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Trump propõe conselho global de paz por US$ 1 bi por assento

Donald Trump lança, em janeiro de 2026, um “Conselho de Paz” mundial sob seu controle direto e cobra ao menos US$ 1 bilhão por assento de cada país. A proposta, apresentada como alternativa mais “ágil” que a ONU, provoca reação imediata e desconfiada de aliados históricos como França e Canadá.

Um conselho bilionário sob comando exclusivo de Trump

O novo organismo, batizado de Conselho de Paz, nasce com a promessa de “promover a estabilidade” em regiões em guerra e de substituir o que Trump chama de mecanismos falhos da diplomacia tradicional. O plano, ao qual a agência AFP tem acesso, fixa um bilhete de entrada mínimo de US$ 1 bilhão, cerca de R$ 5,3 bilhões, para cada país que queira integrar o grupo por três anos.

Trump se reserva o posto de “presidente inaugural” do Conselho e concentra nele poderes raros até mesmo em organizações internacionais mais hierarquizadas. É ele quem escolhe, de forma discricionária, quais governos recebem convite, quem vota e por quanto tempo permanece, além de ter a palavra final sobre o sentido e a aplicação da carta fundacional. O texto prevê que o mandato de cada Estado-membro dure no máximo três anos, renovável pelo presidente. Países que aportarem mais de US$ 1 bilhão no primeiro ano ficam dispensados desse limite inicial.

O estatuto autoriza Trump a criar, modificar ou dissolver órgãos internos do Conselho de Paz e a revogar a participação de um país, salvo se dois terços dos membros vetarem sua decisão. O arranjo, na prática, coloca o chefe da Casa Branca acima das regras que ele próprio estabelece. Em vez de um sistema de pesos e contrapesos, a carta cristaliza uma estrutura na qual a autoridade política e financeira se concentra no gabinete do presidente americano.

A Casa Branca envia convites formais a líderes como o presidente russo, Vladimir Putin, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, e o premiê canadense, Mark Carney. O Brasil, o Egito, a Turquia e a Argentina também entram na primeira leva de países sondados. A comunicação enviada às capitais apresenta o Conselho como “uma organização internacional que busca promover a estabilidade, restabelecer uma governança confiável e legítima, e garantir uma paz duradoura nas regiões afetadas ou ameaçadas por conflitos”.

Choque com a ONU e reação fria de aliados

O projeto nasce em confronto aberto com o sistema multilateral construído desde 1945. O preâmbulo do estatuto critica “as muitas abordagens de paz” que, segundo o texto, “institucionalizam crises em vez de permitir que as pessoas prosperem” — um recado direto à Organização das Nações Unidas. A carta defende “uma organização de paz internacional mais ágil e eficaz”, expressão que, na prática, significa menos espaço para negociações amplas e mais poder concentrado na figura do presidente americano.

Em Paris, a primeira leitura é de desconfiança. Uma fonte próxima ao presidente Emmanuel Macron afirma que a França “não tem previsão de dar uma resposta favorável” ao convite. A mesma fonte alerta que a iniciativa levanta “questões de grande alcance, em particular em relação ao respeito pelos princípios e pela estrutura das Nações Unidas, que em nenhum caso podem ser postos em causa”. O Ministério das Relações Exteriores francês reforça o recado ao lembrar o “apego” do país à Carta da ONU, que define a igualdade soberana entre Estados e a solução pacífica de controvérsias como base da ordem internacional.

O Canadá também sinaliza distância. Uma fonte do governo em Ottawa diz que “o Canadá não pagará por um assento no conselho, nem foi solicitado ao Canadá neste momento”, após Carney indicar que poderia aceitar o convite se as condições fossem claras. A frase deixa subentendido o incômodo com a cobrança de US$ 1 bilhão por presença à mesa, algo inédito na história recente da diplomacia multilateral.

Especialistas em direito internacional observam que a proposta extrapola o mandato que o próprio Conselho de Segurança da ONU concede ao plano de Trump para Gaza. Paul Williams, professor de Assuntos Internacionais na Universidade George Washington, lembra que a resolução aprovada em outubro autoriza o chamado Conselho de Paz a atuar apenas em relação ao território palestino. A carta apresentada agora, porém, não coloca limite geográfico para as ações do organismo e abre caminho para que intervenha em qualquer conflito que Trump julgue relevante.

A ONU reage com discreta firmeza. La Neice Collins, porta-voz do presidente da Assembleia Geral, afirma que “existe uma única organização universal e multilateral para abordar as questões de paz e segurança, e é a ONU”. A frase resume a preocupação de que o novo conselho se torne um fórum paralelo, com regras próprias, financiado por poucos países ricos e comandado quase exclusivamente por Washington.

Disputa por poder global e futuro incerto

O Conselho de Paz surge, inicialmente, como instrumento para supervisionar a reconstrução de Gaza, devastada por dois anos de guerra. A composição do órgão, porém, já provoca atritos diretos. Israel se opõe à criação de um “conselho executivo para Gaza” dentro da estrutura mais ampla, que inclui o chanceler turco, Hakan Fidan, e o diplomata catari Ali Al-Thawadi, dois nomes que o governo israelense associa a posições críticas de sua política de segurança.

Trump aproveita esse palco para reforçar sua hostilidade histórica à ONU. Nas últimas semanas, o presidente anuncia que os Estados Unidos vão se retirar de 66 organizações de tratados internacionais, cerca de metade delas ligadas ao sistema das Nações Unidas. A ofensiva desmonta, em ritmo acelerado, uma arquitetura construída ao longo de oito décadas e sinaliza a preferência da Casa Branca por estruturas sob medida, com menos membros, pagamentos elevados e margem maior para decisões unilaterais.

O desenho financeiro do Conselho de Paz tende a restringir a participação a países com grande capacidade orçamentária ou disposição política de gastar capital diplomático e recursos em troca de proximidade com Washington. Governos em crise fiscal ou sob pressão interna podem ter dificuldade em justificar o desembolso de pelo menos US$ 1 bilhão para um órgão que não oferece garantias claras de transparência ou de controle compartilhado. Na prática, o modelo abre espaço para uma espécie de clube de credores da paz, em que quem paga mais tende a ter mais voz, mesmo sem um sistema formal de pesos de voto.

A lista de nomes escolhidos por Trump para compor a cúpula do organismo reforça o caráter político e pessoal do projeto. O presidente indica o secretário de Estado, Marco Rubio, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, seu negociador para conflitos, Steve Witkoff, e o genro, Jared Kushner. A combinação mistura diplomacia tradicional, assessores de confiança e laços familiares, num arranjo que foge dos padrões de separação entre interesses privados e políticas de Estado exigidos em boa parte das democracias ocidentais.

Os próximos meses devem mostrar quantos países aceitam pagar o preço político e financeiro para entrar no círculo de Trump e quantos preferem se abrigar sob o guarda-chuva, ainda imperfeito, da ONU. Cada adesão ao Conselho de Paz tende a ser lida como gesto de alinhamento direto à Casa Branca. Cada recusa, como um voto de confiança no sistema multilateral que o presidente americano tenta contornar. No centro dessa disputa, permanece uma pergunta que nem o novo estatuto consegue responder: quem decide, em última instância, o que é paz e a que custo ela será construída.

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