Eduardo Cunha anuncia candidatura a deputado federal por Minas em 2026
O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha anuncia, nesta segunda-feira (19), que vai disputar uma vaga de deputado federal por Minas Gerais em 2026. O movimento tenta recolocar o estado no centro do tabuleiro nacional e marca a volta de um dos políticos mais controversos do país ao jogo eleitoral.
Minas como “síntese do Brasil” e plataforma de retorno
O anúncio sai primeiro nas redes sociais, em um vídeo no Instagram em que Cunha descreve Minas Gerais como a “síntese do Brasil”. Ele cita a diversidade econômica, social e geográfica, além da posição estratégica do estado, que faz fronteira com seis unidades da federação e abriga o segundo maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo.
Na mensagem, Cunha busca ligar seu destino político ao do estado. “O que acontece em Minas acontece no Brasil”, afirma, ao mencionar a proximidade com Goiás, Bahia, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro, bem como as diferenças entre o Norte de Minas, o Triângulo, o Vale do Jequitinhonha e a região Central. O discurso tenta falar a vários públicos ao mesmo tempo, da indústria pesada às cidades pequenas dependentes de serviços públicos.
Disputa nacionalizada e ataque à gestão petista
Cunha escolhe um ângulo conhecido da política mineira: a ideia de que o estado decide eleições nacionais. Ele lembra 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vence Jair Bolsonaro (PL) em Minas por margem apertada, e usa o resultado recente como vitrine do peso mineiro nas definições do país. Minas tem hoje mais de 16 milhões de eleitores, cerca de 10% do total nacional, número que deve crescer até 2026.
Ao olhar para dentro do estado, o ex-presidente da Câmara mira o passado recente e critica a gestão de Fernando Pimentel (PT), governador entre 2015 e 2018. Classifica o período como um “desastre” e afirma que Minas “tem um papel muito maior do que exerce hoje”. A crítica resgata a crise fiscal que se aprofunda naqueles anos, com salários de servidores parcelados e atraso em repasses obrigatórios, e indica que ele vai explorar a memória de desgaste petista no estado.
A estratégia tenta conectar temas nacionais, como ajuste de contas públicas e articulação com Brasília, a problemas muito concretos, do caixa do governo à infraestrutura regional. Ao se apresentar como candidato por Minas, depois de tentar uma vaga por São Paulo em 2022 e fracassar, Cunha também sinaliza um cálculo eleitoral: apostar em um eleitorado mais pulverizado, onde o voto de opinião e o voto conservador têm espaço relevante em cidades médias e grandes.
Histórico jurídico pesado volta ao centro do debate
O retorno de Cunha à cena eleitoral ocorre sob a sombra de um histórico jurídico extenso. Em 2017, ele é condenado pelo então juiz federal Sergio Moro a 15 anos e 4 meses de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, em um dos processos da Operação Lava-Jato. Dois anos antes, em 2015, ele chega ao auge do poder ao assumir a presidência da Câmara. Em 2016, perde o mandato cassado pelos próprios colegas, em sessão arrastada que simboliza o desgaste de uma geração política.
A biografia recente inclui uma tentativa frustrada de volta ao Congresso por São Paulo em 2022, quando não consegue votos suficientes para se eleger deputado federal. Em 2023, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal anula uma das condenações, por questões de competência jurisdicional, e envia o caso à Justiça Eleitoral. A decisão alimenta o discurso de perseguição que Cunha repete desde os tempos da Lava-Jato e abre espaço para a rearticulação de sua carreira.
Ao anunciar que pretende concorrer por Minas, ele recoloca esse passado no centro da campanha. A discussão sobre ficha, condenações e anulações deve dividir palanques e redes. Adversários tendem a usar a sentença de 2017 e o peso simbólico da Lava-Jato como arma retórica. Aliados, se confirmados, devem insistir na narrativa de que o processo foi politizado e que decisões posteriores do STF corrigem excessos da operação.
Impacto em alianças e cálculo eleitoral em Minas
O movimento de Cunha mexe em um xadrez já complexo. Minas é terreno decisivo para partidos de centro e direita, que enxergam no estado um laboratório de alianças capazes de influenciar o Planalto. A presença de um nome polarizador tende a pressionar lideranças locais a se posicionar. Siglas que hoje disputam o eleitorado conservador mineiro terão de decidir se abrem espaço para Cunha em suas chapas ou se o mantêm à margem, para evitar contaminação da imagem.
A candidatura pode alterar cálculos em coligações proporcionais, nas quais cada voto conta para eleger mais de um deputado. Um nome de alta exposição costuma puxar votos para a legenda, mas também concentra rejeição. Em 2022, Minas registra disputas acirradas por vagas na Câmara, com diferenças de poucos milhares de votos definindo quem entra e quem fica de fora. Em 2026, o efeito Cunha pode ser decisivo em zonas eleitorais específicas, sobretudo em regiões urbanas onde o debate sobre corrupção ainda inflama o eleitor.
Organizações da sociedade civil e movimentos de renovação política devem reagir nos próximos meses, reabrindo debates sobre ética pública, transparência e critérios de elegibilidade. A discussão vai além do caso individual e atinge o sistema de justiça, o alcance da Justiça Eleitoral e o peso das decisões do STF na vida política de condenados da Lava-Jato.
Próximos passos e incertezas até 2026
O anúncio pelas redes sociais é o primeiro passo de uma jornada que se estende por pelo menos vinte meses até a eleição de outubro de 2026. Cunha ainda precisa definir legenda, montar palanque regional e negociar espaço em chapas proporcionais. A articulação envolve prefeitos, vereadores e lideranças setoriais em um estado com 853 municípios e interesses dispersos entre agronegócio, mineração, indústria, serviços e funcionalismo público.
O calendário eleitoral impõe prazos objetivos, como a janela partidária e a data limite de filiação, enquanto o ambiente político testa a resiliência de um candidato com forte rejeição. Até lá, Minas volta a ser palco de uma disputa que ultrapassa suas fronteiras: a capacidade de o Congresso absorver figuras marcadas por condenações e anulações judiciais. A resposta das urnas em 2026 ajuda a indicar se o eleitor mineiro vê, em Eduardo Cunha, um retorno aceitável ao centro da política ou um capítulo que prefere encerrar de vez.
