MEC admite erro em dados do Enamed e põe notas de medicina em xeque
O Ministério da Educação admite, em janeiro de 2026, inconsistências nos dados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina (Enamed). As falhas afetam o cálculo das notas oficiais de cursos de medicina em todo o país e abrem uma crise de confiança no principal indicador usado por faculdades, alunos e investidores.
MEC revê números após pressão das faculdades
A confissão de erro não nasce de iniciativa própria do governo. Vem depois de quase um mês de reclamações formais de instituições privadas e públicas, que identificam divergências entre os resultados enviados pelo MEC e os dados internos das escolas. Em planilhas detalhadas, reitores apontam diferenças de até 0,8 ponto em notas finais, o bastante para alterar o ranking de cursos e o peso de certificados de qualidade exibidos em campanhas de vestibular.
Diretores de grandes grupos educacionais relatam que o problema aparece logo nos primeiros dias de divulgação dos resultados, ainda em dezembro de 2025. A comparação com bancos de dados próprios, que reúnem desempenho individual de milhares de alunos, não fecha. Notas de turmas inteiras surgem infladas ou reduzidas sem explicação técnica clara. Em uma instituição com mais de 300 formandos em medicina, a diferença média de 5% no desempenho específico de clínica médica acende o alerta para erro de origem nos dados oficiais.
O Ministério, pressionado por ofícios, reuniões e questionamentos públicos, admite agora que há “inconsistências na base de cálculo utilizada para a consolidação das notas do Enamed”. Em nota enviada às faculdades, reproduzida à reportagem por um gestor acadêmico, a pasta afirma que “equipes técnicas realizam, desde a segunda semana de janeiro, revisão completa dos microdados para correção dos indicadores divulgados”. O texto não traz prazo fechado, mas cita uma estimativa informal de 30 dias para publicar versões revisadas.
Nos bastidores, o desconforto é evidente. Uma reitora de universidade federal, que pede para não ser identificada, resume o clima: “Estamos discutindo ampliação de vagas, abertura de novos campi e reforço de internato usando parâmetros que agora o próprio MEC diz que podem estar errados. Isso não é detalhe estatístico, é decisão de política pública”. Em conselhos universitários, a orientação informal é suspender, por ora, qualquer campanha que use a nota do Enamed como peça central de marketing institucional.
A situação expõe um ponto sensível de um sistema que se consolida ao longo da última década como referência obrigatória na regulação do ensino médico. Desde meados dos anos 2010, exames padronizados nacionais, como o antigo Enade específico para saúde, ganham peso crescente na abertura de novos cursos, renovação de reconhecimento e credenciamento de instituições. Nos últimos cinco anos, o Enamed assume esse papel central na área, servindo como uma espécie de “nota oficial” da qualidade da formação médica brasileira.
Impacto direto em alunos, faculdades e mercado
A admissão de inconsistências atinge em cheio candidatos a medicina e estudantes em fase de residência. Com as notas em dúvida, comparações entre cursos perdem confiabilidade em plena temporada de vestibulares e provas de transferência. Famílias que avaliam mensalidades de R$ 8 mil a R$ 15 mil por mês passam a questionar se o selo de qualidade estampado em anúncios realmente traduz desempenho acadêmico consistente.
No mercado de ensino superior, a correção das notas pode alterar avaliações bilionárias. Grupos que abriram capital na última década, sustentados por resultados crescentes em indicadores oficiais, veem espaço para disputas contratuais e questionamentos de desempenho. Um executivo de rede com mais de 10 mil alunos de medicina resume o cenário: “Se o governo revisa a nota de 2025, investidores vão querer reavaliar metas de 2026 e 2027. Um erro de 0,5 ponto pode mexer com bônus, cláusulas de aquisição e planos de expansão”.
As consequências administrativas também são concretas. Cursos com desempenho abaixo da média nacional podem sofrer restrições de vagas, exigências de planos de melhoria e visitas de supervisão. Quando a base de cálculo se mostra falha, decisões tomadas nos últimos 12 meses correm risco de revisão. Advogados educacionais já falam em ações para suspender sanções aplicadas com base em dados agora colocados em xeque, enquanto entidades representativas defendem regras de transição para evitar um efeito dominó de recursos e liminares.
Para alunos recém-formados, a insegurança invade a etapa seguinte. Programas de residência e hospitais de ensino que utilizam notas de cursos como critério informal de seleção passam a operar em terreno movediço. Coordenadores de residência em grandes capitais relatam a intenção de dar menos peso, neste ano, à classificação das faculdades e mais atenção ao desempenho individual em provas e entrevistas. A mudança pode alterar, ainda que parcialmente, o fluxo tradicional de egressos em direção a centros mais prestigiados.
Especialistas em políticas educacionais enxergam um problema mais profundo. A fragilidade na gestão de dados oficiais alimenta a desconfiança em relação a todo o aparato de avaliação estatal. Em relatório divulgado em 2024, um grupo de pesquisadores já alertava para riscos de centralizar decisões complexas em sistemas de informação pouco auditáveis. “Quando o governo erra na base, toda a cadeia que depende dela perde estabilidade”, afirma um consultor que acompanha o tema desde a implantação dos exames nacionais.
Pressão por transparência e revisão da metodologia
O MEC promete revisar as notas e reavaliar a metodologia de cálculo do Enamed. Técnicos consideram, entre as hipóteses, reforçar auditorias independentes, ampliar o acesso público aos microdados e criar um canal permanente de contestação, com prazos definidos para resposta. A ideia é reduzir a distância entre o momento em que as faculdades detectam problemas e a reação oficial, hoje medida em semanas.
Entidades de ensino pedem mais. Defendem um calendário de revisão que inclua, se necessário, resultados de anos anteriores, para garantir comparabilidade histórica. Sem essa correção, séries usadas em decisões de longo prazo, como abertura de novos cursos e interiorização de vagas, podem permanecer contaminadas. Grupos privados também pressionam por participação formal na governança do sistema, com comissões mistas que reúnam governo, universidades e especialistas independentes.
No Congresso, parlamentares ligados à área da saúde articulam audiências públicas para cobrar explicações. A expectativa é que, até março, representantes do MEC e do Instituto responsável pela aplicação do exame detalhem o que deu errado e quais rotinas de segurança falharam. A depender do tom das respostas, podem surgir propostas de lei para amarrar em norma prazos, critérios de transparência e mecanismos de correção obrigatória.
Enquanto isso, alunos que prestam vestibular em 2026 e instituições que planejam os próximos semestres convivem com um vácuo de informação confiável. Faculdades investem em relatórios próprios para mostrar qualidade acadêmica, com dados de aprovação em residência, desempenho em provas de ligas médicas e inserção no mercado de trabalho em até 12 meses após a formatura. Os números ajudam, mas não substituem um indicador nacional robusto e estável.
A crise em torno do Enamed recoloca uma pergunta incômoda para o Estado brasileiro: como garantir, ao mesmo tempo, avaliação rigorosa, escala nacional e transparência verificável? A resposta vai definir não apenas a reputação dos cursos de medicina, mas também a confiança de uma geração inteira de estudantes em qualquer dado oficial sobre sua própria formação.
