Prefeito de Camboriú reage à possível candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado em SC
O prefeito de Camboriú, Leonel Pavan (PSD), critica em janeiro de 2026 a possível candidatura de Carlos Bolsonaro (PL-RJ) ao Senado por Santa Catarina. Ele acusa o partido de tratar o estado como “balcão de negócios” e reacende a disputa sobre a influência da família Bolsonaro na política catarinense.
Crítica direta à cúpula do PL em Santa Catarina
A declaração de Pavan ocorre em entrevista ao portal Catarina Notícias e mira a estratégia montada pelo PL desde o fim de 2025. Carlos Bolsonaro deixa a Câmara do Rio de Janeiro em dezembro, após mais de 20 anos como vereador, e assume uma função partidária em Santa Catarina para tentar se viabilizar como candidato ao Senado em 2026.
Pavan contesta a movimentação e diz que o partido ignora a história política e o eleitorado catarinense. “Acho uma loucura o que o PL está fazendo em Santa Catarina. Trazer um vereador lá do Rio de Janeiro só para ser candidato, como se nós fôssemos um balcão de negócios, que vai por emoção, eu acho uma loucura”, afirma. O prefeito fala de Camboriú, cidade de cerca de 90 mil habitantes na região da Foz do Rio Itajaí, um dos polos de influência da direita no estado.
O movimento em favor de Carlos enfrenta resistência dentro e fora do PL. No próprio partido, uma ala vê na possível candidatura uma ameaça direta ao projeto da deputada federal Carol de Toni, que se apresenta como pré-candidata ao Senado desde 2024. A disputa interna se intensifica porque Santa Catarina elege duas vagas para o Senado em 2026, mas o governador Jorginho Mello (PL) já declara apoio à reeleição do senador Esperidião Amin (PP), o que deixa apenas uma cadeira disponível para o PL.
A entrevista de Pavan ecoa esse incômodo. Ele diz que a importação de candidaturas de outros estados fere a lógica da representação local. Para o prefeito, Santa Catarina não pode funcionar como refúgio eleitoral de políticos com forte apelo em redes sociais, mas pouca ligação com o cotidiano dos eleitores catarinenses. “O Brasil não merece dividir a população por esquerda e direita”, afirma, ao criticar a polarização que cerca essas articulações.
Família Bolsonaro entra em rota de colisão com lideranças locais
A crítica de Pavan não surge isolada. A presença da família Bolsonaro em Santa Catarina provoca atritos em diferentes frentes políticas. Em Balneário Camboriú, cidade vizinha e vitrine turística do estado, a prefeita Juliana Pavan (PSD), filha de Leonel, trava embates públicos com Jair Renan Bolsonaro, irmão de Carlos e vereador no município desde 2025.
Em setembro de 2025, Juliana diz em um podcast que Jair Renan precisa de “mais capacitação” e que deveria “ler mais” os projetos em tramitação na Câmara. A declaração vem depois de o vereador ser o único voto contrário a uma proposta do Executivo para combater o furto de fios, problema que atinge diretamente serviços de iluminação pública e comunicação. “Respeito o posicionamento dele, apesar de ele quase não se posicionar, e, quando se posiciona, eu não consigo entender o que ele fala”, afirma a prefeita. O vereador reage nas redes sociais e chama Juliana de “analfabeta funcional”, o que acirra o clima político na cidade de pouco mais de 150 mil habitantes.
As rusgas locais se somam à disputa interna do PL. Em outubro, Carlos Bolsonaro chama a deputada estadual Ana Campagnolo de “mentirosa”, após ela relatar bastidores de acordos entre PL e PP para a eleição de 2026. Campagnolo diz sofrer ataques de militantes bolsonaristas desde que critica a ideia de impor o nome de Carlos ao eleitorado catarinense.
