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Prefeito de Camboriú chama de “loucura” candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado por SC

O prefeito de Camboriú, Leonel Pavan (PSD), chama de “loucura” a decisão do PL de lançar Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina em 2026. Em entrevista publicada nesta segunda-feira (19), ele acusa o partido de tratar o estado como “balcão de negócios” e critica a polarização que domina a política local.

Crítica direta ao PL e à estratégia em Santa Catarina

Pavan dá a declaração ao site Catarina Notícias e se coloca abertamente contra a movimentação que leva o ex-vereador do Rio a disputar uma das duas vagas catarinenses ao Senado em 2026. “Eu acho uma loucura o que o PL está fazendo em Santa Catarina”, afirma. Para ele, a forma como o partido conduz a sucessão revela desrespeito à base política e ao eleitorado do estado. “O PL está agindo como se nós fôssemos um balcão de negócios”, diz.

A crítica surge em meio à reorganização da direita catarinense para 2026, centrada na reeleição do governador Jorginho Mello (PL) e na definição das candidaturas ao Senado. O movimento para viabilizar Carlos Bolsonaro começa em dezembro do ano passado, quando ele renuncia ao mandato de vereador no Rio de Janeiro, cargo que ocupa desde 2001, e transfere o domicílio eleitoral para Santa Catarina. A decisão abre uma disputa imediata dentro do PL e acentua fissuras já visíveis no partido.

Disputa interna, polarização e família Bolsonaro em SC

A chegada de Carlos Bolsonaro interfere diretamente nos planos de outras lideranças da sigla. Parte do PL, incluindo o próprio clã Bolsonaro, vinha defendendo a candidatura da deputada Caroline de Toni (PL-SC) para a segunda vaga ao Senado pelo estado. No cenário costurado por caciques nacionais, porém, ganha força a possibilidade de apoio a Esperidião Amin (PP), em uma aliança que pode envolver o PP e a federação com o União Brasil em torno de Jorginho Mello.

O impasse se torna público quando Caroline de Toni passa a confrontar Carlos e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nas redes sociais. Em dezembro, aliados da deputada divulgam vídeos e mensagens de apoio explícito à candidatura dela, em reação à hipótese de que Carlos herde o espaço. A disputa expõe a tensão entre quem defende maior protagonismo de lideranças locais e quem aposta na força da marca Bolsonaro para manter o domínio sobre um eleitorado que, em 2022, deu 69,27% dos votos a Jair Bolsonaro no segundo turno contra Lula (PT).

O protagonismo da família no estado já tem outro capítulo em Balneário Camboriú, cidade vizinha a Camboriú. Jair Renan Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente, é eleito vereador em 2024 com a maior votação do município. A presença dele reforça a sensação de que Santa Catarina se torna vitrine bolsonarista no Sul do país, movimento que, para Pavan, ignora a necessidade de representação enraizada na realidade local.

A crítica do prefeito, no entanto, vai além da disputa interna do PL. Ele ataca o clima de hostilidade que organiza o debate político em torno de rótulos ideológicos. “A divisão do país entre direita e esquerda é uma vergonha”, afirma. Em tom provocador, Pavan diz que quer ver “o que esse pessoal que ganha até R$ 5.000 e R$ 7.000 vai dizer quando começar a liberar o Imposto de Renda. Se vão ser direita ou se vão ser esquerda”. Para ele, o discurso identitário que opõe campos políticos esvazia a discussão sobre renda, serviços públicos e qualidade de vida.

“Quem é que não é família? Quem é que não é pátria? É todo mundo igual. É uma ignorância, esses extremos, uma ignorância enorme”, conclui o prefeito. Ao citar o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, Pavan tenta ilustrar seu argumento de que há espaço para diálogo em diferentes espectros. “É secretário de estado do Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo], e o partido apoia o Lula no nível nacional”, lembra, apontando o trânsito político como sinal de pragmatismo, não de traição ideológica.

Impacto na eleição de 2026 e na base de Jorginho Mello

A fala do prefeito ecoa entre prefeitos, vereadores e lideranças regionais que veem com desconfiança a importação de candidaturas. A leitura de bastidores é que a entrada de Carlos Bolsonaro pode fortalecer o palanque bolsonarista, mas também aprofundar fraturas num estado em que disputas internas já derrubam alianças em eleições municipais recentes. Em 2024, a força do bolsonarismo ajuda a eleger Jair Renan em Balneário Camboriú, mas não impede conflitos locais por espaço e orçamento.

A possibilidade de o PL sacrificar uma candidatura própria ao Senado para atrair Esperidião Amin mexe com a aritmética política. Um acordo com PP e União Brasil tende a ampliar o tempo de TV, a estrutura de campanha e o arco de alianças para Jorginho Mello em 2026. Em contrapartida, pode frustrar quadros que esperam ascender no próprio PL, como Caroline de Toni, e alimentar a narrativa de que decisões relevantes são tomadas em gabinetes fora do estado.

Para o eleitorado, o movimento testa os limites da fidelidade à marca Bolsonaro. Em 2022, Santa Catarina dá a Jair Bolsonaro uma das maiores votações proporcionais do país, atrás apenas de Acre, Rondônia e Roraima, onde o ex-presidente supera 70% dos votos. Agora, a aposta do PL é que esse capital político segue intacto e pode ser transferido para Carlos em uma campanha montada em menos de dois anos, mesmo sem trajetória política construída no estado.

Analistas ouvidos nos bastidores avaliam que a estratégia tem risco calculado. Um desempenho aquém do esperado de Carlos Bolsonaro na disputa ao Senado pode enfraquecer o discurso de hegemonia da direita em Santa Catarina e abrir espaço para candidaturas alternativas, inclusive no campo conservador. O foco, na visão desses observadores, será medir se o eleitor está mais atento ao sobrenome, às alianças locais ou às entregas concretas de cada grupo político em temas como segurança, saúde e emprego.

Autonomia catarinense em teste e próximos movimentos

As declarações de Pavan colocam na vitrine um incômodo que vinha sendo tratado em conversas reservadas. Prefeitos e lideranças regionais de diferentes partidos, de PSD a MDB, relatam desconforto com o que chamam de “intervenção de Brasília” na montagem das chapas. O caso de Carlos Bolsonaro vira exemplo desse conflito entre projeto nacional e autonomia estadual, em um momento em que Santa Catarina tenta preservar a imagem de estado organizado, com altos indicadores sociais e econômicos.

Nos próximos meses, o calendário interno dos partidos se torna decisivo. O PL precisa definir até o fim de 2025 quem vai ocupar os espaços centrais na chapa majoritária de 2026, enquanto PP, PSD e União Brasil calculam o custo de aderir ou não ao projeto de reeleição de Jorginho Mello. A forma como o partido vai lidar com a insurgência de nomes locais, como Caroline de Toni, e com críticas públicas como as de Leonel Pavan indica o grau de tolerância a divergências internas.

O desfecho dessa disputa responde a uma pergunta que começa a ecoar fora dos bastidores: até que ponto o eleitor catarinense aceita trocar representatividade enraizada por uma candidatura patrocinada de fora? A campanha de 2026 deve mostrar se o estado continua a ser vitrine do bolsonarismo nacional ou se passa a cobrar, com mais força, compromisso com problemas concretos do dia a dia.

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