Trump admite informação errada sobre tropas na Groenlândia, diz fonte
Donald Trump admite em conversa privada com o premiê britânico ter recebido informação incorreta sobre o envio de tropas europeias à Groenlândia, na semana de 19 de janeiro de 2026. O equívoco alimenta uma escalada diplomática com aliados da Otan e expõe falhas de comunicação entre EUA e Europa.
Erro de informação acende alerta entre aliados
A confusão começa dias antes, quando países europeus da Otan anunciam o envio de pequenos contingentes de soldados para exercícios militares na Groenlândia, território autônomo sob soberania dinamarquesa. As movimentações envolvem dezenas de militares de ao menos três países, em manobras combinadas com Copenhague e programadas para ocorrer ao longo de janeiro.
Trump reage em público como se estivesse diante de um movimento unilateral europeu, visto pela Casa Branca como tentativa de ampliar o controle militar sobre a ilha sem o aval direto de Washington. Fontes diplomáticas ouvidas pela CNN relatam surpresa com a irritação do presidente americano, já que o plano, segundo afirmam, é comunicado com antecedência às autoridades dos Estados Unidos.
Um funcionário dinamarquês afirma à CNN que o envio das tropas “não só foi informado aos EUA antes dos anúncios públicos, como também pré-coordenado dentro das estruturas militares europeias e americanas existentes”. O relato reforça a tese de que o problema não está na falta de aviso, mas na forma como a informação circula dentro do governo americano até chegar ao presidente.
Em Londres, autoridades britânicas descrevem como decisiva a conversa telefônica em que Trump admite ter recebido dados errados sobre o caráter e o tamanho das tropas mobilizadas. Para um interlocutor ouvido pela CNN, a admissão abre uma fresta para reduzir a tensão: “É um primeiro passo para a desescalada, porque reconhece que houve um mal-entendido”, diz.
Groenlândia volta ao centro da disputa geopolítica
A crise atual reacende um embate que se arrasta há anos em torno da Groenlândia, região estratégica no Ártico por reunir rotas militares sensíveis e vasto potencial de recursos naturais. Desde que Trump manifesta, ainda em seu primeiro mandato, o desejo de comprar a ilha, o tema se torna símbolo de atrito entre Washington e Copenhague.
Desta vez, o pano de fundo é a disputa por presença militar permanente. Os exercícios conjuntos, que preveem a chegada de novos contingentes dinamarqueses e de outros aliados europeus nas próximas semanas, servem como vitrine dessa disputa. Canadá também avalia enviar tropas para a região, segundo uma fonte, o que ampliaria o número de países com soldados em solo groenlandês antes do fim do inverno de 2026.
O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, diz na quarta-feira, 14 de janeiro, após encontro em Washington, que há uma “divergência fundamental” com os EUA sobre o futuro da ilha. A reunião reúne ainda a chanceler da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o vice-presidente JD Vance.
Diplomatas presentes ao encontro relatam que Rubio e Vance ouvem, sem interromper, as “linhas vermelhas” traçadas por Copenhague e Nuuk, capital groenlandesa. A mensagem principal, segundo um negociador ouvido pela CNN, é direta: a soberania dinamarquesa não está em discussão e o autogoverno groenlandês não aceita qualquer plano de transferência de controle.
Do lado americano, porém, não há recuo em relação ao objetivo estratégico de ampliar o poder de decisão dos EUA sobre a ilha. Interlocutores europeus descrevem uma postura firme da delegação de Washington, que insiste em um papel central dos Estados Unidos na definição de rotas militares e de futuras explorações energéticas no Ártico.
Mesmo com o impasse, o encontro produz um mecanismo de diálogo que tenta conter novos choques: um grupo de trabalho de alto nível sobre a Groenlândia. O colegiado, que deve reunir militares e diplomatas de ambos os lados já nas próximas semanas, passa a funcionar como canal oficial para tratar de exercícios, bases e eventuais acordos econômicos ligados à ilha.
Impacto na Otan e na imagem de Trump
A admissão de erro de Trump, ainda restrita aos bastidores, não apaga a impressão de que a comunicação dentro da Otan opera sob forte tensão política. Diplomatas europeus relatam à CNN que a escalada dos últimos dias é “mais rápida e mais aguda” do que esperam entre aliados que compartilham estruturas militares há mais de 70 anos.
Para capitais como Copenhague, Londres e Bruxelas, o episódio funciona como alerta sobre o quanto decisões sensíveis podem ser influenciadas por falhas de informação ao redor da Casa Branca. O fato de um equívoco sobre exercícios com pequenos contingentes, planejados com semanas de antecedência, gerar ruído público com um aliado central é visto como sinal de fragilidade.
Na prática, a crise adiciona uma camada de incerteza às discussões sobre o futuro da Otan no Ártico. Países europeus temem que novas reações intempestivas de Washington atrasem planos de modernização de bases e sistemas de monitoramento na região, hoje prioritária diante da crescente presença russa e chinesa.
Para Trump, que se prepara para consolidar sua influência sobre a política externa americana neste novo mandato, o episódio testa sua imagem de líder forte em temas militares. A discrepância entre o discurso público agressivo e a correção privada da informação alimenta críticas internas de que a Casa Branca reage antes de checar a cadeia de comando.
A CNN informa que pediu posicionamento oficial da Casa Branca sobre o telefonema, mas ainda aguarda resposta. Até agora, não há correção pública da interpretação inicial de Trump sobre o envio de tropas, o que mantém a pressão sobre diplomatas em Washington, Copenhague e Bruxelas.
O que vem a seguir na disputa pela ilha
O novo grupo de trabalho sobre a Groenlândia se reúne nas próximas semanas com a missão explícita de evitar choques semelhantes. Diplomatas europeus esperam estabelecer protocolos mais rígidos de comunicação para cada exercício militar na ilha, com prazos claros e canais diretos entre quartéis-generais em solo europeu e o Pentágono.
Negociadores dinamarqueses e groenlandeses veem o mecanismo como oportunidade para ganhar tempo e empurrar decisões mais drásticas para além de 2026. A aposta é que o debate público sobre a soberania da ilha se dilua, enquanto discussões técnicas sobre infraestrutura, rotas aéreas e regras para exploração mineral avancem em ritmo mais controlado.
Trump mantém, porém, o objetivo de ampliar o controle americano sobre a Groenlândia, segundo pessoas que acompanham de perto o tema. A ambição, somada à importância crescente do Ártico na disputa entre grandes potências, indica que a ilha continuará no centro da agenda estratégica dos EUA e da Europa.
Resta saber se o reconhecimento, ainda que privado, de um erro básico de informação será suficiente para reconstruir a confiança abalada entre os aliados. Ou se a próxima falha de comunicação voltará a transformar a Groenlândia em palco de crise dentro da própria Otan.
