Renan acusa pressão de Lira e Hugo Motta sobre TCU em caso Banco Master
O senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirma nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, que Arthur Lira e Hugo Motta pressionam ministros do TCU para reverter a liquidação do banco Master. A acusação expõe disputa direta entre cúpulas do Congresso, órgãos de controle e o Banco Central em um dos casos mais sensíveis do sistema financeiro recente.
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A declaração surge em entrevista à GloboNews, em meio à tentativa de reconstruir a confiança no sistema bancário após a quebra do Master. O banco entra em liquidação em 2025, em meio a suspeitas de irregularidades e problemas de solvência, e se torna foco de uma batalha política que agora alcança o Tribunal de Contas da União.
Renan, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, diz ter recebido relatos de atuação direta do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do ex-presidente da Casa Arthur Lira (PP-AL) sobre um “setor” do TCU. Segundo ele, o objetivo é “liquidar a liquidação”, isto é, derrubar a decisão que encerra as atividades do banco e reorganiza seus passivos.
O senador não apresenta documentos ou provas públicas, mas sustenta que as informações vêm de dentro do próprio tribunal e de interlocutores próximos à investigação. “Estou tendo informações de que o atual presidente da Câmara dos Deputados e o ex-presidente da Câmara dos Deputados pressionaram e continuam pressionando o Tribunal de Contas da União, aliás, um setor do Tribunal de Contas da União, para que o Tribunal liquide a liquidação”, afirma.
Questionado se se referia nominalmente a Motta e Lira, Renan confirma: “Exatamente, são as informações que eu recebi, não apenas daquele procedimento, mas de vários procedimentos outros que o Tribunal de Contas da União tornou sigilosos, que têm a mesma origem, a mesma pressão, do presidente Hugo Mota e do ex-presidente da Câmara”. As falas reforçam o desgaste com Lira, adversário histórico do emedebista em Alagoas.
O caso chega ao TCU depois que decisões do Banco Central e de órgãos de supervisão financeira são questionadas por credores e grupos políticos ligados ao setor. A liquidação de um banco de médio porte como o Master não atinge cifras bilionárias de gigantes do sistema, mas afeta milhares de correntistas e investidores, além de sinalizar o apetite das autoridades para intervir em instituições em crise.
Interferência política e desconfiança institucional
As acusações colocam sob escrutínio um dos pilares da máquina de controle de contas públicas. O TCU, criado em 1891, fiscaliza o uso de recursos da União e costuma operar com forte autonomia técnica. Pressão de líderes do Congresso sobre ministros, se confirmada, fragiliza essa imagem e alimenta a percepção de interferência política em decisões com impacto direto no mercado financeiro.
O episódio ocorre enquanto o governo tenta reduzir juros, destravar crédito e reanimar o investimento privado. Um movimento atípico em torno da liquidação de um banco, associado a articulações de bastidor, tende a aumentar o prêmio de risco pedido por investidores e a prolongar a cautela de bancos médios, que ajustam suas carteiras quando percebem insegurança regulatória.
Renan também mira o Banco Central. Ele afirma que a autarquia “ficou de braços cruzados” e demorou a agir, abrindo espaço para manobras políticas. “Temos que cobrar responsabilidade do Galípolo e do Banco Central e saber por que é que eles demoraram tanto a fazer a liquidação do banco Master”, diz o senador, ao citar o presidente do BC, Gabriel Galípolo, que assume o comando da instituição em 2025.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sustenta em entrevistas recentes que o trabalho de Galípolo à frente do BC em 2025 “retorna as coisas à normalidade” após um período de tensão com o governo. A crítica de Renan, porém, expõe fissuras dentro da própria base governista em relação à condução da política de supervisão bancária e ao tempo de resposta diante de instituições em situação frágil.
Decisões do Supremo Tribunal Federal também entram no alvo. Renan menciona com estranhamento a atuação do ministro Dias Toffoli no caso. “Não somos nós, do Legislativo, que vamos colocar limites no ministro Dias Toffoli, mas foi estranha a maneira como ele se apropriou da investigação e muito estranha a maneira em que ele transferiu o sigilo apurado nas investigações para o presidente do Senado”, afirma. O comentário evidencia desconforto com o papel do STF em processos que cruzam política e finanças.
Quem ganha, quem perde e o que está em jogo
A disputa em torno do Master não se limita ao destino de um banco. Envolve interesses de grupos econômicos que apostam na reversão da liquidação, credores que tentam recuperar valores e políticos que veem na operação um campo de influência sobre decisões multimilionárias. Uma eventual mudança na situação da instituição pode alterar acordos com clientes, a venda de carteiras de crédito e a forma de ressarcimento de investidores.
Para correntistas e pequenos investidores, a principal preocupação está na previsibilidade. Quando uma liquidação é decretada, o Banco Central e o liquidante estabelecem regras, prazos e ordem de pagamento de dívidas. Se pressões políticas levam o TCU a rever esse processo, a percepção é de que decisões técnicas podem ser revistas a portas fechadas, aumentando a insegurança sobre garantias futuras.
O impacto alcança também a relação entre poderes. A acusação de que líderes do Legislativo pressionam ministros de um tribunal de contas enquanto o STF intervém em investigações alimenta a sensação de sobreposição de competências. O risco é um ambiente em que decisões regulatórias se tornam instrumentos de disputa política, com efeitos diretos sobre juros, crédito e confiança de longo prazo.
Analistas consultados por interlocutores no Congresso avaliam que, se confirmadas, as pressões podem abrir espaço para representações na Procuradoria-Geral da República e no próprio TCU por violação de dever funcional e tentativa de interferência em órgão de controle. Investigações criminais por tráfico de influência e improbidade administrativa também entram no radar, dependendo do avanço das apurações.
Grupo de trabalho no Senado promete escalada
Renan anuncia que a Comissão de Assuntos Econômicos instalará, na primeira semana de fevereiro, um grupo de trabalho para supervisionar as investigações do caso Master. O colegiado nasce com sete integrantes e será ampliado para onze, segundo o senador, após pedido de outros parlamentares interessados em acompanhar o tema mais de perto.
O grupo definirá nas próximas semanas um plano de ação, com previsão de audiências públicas com representantes do Banco Central, TCU, Ministério da Fazenda, ex-dirigentes do Master e especialistas em regulação. A comissão pode recorrer ao plenário do Senado para pedir quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico, caso entenda necessário aprofundar as investigações.
Renan antecipa que vai exigir acesso a documentos hoje classificados como sigilosos. “Vamos fazer audiências públicas e vamos requisitar todas as informações sigilosas, porque a Lei Complementar 105 diz que o Banco Central e a CVM são obrigados a mandar as informações para a comissão, que cumpre um exclusivo papel fiscalizatório, mesmo que elas sejam sigilosas”, afirma.
A movimentação deixa o episódio no centro da agenda política de 2026 e aumenta a pressão sobre o TCU, o Banco Central e o Supremo. A forma como esses órgãos vão responder à ofensiva do Senado, às acusações de interferência e às cobranças por transparência definirá não só o futuro do banco Master, mas também o limite da influência política sobre a regulação financeira no país.
