uma fatia milionária no resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), a um fundo da Reag Investimentos, sob suspeita de abrigar estruturas ligadas ao Banco Master.
Dois dias depois, nova revelação amplia o desconforto em Brasília. Vem a público que o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, é o controlador dos fundos que compraram parte da participação dos irmãos de Toffoli no mesmo resort. A fatia negociada é avaliada em R$ 6,6 milhões à época da operação. Para o senador, esse conjunto de relações “levanta questões inevitáveis sobre imparcialidade judicial e conflito de interesses”.
Relações pessoais, decisões no inquérito e debate jurídico
O texto de Girão sustenta que o contexto “se torna ainda mais delicado” quando se observa que “familiares próximos do Ministro Toffoli e pessoas de seu círculo íntimo mantêm relações comerciais com possíveis envolvidos no escândalo do Banco Master”. No entendimento do senador, esses vínculos colocam em xeque a neutralidade do relator em decisões que podem afetar diretamente os interesses do banco e de seus executivos.
O parlamentar também cita decisão de Toffoli na nova fase da Operação Compliance Zero, braço da investigação sobre o Master. O ministro determina que itens apreendidos sejam enviados ao Supremo “lacrados e acautelados”, para análise posterior. A ordem, em um primeiro momento, impede a Polícia Federal de examinar o material, o que alimenta críticas de interferência excessiva e favorecimento aos investigados.
Três deputados federais já haviam acionado Paulo Gonet em dezembro. Carolina de Toni (PL-SC), Carlos Jordy (PL-RJ) e Adriana Ventura (Novo-SP) apresentam, em 12 de dezembro, representação em que pedem a arguição de impedimento e suspeição de Toffoli no caso. A peça menciona um voo particular para Lima, no Peru, onde o ministro viaja para assistir à final da Libertadores ao lado do empresário Luiz Oswaldo Pastore e do advogado do Banco Master, Augusto de Arruda Botelho.
Para os deputados, “evidencia-se relação de proximidade pessoal entre o Ministro e o advogado da parte diretamente beneficiada por suas decisões — incluindo a decretação de sigilo e o deslocamento de competência para o STF”. Um assessor da Minoria da Câmara afirma que, até agora, Gonet não responde ao pedido. A PGR, por sua vez, informa que quatro processos sobre o tema tramitam sob sigilo e que “não adianta possíveis manifestações processuais”.
O embate chega ao terreno técnico do direito processual. O Código de Processo Civil prevê 15 dias, a partir da distribuição da relatoria, para que uma parte questione a suspeição de um juiz. O regimento interno do STF é ainda mais rígido e fixa prazo de cinco dias. Parlamentares sustentam que seus pedidos foram apresentados dentro das janelas legais. Especialistas ouvidos reservadamente lembram que as hipóteses de suspeição envolvem vínculos subjetivos, como relações pessoais ou comerciais, enquanto o impedimento trata de situações objetivas, entre elas a participação de cônjuges ou parentes em etapas do processo ou interesse direto na causa.
Instituições em teste e risco à confiança pública
A análise de Paulo Gonet ocorre em um ambiente de desconfiança crescente em relação às instituições. A possível suspeição de um ministro do Supremo em um caso de grande repercussão financeira não é um episódio trivial. Atinge a narrativa de independência do Judiciário em investigações sensíveis e alimenta discursos políticos que acusam o tribunal de se afastar do combate à corrupção.
Se a PGR entender que há conflito de interesse, poderá pedir formalmente que Toffoli seja afastado da relatoria do inquérito. Em cenário extremo, o STF pode reconhecer suspeição ou impedimento, o que abre espaço para redistribuir o caso a outro ministro. Uma mudança desse tipo tende a alterar o ritmo e a abordagem das decisões sobre o Banco Master, incluindo medidas cautelares, quebras de sigilo e o destino de provas já colhidas.
A hipótese contrária, em que Gonet rejeita as representações, também terá efeito político. A decisão pode ser interpretada como gesto de blindagem ao ministro ou como reafirmação da autonomia do STF. Em ambos os casos, o resultado repercute no Congresso, onde grupos de oposição já usam o caso para questionar a legitimidade de decisões do Supremo em temas econômicos e eleitorais.
O episódio reacende ainda o debate sobre os limites éticos de relações sociais e comerciais de magistrados. Não há hoje, no Brasil, um código de conduta unificado e detalhado para ministros de tribunais superiores que trate de viagens, encontros privados e negócios de familiares com partes interessadas em processos. A lacuna alimenta dúvidas recorrentes sempre que vínculos pessoais surgem em meio a investigações de alto impacto financeiro.
O que está em jogo e os próximos passos
A decisão da PGR sobre as quatro representações tem potencial para redirecionar não apenas o inquérito do Banco Master, mas também a forma como o Supremo lida com casos de suspeição interna. Um pedido de afastamento de Toffoli obrigaria o tribunal a enfrentar, em sessão pública, a discussão sobre os limites de atuação de seus ministros em processos que tocam seu entorno familiar e social.
Enquanto isso, o inquérito segue sob a relatoria de Toffoli, e a maior parte dos atos permanece sob sigilo. Investigados, vítimas e o próprio mercado financeiro aguardam sinais claros sobre o rumo das apurações. A reação de Gonet, quando vier, indicará se a Procuradoria pretende endurecer o controle sobre conflitos de interesse no topo do Judiciário ou se considera as suspeitas insuficientes para afastar um ministro de um caso em curso. A resposta ajudará a definir até que ponto o sistema está disposto a expor e corrigir seus próprios pontos cegos.