Prefeitos de outras cidades também reagem. Em novembro de 2025, o prefeito de Pouso Redondo, Rafael Tambozi (PL), diz que a candidatura soa como imposição. “A gente gosta do nosso gadinho, trata bem os nossos bichinhos, mas o povo de Santa Catarina não é gado. E isso tem que ficar bem claro nesse momento em que as lideranças não se posicionam enquanto temos a imposição da candidatura do Carlos a senador”, afirma. Em Joinville, maior cidade do estado, o prefeito Adriano Silva (Novo) classifica o movimento como “agressão ao Estado” e afirma que faria a mesma crítica a qualquer outro político que resolvesse se mudar apenas por oportunidade eleitoral.
O histórico de Pavan ajuda a dar peso às críticas. Ele é um dos nomes mais antigos da política catarinense em atividade. Assume a vice-governadoria em 2007, fica no cargo até 2010 e governa o estado por alguns meses após a renúncia de Luiz Henrique da Silveira, que sai para concorrer ao Senado. Antes disso, se elege senador em 2002, após dois mandatos como deputado estadual. Hoje, volta ao centro do debate ao questionar o rumo da direita catarinense.
Disputa por Senado expõe dilemas da direita catarinense
O embate em torno de Carlos Bolsonaro revela mais que um conflito regional. Mostra a dificuldade da direita em Santa Catarina para equilibrar o peso da marca Bolsonaro com as ambições de lideranças locais. A eleição de 2026 promete ser decisiva. O governador Jorginho Mello tenta a reeleição e precisa montar uma chapa competitiva para o Senado sem afastar aliados de outras siglas.
Se o PL confirmar Carlos Bolsonaro como candidato, a legenda tende a reduzir o espaço de Carol de Toni e aprofundar o racha com parte da militância conservadora que prefere nomes locais. Essa escolha pode reorganizar alianças em cidades estratégicas como Joinville, Chapecó e Blumenau, que concentram grande parte do eleitorado urbano e de renda média, faixa que varia entre R$ 5 mil e R$ 7 mil mensais, citada por Pavan como centro do debate econômico. Ele diz que essa população quer respostas sobre emprego, impostos e serviços públicos, não apenas discursos ideológicos.
A crítica à polarização encaixa nesse contexto. “O Brasil não merece dividir a população por esquerda e direita”, afirma Pavan, ao defender diálogo com diferentes campos políticos. Ele cita o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como exemplos de autoridades com quem está disposto a conversar. “Você acha que vou deixar de falar com o Lula? Com Tarcísio?”, pergunta.
A fala mira um eleitor que se declara conservador, mas demonstra fadiga com brigas permanentes nas redes e pouco resultado concreto. A discussão sobre quem terá espaço nas duas cadeiras de Senado em disputa em 2026 passa a ser também um teste sobre o limite da influência da família Bolsonaro no estado que mais deu votos a Jair Bolsonaro em 2018 e 2022.
Pressão por definição e risco de fragmentação em 2026
As legendas que orbitam o campo da direita acompanham o impasse com atenção. O PP, que tenta manter Esperidião Amin em Brasília por mais oito anos, depende do apoio de Jorginho Mello para consolidar a candidatura. O PL, por sua vez, precisa decidir se aposta na força simbólica de Carlos Bolsonaro ou se preserva espaços para quadros já instalados em Santa Catarina.
Até o momento, a direção estadual do PL não oficializa a pré-candidatura de Carlos, mas mantém o ex-vereador em posição de destaque na estrutura partidária catarinense. A demora alimenta especulações em Brasília e nas bases do partido. Prefeitos e deputados cobram um cronograma claro até o primeiro semestre de 2026, prazo em que as alianças costumam se consolidar.
O desfecho desse embate tende a influenciar não só a eleição para o Senado, mas também a formação de chapas para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa. Se a candidatura de Carlos avançar, o PL pode concentrar recursos e tempo de campanha em torno de seu nome, pressionando aliados e rivais e elevando o tom da disputa. Se recuar, terá de administrar o desgaste com a ala mais fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
As falas de Leonel Pavan funcionam como alerta público nesse tabuleiro. Elas expõem a tensão entre identidade local e projetos nacionais e colocam na mesa uma pergunta que acompanha todas as articulações para 2026: até que ponto Santa Catarina aceita ser vitrine da família Bolsonaro sem perder espaço para suas próprias lideranças?
