Nikolas Ferreira inicia caminhada de 240 km até Brasília em ato político
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) começa nesta segunda-feira (19/1/2026) uma caminhada de cerca de 240 quilômetros até Brasília. O percurso, pela BR-040, deve durar sete dias e é apresentado como protesto contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ato simbólico na estrada e nas redes
O movimento nasce de uma decisão anunciada ao vivo nas redes sociais, poucas horas depois de o parlamentar cumprir agenda em Minas Gerais. Ele afirma que desistiu de voltar para casa ao sentir uma “inquietação” com o cenário político e decidiu seguir a pé até a capital federal. O ponto de partida é a BR-040, eixo que liga Minas a Brasília e que já concentra apoiadores ao longo da manhã.
Em vídeo publicado em seus perfis oficiais, Nikolas descreve a iniciativa como um gesto de resistência. “Serão alguns longos dias de caminhada. Enfim, vamos para cima. Até domingo, em Brasília”, diz o deputado, ao prometer completar o trajeto em cerca de sete dias. A equipe que o acompanha organiza paradas em cidades ao longo da rodovia, onde o deputado pretende falar com simpatizantes e reforçar o tom de confronto com instituições.
O protesto se ancora em críticas diretas ao STF, à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e às decisões judiciais sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Nikolas chama de “prisões injustas” as condenações de manifestantes ligados à invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília. Para ele, há um ambiente de “manipulação psicológica” que teria anestesiado a reação da sociedade.
“Terminei uma agenda em Minas. Confesso para vocês, ia voltar para casa. Mas, durante muito tempo meu coração tem ficado inquieto diante das coisas que estão acontecendo. Escândalo atrás de escândalo”, afirma o parlamentar no vídeo. Ele diz que esse sentimento não é exclusivo de sua base eleitoral. “Esse sentimento de impotência não é só de vocês. É um sentimento nosso também”, declara, citando colegas da Câmara e do Senado que, segundo ele, compartilham da mesma avaliação.
Referência às ruas de 2016 e recado ao STF
A caminhada reedita a aposta da direita na capacidade de mobilização de rua. Nikolas faz referência explícita às manifestações que antecedem o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, e busca se colocar como herdeiro desse tipo de pressão popular. “Sobrou a nossa voz. Se Deus me entregou isso, eu vou ser essa voz”, afirma o deputado, em tom messiânico que costuma marcar seus discursos.
O roteiro até Brasília é pensado para favorecer a adesão de apoiadores e ampliar a repercussão digital. A cada parada, a equipe programa transmissões ao vivo, registros em vídeo e fotos para alimentar perfis com milhões de seguidores. A expectativa do entorno do parlamentar é que a marcha produza imagens fortes de grupos caminhando pelo acostamento da BR-040, com bandeiras do Brasil e faixas contra o STF e o governo federal.
A iniciativa surge em um momento de tensão permanente entre parte da direita e a cúpula do Judiciário. O STF mantém linhas firmes em processos sobre desinformação, ataque às urnas eletrônicas e tentativa de golpe de Estado. A prisão e a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, decisões que dividem o debate jurídico e político, tornaram-se combustível para a nova investida de Nikolas. Ele tenta transformar o descontentamento em capital político próprio em ano pré-eleitoral.
Ao falar em “resistência democrática” e em “esperança” para seus seguidores, o deputado mira também o sentimento de frustração de parcelas do eleitorado bolsonarista, que se veem sem um líder ativo no comando do Executivo. A caminhada surge como gesto concreto em um cenário dominado por disputas institucionais em Brasília e por decisões judiciais complexas, muitas vezes distantes do cotidiano das pessoas.
Impacto político e risco de nova escalada
A marcha até Brasília dá a Nikolas um palanque diário em plena BR-040, rodovia movimentada que corta cidades importantes de Minas e de Goiás. A cada quilômetro, o deputado tenta transformar a indignação de sua base em narrativa de perseguição política, com forte apelo emocional. O risco é alimentar ainda mais a polarização e ampliar ataques contra instituições, em especial o STF.
Lideranças governistas e aliados do Supremo observam com preocupação a possibilidade de que o ato incentive discursos radicais e conteste decisões judiciais. O histórico recente é sensível: os atos de 8 de janeiro de 2023 resultam em centenas de condenações e penas que, em alguns casos, ultrapassam 10 anos de prisão. Esse contexto torna qualquer mobilização que conteste abertamente essas sentenças um ponto de atenção para autoridades de segurança.
O ato também testa limites da liberdade de expressão e de manifestação política. Nikolas insiste em apresentar a caminhada como gesto pacífico, mas usa termos duros contra ministros do STF e contra o governo Lula. A forma como seus apoiadores interpretam esse discurso, tanto na estrada quanto nas redes sociais, definirá se o movimento se mantém dentro da legalidade ou se acende alertas de órgãos de fiscalização.
Nas plataformas digitais, a iniciativa tende a reforçar a imagem do deputado como um dos principais porta-vozes da oposição de direita no país. Vídeos curtos, frases de efeito e a estética da “peregrinação política” entregam material para engajamento rápido. Ao mesmo tempo, movimentos sociais alinhados ao governo e defensores do Judiciário devem reagir, acusando o parlamentar de atacar a democracia sob o pretexto de defendê-la.
Brasília como destino e palco
A chegada prevista para o próximo domingo, após sete dias de estrada, transforma Brasília no ponto alto do roteiro e em teste concreto de mobilização. Aliados de Nikolas trabalham com a possibilidade de um ato público na Esplanada dos Ministérios ou nas imediações da Câmara dos Deputados, dependendo de negociações com autoridades locais. A presença de caravanas de apoiadores ainda não está confirmada, mas grupos já organizam deslocamentos em redes de mensagens.
O desfecho da caminhada ajuda a medir o fôlego da oposição de direita fora das estruturas tradicionais de partido e de campanha. Se conseguir atrair centenas ou milhares de pessoas à capital federal, o deputado reforça seu papel de liderança nacional e pressiona outros nomes da direita a se posicionarem. Se o movimento terminar apenas como um registro de redes sociais, o gesto se soma a tantos outros atos simbólicos que marcam a política recente, sem alterar de forma concreta o rumo das instituições.
Enquanto Nikolas avança pela BR-040, o governo Lula, o STF e o Congresso monitoram não apenas cada quilômetro percorrido, mas a capacidade do ato de se transformar em algo maior. A pergunta, ao fim dos 240 quilômetros, é se a marcha inaugura uma nova fase de confronto nas ruas ou se ficará registrada apenas como mais um capítulo na disputa por atenção em tempos de política hiperconectada.
