Cursos de Medicina em São José e Taubaté vão mal em exame nacional
Os cursos de Medicina de São José dos Campos e Taubaté recebem avaliação ruim no Enamed, exame nacional da formação médica, divulgado nesta segunda-feira (19). O resultado acende um alerta sobre a qualidade do ensino e pressiona as instituições do Vale do Paraíba a rever currículos, estágios e métodos de ensino já para as próximas turmas.
Exame nacional expõe fragilidades locais
O Enamed, criado para medir a qualidade da formação médica no país, avalia conhecimentos clínicos, raciocínio diagnóstico e preparo ético dos futuros profissionais. A prova, aplicada no fim de 2025 e tornada pública agora, funciona como um raio-x dos cursos de Medicina e baliza decisões do Ministério da Educação e de conselhos profissionais.
Em São José e Taubaté, o desempenho fica abaixo do padrão esperado e coloca as duas cidades, com juntas mais de 1 milhão de habitantes, no centro de uma discussão incômoda: a de que a expansão recente de vagas não veio acompanhada da mesma velocidade em estrutura, supervisão de estágios e corpo docente. A avaliação ruim não significa fechamento automático de cursos, mas abre caminho para uma sequência de cobranças formais e monitoramento mais rígido.
Professores ouvidos pela reportagem, sob condição de anonimato, admitem que a cobrança é legítima. “O resultado escancara problemas que já sentimos na prática: excesso de alunos por turma, sobrecarga em campos de estágio e dificuldade para atualizar as metodologias”, diz um docente de clínica médica de uma das instituições. A percepção é compartilhada por estudantes, que veem nos números uma confirmação de angústias antigas.
Uma aluna do quinto ano, de 23 anos, relata frustração. “A gente estuda, se dedica, mas muitas vezes não tem preceptor suficiente no hospital ou acesso regular a ambulatórios. Quando sai um exame nacional mostrando que ficamos atrás, dá medo de como o mercado vai enxergar nossa formação”, afirma.
Risco à reputação e à confiança da população
A avaliação ruim tem efeito imediato sobre a imagem das faculdades no Vale do Paraíba. Cursos que se vendem como porta de entrada para carreiras em grandes centros médicos passam a ser associados a desempenho fraco em um exame de referência nacional. O impacto é direto na disputa por alunos, principalmente em um cenário de mensalidades que podem ultrapassar R$ 10 mil por mês.
A preocupação ultrapassa os muros dos campi. Em cidades que dependem fortemente de serviços conveniados ao SUS e de hospitais universitários para atendimento de média complexidade, a formação de novos médicos é questão de saúde pública. “Quando um curso de Medicina vai mal em uma avaliação desse porte, a pergunta que a população faz é simples: o médico que me atende está preparado?”, afirma um gestor municipal de saúde do Vale, que acompanha o tema desde a criação do exame.
Autoridades acadêmicas temem efeitos em cadeia. O Ministério da Educação pode exigir planos de melhoria em prazo definido, como 12 ou 24 meses, e atrelar o cumprimento a sanções concretas. Entre as medidas previstas em normas regulatórias estão redução de vagas, suspensão de novos ingressos e, em casos extremos, fechamento temporário do curso até que indicadores melhorem.
Para os estudantes já matriculados, o cenário traz incerteza. Alguns cogitam transferência para instituições com melhor desempenho em avaliações federais, o que não é simples nem barato. Outros apostam que a exposição negativa pode acelerar mudanças internas. “Se o MEC vier em cima e a faculdade tiver medo de perder vaga, talvez finalmente invistam em laboratório, biblioteca atualizada e mais preceptores”, diz um aluno do terceiro ano.
Especialistas em educação superior lembram que o Enamed integra um movimento de controle de qualidade que ganha força na última década, após um ciclo de abertura de dezenas de cursos de Medicina pelo país. Em 10 anos, o número de vagas dobra em algumas regiões, mas a fiscalização não acompanha o mesmo ritmo. “O exame não resolve tudo, mas joga luz sobre situações que, sem indicador nacional, ficariam escondidas em relatórios internos”, resume uma pesquisadora da área de regulação universitária.
Cobrança por mudanças e próximos passos
A partir da divulgação dos resultados, as instituições de São José e Taubaté entram no radar imediato de órgãos reguladores. O MEC pode determinar comissões de avaliação in loco ainda em 2026, revisar conceitos de qualidade e exigir planos detalhados de reestruturação. As ações costumam envolver reforço em supervisão de internato, ampliação de convênios com hospitais e unidades básicas e revisão da proporção de alunos por professor.
Conselhos regionais de Medicina acompanham o processo com atenção. A expectativa é que o desempenho no Enamed influencie discussões sobre supervisão de recém-formados e programas de residência. Em paralelo, entidades estudantis organizam debates públicos e assembleias para cobrar transparência das faculdades sobre índices de reprovação na prova, investimentos prometidos e prazos para mudanças visíveis no dia a dia.
As próximas semanas devem ser decisivas para o desenho das respostas institucionais. Direções de curso trabalham em relatórios internos, cruzam dados do exame com avaliações próprias e tentam construir um discurso que reconheça falhas sem afastar candidatos no próximo vestibular. A pressão, porém, vem de todos os lados: de alunos, de reguladores e de uma população que depende, cada vez mais, de médicos bem formados para enfrentar desde filas na atenção básica até emergências complexas.
O desempenho ruim no Enamed não encerra a história dos cursos de Medicina de São José e Taubaté, mas redefine o patamar de cobrança. A partir de agora, cada decisão sobre vagas, estágios e investimentos será lida à luz de um dado incômodo e inescapável: o exame nacional mostrou que há um descompasso entre o diploma entregue e a formação que a sociedade espera. A questão que permanece aberta é se a reação virá na velocidade que a realidade impõe.
